Trump eleva tarifas contra Coreia do Sul e amplia tensão comercial
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, eleva de 15% para 25% as tarifas sobre produtos da Coreia do Sul nesta segunda-feira (26). A medida atinge setores como automóveis, madeira e farmacêuticos e aprofunda o desgaste nas relações econômicas entre Washington e Seul.
Reação à ruptura de um acordo anunciado como “histórico”
Trump anuncia o aumento das tarifas em uma declaração oficial e em publicações nas redes sociais. Ele afirma que responde à decisão do Legislativo sul-coreano de não promulgar o acordo comercial fechado em julho do ano passado, apresentado por ele como “histórico”.
“O Legislativo da Coreia do Sul não está cumprindo o acordo firmado com os Estados Unidos”, escreve o presidente em uma das mensagens. Em outra postagem, ele reforça o recado: “Como o Legislativo coreano não promulgou nosso Acordo Comercial Histórico, o que é prerrogativa deles, estou aumentando as tarifas sul-coreanas sobre automóveis, madeira, produtos farmacêuticos e todas as outras tarifas recíprocas de 15% para 25%”.
O entendimento anunciado em julho previa uma forte aproximação econômica. Washington reduziria as tarifas aplicadas aos produtos sul-coreanos para 15%. Em contrapartida, Seul investiria US$ 350 bilhões em projetos escolhidos pela Casa Branca e compraria US$ 100 bilhões em gás natural liquefeito e outros produtos energéticos americanos.
Autoridades sul-coreanas avaliam internamente que o pacote exigido por Trump empurraria o país para uma crise financeira se fosse aceito sem salvaguardas. A equipe econômica teme o impacto de compromissos bilionários em um cenário de desaceleração global e maior volatilidade cambial na Ásia.
Trump mantém a pressão ao longo de 2025. Em outubro, às vésperas de uma visita oficial a Seul, ele insiste que a Coreia do Sul deve fornecer “bilhões de dólares” em investimentos “adiantados”. Durante a agenda, afirma que o acordo está concluído, mesmo sem ratificação parlamentar sul-coreana.
Impacto imediato em cadeias produtivas e investidores
O salto das tarifas para 25% encarece de forma imediata os produtos sul-coreanos que entram no mercado americano. Montadoras, fabricantes de autopeças e empresas de tecnologia que dependem de componentes produzidos na Coreia do Sul calculam aumento de custos e possível repasse de preços ao consumidor nos próximos meses.
Automóveis e partes de veículos, hoje integrados a cadeias globais que cruzam o Pacífico, se tornam o símbolo mais visível da disputa. A indústria farmacêutica, que compra insumos e medicamentos sul-coreanos para o mercado americano, também se prepara para margens mais apertadas. No setor de madeira e derivados, empresas que importam da Ásia buscam alternativas na América Latina e no próprio território americano, o que tende a elevar preços no curto prazo.
Analistas de comércio internacional veem as novas tarifas como mais um capítulo da estratégia de Trump de usar o acesso ao mercado dos EUA como alavanca política. A medida sinaliza a outros parceiros que acordos anunciados pela Casa Branca precisam ser internalizados sem demora, sob pena de sofrer punições rápidas.
No mercado financeiro, investidores acompanham a reação de Seul e de outras economias asiáticas. Bolsas da região podem ampliar a volatilidade à medida que empresas listadas reveem projeções de lucro. Exportadores sul-coreanos que dependem dos Estados Unidos como principal destino correm o risco de perder espaço para concorrentes europeus e japoneses.
A medida também pressiona o câmbio. Uma deterioração nas contas externas da Coreia do Sul, somada à incerteza sobre novas rodadas de tarifas, pode levar a movimentos defensivos de capitais e a um won mais fraco frente ao dólar.
Escalada diplomática e incerteza sobre próximos passos
O governo sul-coreano enfrenta um dilema político. Ceder às exigências de Trump e reabrir a tramitação do acordo no Legislativo significa assumir compromissos de ao menos US$ 450 bilhões com os EUA. Resistir e buscar novos mercados, por outro lado, pode aprofundar a ruptura com Washington em um momento de insegurança estratégica na Ásia.
Diplomatas em Seul discutem se a resposta virá por meio de uma contestação em organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio, ou por retaliações diretas, com medidas sobre produtos americanos considerados sensíveis. Setores como agricultura, tecnologia e serviços digitais aparecem entre os candidatos a entrar em uma eventual lista de resposta.
O gesto de Trump também reverbera além da península coreana. Parceiros dos dois países, especialmente no Indo-Pacífico, avaliam como a disputa pode redesenhar alianças econômicas e acordos regionais. Um aumento da tensão entre Washington e Seul em 2026 tende a influenciar negociações em curso com outras economias da região e a adiar investimentos de longo prazo em energia e infraestrutura.
A Casa Branca promete um pronunciamento mais amplo sobre a economia na terça-feira (27). A expectativa em Washington e em capitais asiáticas é que Trump use o discurso para reforçar a narrativa de defesa dos trabalhadores americanos e para manter a pressão sobre o Parlamento sul-coreano.
Resta saber se a Coreia do Sul aceitará renegociar um acordo que considera arriscado ou se buscará construir novas pontes comerciais fora da órbita de Washington. A resposta de Seul pode definir não apenas o futuro das tarifas, mas o rumo das relações econômicas na região mais dinâmica do planeta.
