Trump diz que Estreito de Ormuz será reaberto “de um jeito ou de outro”
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta sexta-feira (10) que o Estreito de Ormuz, hoje bloqueado pelo Irã, será reaberto “de um jeito ou de outro”. A declaração ocorre na Base Aérea Conjunta Andrews, na Virgínia, às vésperas de novas negociações com Teerã lideradas pelo vice-presidente JD Vance no Paquistão.
Pressão sobre o Irã e o risco para o petróleo mundial
Trump fala ao embarcar para um evento de arrecadação de fundos na Vinícola Trump, na região de Piedmont, também na Virgínia. A cena, entre helicópteros e assessores apressados, reforça o clima de urgência em torno de Ormuz, responsável historicamente pela passagem de cerca de 20% do petróleo comercializado pelo mar.
O estreito está bloqueado pelo Irã em meio à guerra, interrompendo rotas por onde circulam milhões de barris por dia rumo à Ásia, Europa e Estados Unidos. Navios-tanque aguardam ancorados em portos do Golfo Pérsico, fretes disparam e governos calculam quanto tempo seus estoques nacionais conseguem segurar a demanda sem disparar preços internos.
Trump tenta transmitir confiança diante da incerteza. “Acho que vai acontecer bem rápido. E, se não acontecer, daremos um jeito de resolver a situação de um jeito ou de outro”, diz, ao comentar as conversas com o Irã articuladas por Washington. Questionado se um eventual acordo também incluiria a reabertura do estreito, responde sem hesitar: “Sim, mas ele será aberto automaticamente”. Pouco depois, reforça que o canal será liberado “em breve”.
O discurso mira duas plateias ao mesmo tempo. Em Teerã, o recado é de pressão militar e diplomática. Em Wall Street, em Bruxelas e em Tóquio, a frase funciona como sinal político de que Washington não pretende aceitar um bloqueio prolongado em uma das rotas mais sensíveis do comércio mundial.
Núcleo do acordo: travar a bomba iraniana
Ao detalhar a estratégia americana, Trump deixa claro que a questão nuclear pesa mais do que o próprio estreito. “Sem armas nucleares. Isso representa 99% do acordo”, afirma, ao ser questionado sobre o foco dos negociadores que se reúnem nos próximos dias no Paquistão. Assessores calculam que qualquer entendimento plausível com Teerã passa por limites verificáveis ao enriquecimento de urânio e ao programa de mísseis de longo alcance.
O vice-presidente JD Vance segue para Islamabad para chefiar a delegação dos EUA. Ele pretende encontrar representantes iranianos em reuniões mediadas pelo governo paquistanês. O país asiático, que mantém canais abertos com Teerã e Washington, tenta se firmar como ponte em um momento em que aliados tradicionais dos EUA, como países europeus e monarquias do Golfo, divergem sobre o ritmo e a forma da pressão sobre o Irã.
Trump adota tom misto de incentivo e cobrança em relação ao vice-presidente. “Desejo-lhe boa sorte. Ele tem uma tarefa importante pela frente”, afirma, antes de embarcar. No entorno da Casa Branca, conselheiros de segurança nacional tratam a missão como uma das mais delicadas do mandato, com potencial para redefinir o equilíbrio de poder no Oriente Médio pelos próximos anos.
O histórico recente pesa sobre a mesa de negociações. O acordo nuclear de 2015, firmado entre o Irã e potências globais, entra em colapso após a saída dos EUA em 2018. Desde então, a Agência Internacional de Energia Atômica registra avanços no programa nuclear iraniano, incluindo enriquecimento de urânio em níveis próximos aos necessários para uso militar. O bloqueio de Ormuz, agora, amplia a percepção de que Teerã usa a rota estratégica como instrumento de pressão para aliviar sanções econômicas e garantir concessões políticas.
Mercado em alerta e disputa de força no Golfo
Operadores de energia, companhias de navegação e governos acompanham cada frase saída de Washington e Teerã. Um bloqueio prolongado em Ormuz pressiona os preços internacionais do barril, já afetados por cortes de produção da Opep+ e instabilidade em outros produtores. Em cenários internos, economistas trabalham com altas adicionais na casa de dois dígitos para combustíveis se a rota seguir fechada por semanas.
Países altamente dependentes de importações de petróleo do Golfo, como Japão, Coreia do Sul e Índia, estudam rotas alternativas e acordos de emergência com outros fornecedores. As reservas estratégicas, construídas para suportar choques temporários de oferta, têm limites claros: em vários casos, garantem autonomia de apenas 60 a 90 dias em ritmo normal de consumo. A cada nova declaração vinda dos EUA ou do Irã, bolsas reagem e moedas de países importadores oscilam.
Aliados de Washington na região, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, veem na postura assertiva de Trump um escudo para seus próprios interesses. A livre navegação em Ormuz é vital para que esses países escoem sua produção e mantenham receitas bilionárias que sustentam investimentos internos e programas de diversificação econômica. Para o Irã, o bloqueio representa ao mesmo tempo risco e alavanca: uma escalada militar direta com os Estados Unidos poderia isolar ainda mais o regime, mas ceder rápido demais enfraquece sua posição de barganha.
No campo militar, o Pentágono desloca navios de guerra e aviões de vigilância para reforçar a presença americana no Golfo Pérsico. Oficiais evitam falar em prazos, mas admitem que os EUA preparam cenários que vão de uma liberação negociada a operações de escolta armada para comboios de navios mercantes. A linha entre demonstração de força e confronto aberto permanece tênue.
Negociações no Paquistão e o que está em jogo
As conversas lideradas por JD Vance no Paquistão se tornam o principal teste imediato da estratégia de Trump. Diplomatas envolvidos no processo descrevem um roteiro em duas etapas. Primeiro, tentar um entendimento mínimo sobre limites ao programa nuclear iraniano, com mecanismos de verificação razoavelmente aceitos por ambas as partes. Em seguida, vincular esse avanço a uma reabertura gradual e monitorada do Estreito de Ormuz.
A equação envolve riscos políticos internos em todos os lados. Em Washington, Trump enfrenta pressão de republicanos que rejeitam qualquer gesto visto como concessão a Teerã, e de democratas que exigem salvaguardas claras contra um novo impasse nuclear. No Irã, facções mais duras do regime resistem a concessões em meio à guerra e usam o bloqueio como prova de força perante a população.
O cálculo final passa pela percepção de custo. Se o bloqueio continuar por meses, pressiona a economia iraniana, já atingida por sanções, mas também ameaça o crescimento global e renova o temor de recessão em grandes economias. Uma solução rápida reduz danos, mas deixa a pergunta principal em aberto: até que ponto acordos pontuais sobre Ormuz e o programa nuclear conseguem conter, de forma duradoura, a disputa de poder entre Estados Unidos e Irã no Golfo Pérsico?
