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Trump diz que Cuba “vai cair em breve” e escala Marco Rubio para negociar acordo

Donald Trump afirma, na manhã desta sexta-feira (7), que Cuba “vai cair em breve” e anuncia que o senador Marco Rubio será enviado para negociar um acordo com a ilha.

Trump fala em virada após 50 anos de impasse

Em entrevista por telefone à CNN Internacional, o presidente dos Estados Unidos descreve um cenário de virada histórica nas relações com Havana. Ele diz que, depois de cinco décadas de bloqueios e tensão, Cuba “quer muito fechar um acordo” com Washington e se declara pronto para conduzir a mudança. A fala ocorre em meio à guerra dos EUA contra o Irã, que Trump coloca como prioridade absoluta da Casa Branca neste momento.

“Cuba vai cair em breve; a propósito, não tem relação, mas Cuba também vai cair. Eles querem muito fechar um acordo”, afirma, dirigindo-se à âncora Dana Bash. O presidente aproveita a entrevista, feita por volta da manhã de sexta-feira, para exaltar o que chama de sucessos militares dos EUA em seu segundo mandato, e encaixa Cuba como próximo capítulo de uma agenda externa mais agressiva.

Trump insiste que a oportunidade surge agora, depois de meio século de impasse. “Venho observando isso há 50 anos, e a situação caiu no meu colo por minha causa; caiu, mas, de qualquer forma, caiu direto no meu colo. E estamos indo muito bem”, afirma. A frase ecoa o discurso de que ele seria o presidente capaz de encerrar ciclos longos de confronto, primeiro no Oriente Médio, depois no Caribe.

Rubio assume papel central na ofensiva sobre Havana

O anúncio de que Marco Rubio será o encarregado das negociações chama atenção em Washington. Filho de cubanos e senador pela Flórida desde 2011, Rubio constrói a carreira atacando o regime da ilha e defendendo sanções duras contra o governo de Havana. Ao escalá-lo para liderar possíveis conversas, Trump sinaliza que não pretende repetir o modelo de reaproximação incremental tentado por Barack Obama entre 2014 e 2016.

“Eles querem fazer um acordo, então vou colocar o Marco lá e veremos como as coisas se desenrolam. Estamos muito focados nisso [no Irã] agora. Temos bastante tempo, mas Cuba está pronta — depois de 50 anos”, afirma o presidente. O recado é duplo: por um lado, indica disposição de negociar; por outro, reforça que quem senta à mesa será um dos críticos mais duros do regime cubano no Senado.

Na quinta-feira (6), um dia antes da entrevista, Trump já prepara o terreno na Casa Branca. Diante de jornalistas, diz que é apenas “questão de tempo” até que cubano-americanos possam voltar ao país de origem, sugerindo uma abertura ampla assim que o conflito com o Irã arrefecer. A fala mira diretamente a comunidade de exilados e descendentes na Flórida, estado-chave em qualquer eleição nacional nos EUA.

Trump também menciona o secretário de Estado, sem citá-lo nominalmente na conversa com a CNN. “Ele está fazendo um excelente trabalho, e o próximo passo será o que queremos fazer com aquela Cuba especial”, afirma. Segundo o presidente, o chefe da diplomacia prefere concluir primeiro a “missão” no Oriente Médio. “Poderíamos fazer todas ao mesmo tempo, mas coisas ruins acontecem. Se você observar os países ao longo dos anos, se fizer tudo rápido demais, coisas ruins acontecem”, completa.

Embargo em xeque e impacto na América Latina

As declarações colocam o embargo econômico, em vigor desde 1962, de novo no centro do debate. Por mais de 60 anos, as sanções limitam o comércio, o fluxo financeiro e as viagens entre os dois países. Obama flexibiliza parte dessas restrições e restabelece relações diplomáticas em 2015, mas Trump, em seu primeiro mandato, recua e endurece as regras. Agora, no segundo mandato, o republicano sugere que está disposto a redesenhar a política em direção a um acordo, sem detalhar prazos ou contrapartidas.

Um avanço nas conversas poderia mexer com a economia cubana, que enfrenta queda no turismo, inflação em alta e escassez crônica de bens básicos. A abertura parcial ou total de comércio com os EUA teria impacto direto sobre cadeias de alimentos, remessas de dinheiro e investimentos em setores como hotelaria, construção civil e serviços financeiros. Em 2018, antes de novas sanções, mais de 600 mil americanos visitam a ilha; um movimento semelhante nos próximos anos poderia injetar bilhões de dólares em divisas.

A mudança também reorganizaria o xadrez geopolítico no Caribe e na América Latina. Cuba é aliada histórica da Venezuela e conta, há décadas, com apoio político e econômico de Rússia e, mais recentemente, de China. Um acordo com Washington reduziria a margem de manobra desses parceiros e poderia aproximar Havana de instituições multilaterais ocidentais, como o Banco Mundial e o BID, hoje distantes da ilha por causa das sanções e de restrições jurídicas impostas pelos EUA.

Internamente, a decisão de colocar Rubio na linha de frente tende a reforçar divisões na política americana. Setores republicanos veem a oportunidade de pressionar por reformas políticas mais profundas em Cuba, incluindo eleições competitivas e liberdades civis ampliadas. Democratas podem argumentar que o governo usa a pauta cubana como ferramenta eleitoral na Flórida, ao mesmo tempo em que corre o risco de repetir isolamentos do passado se adotar uma linha apenas punitiva nas conversas.

Reação de Havana e próximos movimentos

O governo cubano ainda não responde publicamente às declarações de Trump nesta sexta-feira. A expectativa, em capitais latino-americanas, é de que Havana adote tom cauteloso, evitando dar munição a Washington enquanto avalia se há, de fato, disposição para aliviar o embargo. Em episódios anteriores, como na reaproximação de 2014, o governo da ilha exige garantias de respeito à soberania e rejeita abertamente qualquer linguagem que sugira “queda” do regime.

Sem detalhes sobre cronograma e formato das negociações, a nomeação de Rubio funciona, por ora, como recado político. O senador pode ganhar projeção extra entre eleitores de origem cubana e consolidar ainda mais a imagem de interlocutor da Casa Branca para a América Latina. Ao mesmo tempo, arrisca-se a ser responsabilizado se as conversas emperrarem ou se o governo optar por ampliar sanções como instrumento de pressão.

Trump, ao vincular a abertura com Cuba ao desfecho da guerra contra o Irã, empurra qualquer avanço concreto para um horizonte incerto. O resultado do conflito, o humor do Congresso americano e a reação dos aliados de Havana vão determinar se a frase “Cuba vai cair em breve” marca o início de uma transição histórica ou apenas mais um capítulo de promessa não cumprida na longa história de impasses entre Washington e a ilha.

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