Trump e Otan negociam expansão de presença militar dos EUA na Groenlândia
Donald Trump anuncia, em 21 de janeiro de 2026, em Davos, um esboço de acordo para ampliar a presença militar dos Estados Unidos na Groenlândia e em todo o Ártico, após reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. A negociação reacende o debate sobre soberania na ilha, território autônomo sob a Coroa dinamarquesa, e sobre o alcance do poder americano em uma das regiões mais sensíveis do planeta.
Disputa estratégica em uma região em transformação
O anúncio ocorre nos bastidores do Fórum Econômico Mundial, em um momento em que o derretimento acelerado do gelo abre novas rotas marítimas e torna o Ártico peça central da geopolítica. A Groenlândia, com pouco mais de 2,1 milhões de km² e cerca de 56 mil habitantes, volta ao centro das ambições de Washington, Moscou e Pequim por sua posição estratégica e por reservas estimadas de petróleo, gás e minerais raros.
Trump afirma, em publicação na rede Truth Social, que os Estados Unidos e a Otan “definem a estrutura de um futuro acordo referente à Groenlândia e, na verdade, a toda a região do Ártico”. A declaração confirma que a Casa Branca busca transformar em política formal o que, há anos, aparece como desejo recorrente de ampliar a presença militar americana na ilha.
O ponto sensível da conversa, segundo uma fonte que acompanha as discussões, é a soberania sobre áreas onde funcionam bases americanas construídas durante a Guerra Fria. Parte das negociações envolve revisar a fronteira entre o que é território sob controle dinamarquês e o que passa a ser, na prática, espaço militar sob regras definidas por Washington.
O debate não é novo. Em 1951, Estados Unidos e Dinamarca assinam um pacto de defesa que formaliza a presença militar americana na Groenlândia. O acordo, ainda em vigor, autoriza a instalação de bases aéreas e o trânsito livre de tropas e equipamentos, desde que as autoridades locais e dinamarquesas sejam notificadas. Passados 75 anos, o governo Trump tenta transformar esse tratado, desenhado para a lógica bipolar da Guerra Fria, em instrumento de projeção de poder em um Ártico disputado por múltiplos atores.
Tarifas suspensas e Otan no papel de articuladora
As conversas com Rutte em Davos produzem um efeito imediato: o presidente americano suspende tarifas que começariam a valer em 1º de fevereiro contra países europeus críticos às ambições dos EUA na Groenlândia. As sobretaxas, em estudo há meses, miram setores industriais sensíveis e funcionam como moeda de troca nas negociações de segurança com aliados da Otan que enviam tropas para exercícios na Dinamarca.
Trump admite o recuo e vincula a decisão ao avanço das conversas sobre a ilha. “As discussões seguem em andamento”, diz, sem detalhar prazos ou metas concretas. O gesto reduz a pressão comercial sobre governos europeus e tenta reposicionar a Casa Branca como parceira, não apenas como potência que ameaça com tarifas a cada impasse diplomático.
O secretário-geral da Otan, segundo uma autoridade da aliança, já discute há meses com Washington alternativas para ampliar o uso de instalações na Groenlândia sem romper o delicado equilíbrio com Copenhague. A mesma fonte afirma que a ideia de reforçar a presença militar americana na ilha aparece “repetidamente” nas conversas e ganha novo impulso em Davos.
Mais cedo, no mesmo dia, Trump sobe ao palco do Fórum Econômico Mundial e tenta afastar o fantasma de uma anexação forçada. “As pessoas pensaram que eu usaria a força, mas eu não preciso usar a força”, afirma, ao comentar as ambições sobre a Groenlândia. A frase ecoa tentativas anteriores do republicano de comprar a ilha, em 2019, rejeitadas com firmeza pelo governo dinamarquês e pelas autoridades locais.
A diferença, agora, está no formato. Em vez de falar em compra, Trump fala em um acordo de duração “infinita” para uso militar do território, sempre segundo pessoas presentes às conversas em Davos. Na prática, um pacto sem prazo definido consolida a presença americana por décadas, ainda que a soberania formal permaneça com a Dinamarca e com o governo autônomo groenlandês.
Ártico em disputa e limites da soberania
A renegociação do acordo de 1951 tem potencial para redesenhar o equilíbrio militar no extremo norte. A base aérea de Thule, no noroeste da Groenlândia, já integra a rede de radares e sistemas de defesa antimíssil dos Estados Unidos. Um novo pacto pode ampliar o número de pontos de apoio para aviões, submarinos e navios de vigilância, fortalecendo a capacidade americana de monitorar rotas que ligam o Atlântico Norte ao oceano Ártico.
Rússia e China acompanham o movimento com atenção. Moscou reativa, desde 2014, bases adormecidas na costa ártica e testa mísseis e navios quebra-gelo em águas geladas. Pequim se autodeclara “quase Estado ártico” e investe em projetos de mineração e transporte na região. Qualquer sinal de reforço americano na Groenlândia tende a gerar resposta proporcional, seja em exercícios militares, seja em investimentos em infraestrutura estratégica.
Para a Dinamarca, o tema é sensível em duas frentes. No plano interno, Copenhague precisa conciliar as demandas de maior autonomia da Groenlândia com a necessidade de manter o país integrado à arquitetura de defesa ocidental. No plano externo, o governo tenta evitar que a ilha se torne palco de uma disputa aberta entre potências, com impacto direto sobre pesca, mineração e meio ambiente.
Na prática, a ampliação da presença militar americana pode levar mais recursos para a região, em contratos de construção, manutenção e serviços, mas também aumenta o risco de acidentes e de incidentes diplomáticos. Comunidades locais, que dependem da pesca e da caça em um ecossistema frágil, temem que o avanço de infraestrutura militar pressione ainda mais um território já afetado pelo aquecimento global.
No âmbito da Otan, o caso funciona como teste da capacidade de a aliança mediar interesses divergentes entre Washington e capitais europeias. Um acerto sobre a Groenlândia, costurado com participação ativa de Rutte, reforça a imagem de uma organização capaz de atualizar, em 2026, arranjos de segurança herdados do início da década de 1950.
Negociações em aberto e pressão crescente no Ártico
Os próximos meses devem ser decisivos para transformar a “estrutura” de acordo anunciada por Trump em um tratado com cláusulas claras, cronograma e mecanismos de supervisão. Qualquer revisão do pacto de 1951 precisa passar por discussões com o Parlamento dinamarquês, com o governo autônomo groenlandês e com aliados da Otan diretamente afetados pelas mudanças.
Diplomatas em Bruxelas e Copenhague avaliam que a margem de manobra é estreita. Conceder mais espaço a Washington significa reforçar a proteção militar em uma região estratégica, mas também pode alimentar a narrativa russa e chinesa de que o Ártico se transforma em zona de influência americana. Adiar decisões, por outro lado, aumenta a incerteza em um tabuleiro onde o gelo derrete mais rápido do que os governos conseguem atualizar seus tratados.
Entre a promessa de um acordo “infinito” e a realidade de parlamentos céticos, a Groenlândia volta a ser o elo mais disputado da cadeia de segurança ocidental. A forma como Trump, Rutte e os aliados da Otan desenham esse novo pacto ajudará a definir não apenas o mapa militar do Ártico, mas também os limites da soberania em um mundo em que o clima, a geopolítica e o comércio se entrelaçam de forma cada vez mais estreita.
