Ultimas

Trump diz que Cuba “vai cair em breve” e anuncia missão de Rubio

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta sexta-feira, em entrevista à CNN Internacional, que Cuba “vai cair muito em breve” e anuncia que pretende enviar o senador Marco Rubio para negociar um acordo entre Washington e Havana. A declaração indica uma possível guinada na política americana para a ilha em meio à prioridade militar do governo no confronto com o Irã.

Trump volta foco a Cuba em meio à crise com o Irã

Trump fala por telefone com a âncora Dana Bash na manhã desta sexta-feira e intercala elogios ao próprio desempenho militar no segundo mandato com referências inesperadas a Cuba. Em tom de confiança, ele diz que o regime comunista, no poder desde 1959, está perto do fim e alega que os cubanos “querem muito fechar um acordo” com os Estados Unidos.

“Cuba vai cair em breve; a propósito, não tem relação, mas Cuba também vai cair. Eles querem muito fechar um acordo”, afirma o presidente, sem apresentar evidências públicas de pressão interna sobre o regime. A frase ecoa, na televisão internacional, a mensagem que ele já envia na véspera, na Casa Branca, quando classifica como “apenas uma questão de tempo” o retorno de cubano-americanos ao país de origem.

A fala desta sexta-feira expõe a visão de Trump de que o dossiê cubano volta à mesa após o atual ciclo de confrontos com o Irã. “Eles querem fazer um acordo, então vou colocar o Marco lá e veremos como as coisas se desenrolam. Estamos muito focados nisso agora. Temos bastante tempo, mas Cuba está pronta — depois de 50 anos”, diz, sugerindo que um eventual pacote com Havana viria em seguida à ofensiva no Oriente Médio.

O presidente insiste em vincular o momento atual a uma espera de meio século. “Venho observando isso há 50 anos, e a situação caiu no meu colo por minha causa; caiu, mas, de qualquer forma, caiu direto no meu colo. E estamos indo muito bem”, completa, construindo a narrativa de que seu governo é o responsável por levar Cuba ao limite de uma negociação.

Marco Rubio vira peça central da estratégia para Havana

Ao anunciar que pretende “colocar o Marco lá”, Trump escolhe um dos críticos mais duros do regime cubano no Congresso para liderar a articulação. Marco Rubio, senador pela Flórida, filho de cubanos, constrói a carreira política apoiado na comunidade exilada em Miami e defende, por anos, a manutenção de sanções e o endurecimento contra Havana.

O gesto sinaliza que qualquer acordo futuro dificilmente será uma simples retomada da política de abertura iniciada em 17 de dezembro de 2014, no governo Barack Obama, quando os dois países restabelecem relações diplomáticas após mais de cinco décadas de ruptura. Rubio se opõe publicamente a aquele movimento e trabalha, desde 2017, para reverter parte das medidas de flexibilização de viagens e negócios.

Trump reforça que a missão de Rubio, se confirmada, não significará pressa. Na quinta-feira, ao lado de assessores na Casa Branca, ele diz que seu secretário de Estado “está fazendo um excelente trabalho, e o próximo passo será o que queremos fazer com aquela Cuba especial”. Em seguida, relata que foi aconselhado a não tentar resolver todos os conflitos ao mesmo tempo. “Poderíamos fazer todas ao mesmo tempo, mas coisas ruins acontecem. Se você observar os países ao longo dos anos, se fizer tudo rápido demais, coisas ruins acontecem”, afirma.

A prudência que Trump verbaliza traduz um cálculo político. Uma frente de negociação com Cuba, conduzida por Rubio, fala direto a mais de 1,3 milhão de cubano-americanos que vivem na Flórida, estado decisivo em eleições presidenciais e cenário central da carreira dos dois republicanos. Ao mesmo tempo, tende a despertar reação imediata do governo cubano e de aliados históricos, como Venezuela e Nicarágua.

Impacto na política externa e na comunidade cubano-americana

A promessa de que Cuba “vai cair em breve” mexe com o tabuleiro geopolítico latino-americano em um momento em que Washington concentra recursos militares e diplomáticos no confronto com o Irã. O embargo econômico à ilha, em vigor desde 1962, já custa bilhões de dólares à economia cubana, segundo estimativas de organismos internacionais, e molda o alinhamento de países da região há mais de seis décadas.

Se a Casa Branca avança na abertura de um canal formal de negociação, o efeito direto recai sobre empresas americanas interessadas em turismo, telecomunicações, infraestrutura e agronegócio, hoje sujeitas a um emaranhado de restrições. Para a comunidade cubano-americana, a sinalização de Trump de que o retorno ao país de origem é “apenas questão de tempo” alimenta expectativas de reunificação familiar, flexibilização de viagens e eventual revisão de regras de remessas financeiras.

Governos alinhados a Havana podem ver na movimentação americana uma ameaça à sua própria retaguarda diplomática. Em países como Venezuela, que há anos depende da cooperação médica e de inteligência cubana, qualquer sinal de enfraquecimento do regime em Havana amplia a sensação de isolamento. Para aliados de Washington no continente, uma mudança na relação EUA–Cuba abre espaço para rearranjos em organismos regionais e em votações na Organização dos Estados Americanos (OEA).

O discurso de Trump, porém, também carrega riscos. Ao anunciar publicamente que “Cuba está pronta” antes de uma negociação estruturada, o presidente aumenta a pressão sobre o regime cubano e reforça a narrativa interna de resistência a Washington. Ao mesmo tempo, cria expectativas entre eleitores na Flórida e entre empresários americanos que podem não se concretizar no ritmo prometido.

Próximos passos e dúvidas sobre o rumo da política para a ilha

Trump não apresenta, até agora, um cronograma claro para o envio de Rubio a Havana nem detalha qual seria o mandato político do senador nas negociações. A prioridade declarada segue sendo o Irã, descrito por ele como o foco “agora”, em meio a uma escalada de ataques e contra-ataques que envolve Israel e afeta o tráfego aéreo e o comércio em toda a região do Oriente Médio.

Na prática, qualquer iniciativa concreta em direção a Cuba exigirá coordenação estreita entre Casa Branca, Departamento de Estado e Congresso, onde sanções e embargos estão codificados em leis aprovadas ao longo de mais de 60 anos. O cenário abre espaço para meses de disputa política em Washington e de cálculo cuidadoso em Havana. Ao prometer que não vai “deixar nada de ruim acontecer” com os Estados Unidos ao abrir novas frentes diplomáticas, Trump tenta equilibrar discurso de força com a imagem de negociador. O destino de Cuba, mais uma vez, entra no centro dessa equação e deixa em aberto se a promessa de que a ilha “vai cair muito em breve” é o prenúncio de uma mudança histórica ou apenas mais um capítulo na longa disputa entre Washington e Havana.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *