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Trump condiciona permanência de novo líder do Irã à sua aprovação

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma neste domingo (8) que o sucessor de Ali Khamenei, no Irã, só permanece no cargo se tiver sua aprovação. Em entrevista à ABC News, o republicano diz que quer participar da escolha do novo líder supremo iraniano e avisa que descarta o filho do aiatolá morto em ataque americano.

Trump amplia disputa pela sucessão em Teerã

As declarações vêm poucas horas após a imprensa estatal iraniana informar que autoridades em Teerã já definem um sucessor para Khamenei. O anúncio ocorre dez dias depois da ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel, iniciada em 28 de fevereiro, que inclui uma série de bombardeios contra alvos militares e políticos no Irã e resulta na morte do líder supremo e de outros altos funcionários do regime.

Trump transforma a sucessão, antes tratada a portas fechadas pelos clérigos iranianos, em um teste público de força entre Washington e Teerã. Ao afirmar que o novo líder “não vai durar muito tempo” se não tiver aval americano, o presidente indica que considera a escolha em Teerã um assunto de segurança nacional dos Estados Unidos, não apenas uma questão interna iraniana.

Na entrevista, Trump explicita a ambição de alongar a influência norte-americana para além de seu mandato. “Queremos garantir que não tenhamos que voltar a cada 10 anos, quando não tivermos um presidente como eu que não fará isso”, diz. A frase sugere que, para a Casa Branca, a morte de Khamenei abre uma janela rara para moldar o comando político e religioso do Irã pelas próximas décadas.

O líder supremo é a figura central da República Islâmica desde 1979. Tem poder final sobre política externa, programa nuclear, forças armadas e Judiciário. Na prática, define o tom da relação com Washington, o ritmo das negociações sobre o enriquecimento de urânio e o grau de apoio a milícias aliadas no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen. Ao reivindicar poder de veto sobre o sucessor, Trump tenta redesenhar esse eixo de poder em favor dos interesses americanos e dos aliados na região, em especial Israel e Arábia Saudita.

Interferência aberta expõe risco de nova escalada

Trump não esconde que está disposto a chancelar um nome ligado ao antigo regime, apesar de ter ordenado o ataque que matou Khamenei. “Sim, para escolher um bom líder, eu aprovaria [alguém ligado ao antigo regime]. Há inúmeras pessoas que poderiam se qualificar”, afirma. A mensagem mira o núcleo duro do poder em Teerã: o Conselho de Especialistas, que escolhe o líder supremo, e a Guarda Revolucionária, braço militar mais poderoso do país.

Ao mesmo tempo, o presidente americano tenta fechar a porta para uma transição familiar no Irã. Ele já havia dito que Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá morto, é “inaceitável” para Washington. O herdeiro, de cerca de 55 anos, ganha influência ao longo de mais de três décadas, como conselheiro do pai e figura de bastidor próxima à Guarda Revolucionária. Sua ascensão sempre provoca resistência de setores que veem na sucessão hereditária uma traição à revolução de 1979, que derruba o xá apoiado pelos EUA.

Com a morte de Ali Khamenei, aos 84 anos, o vácuo de poder atinge o coração do sistema político iraniano. Internamente, a pressão recai sobre clérigos, militares e elites econômicas que dependem da estabilidade do líder supremo para preservar cargos e privilégios. Externamente, a fala de Trump alimenta a narrativa de ingerência estrangeira, usada pelo regime há mais de 40 anos para justificar repressão a opositores e endurecimento da política externa.

Diplomatas avaliam que a interferência declarada de Washington na sucessão tende a fortalecer a ala mais radical em Teerã. Qualquer candidato visto como moderado ou disposto a negociar com o Ocidente corre o risco de ser tachado de submisso aos Estados Unidos. Em vez de abrir espaço para um líder mais pragmático, a pressão pública americana pode empurrar o processo para nomes ainda mais hostis, dispostos a demonstrar independência com discursos duros e possíveis retaliações militares na região.

Pressão sobre Irã e incerteza no Oriente Médio

Analistas de segurança ouvidos em Washington e em capitais europeias veem no movimento de Trump uma tentativa de capitalizar politicamente a morte de Khamenei. Ao se apresentar como fiador da estabilidade regional, o presidente busca mostrar ao eleitorado americano que ataques cirúrgicos, como o de 28 de fevereiro, produzem resultados estratégicos e duradouros. O cálculo, porém, esbarra em um Oriente Médio fragmentado, no qual cada gesto em Teerã repercute em pelo menos cinco guerras e conflitos ativos.

No curto prazo, o recado americano aumenta a pressão sobre o Conselho de Especialistas, formado por cerca de 80 clérigos, responsável por formalizar o sucessor. Qualquer nome anunciado nas próximas semanas será medido também pela reação da Casa Branca. Se tiver sinal verde de Trump, enfrentará o desgaste interno de ser visto como próximo demais dos Estados Unidos. Se não tiver, será alvo de um governo americano que promete não deixá-lo “durar muito tempo” no cargo.

Para Israel e aliados árabes do Golfo, a fala de Trump indica que Washington não pretende recuar. Em paralelo à ofensiva militar de fevereiro, o governo americano reforça sanções, desloca navios de guerra para o Golfo Pérsico e pressiona países europeus a endurecer a posição sobre o programa nuclear iraniano. A escolha do novo líder supremo definirá se Teerã tenta recompor pontes com o Ocidente ou aprofunda o confronto aberto.

No Irã, a população encara mais uma transição em meio a inflação elevada, queda na moeda local e memórias recentes de protestos reprimidos com violência, como em 2019 e 2022. A sucessão de Khamenei, somada à ameaça explícita de interferência externa, tende a acentuar a sensação de incerteza. Resta saber se o novo líder buscará reduzir tensões para aliviar a pressão econômica ou se apostará na confrontação, consolidando o discurso de resistência contra os Estados Unidos.

Sucessão sob vigilância global

Os próximos dias devem expor as fissuras dentro do establishment iraniano. A imprensa estatal, que já fala em sucessor escolhido, tenta transmitir normalidade e continuidade. Atrás das cortinas, porém, clérigos conservadores, generais da Guarda Revolucionária e tecnocratas ligados ao governo medem o custo de desafiar ou acomodar a pressão americana. Cada vazamento, cada discurso e cada gesto público será lido como sinal de alinhamento ou resistência a Trump.

Para a comunidade internacional, o recado está dado: a sucessão em Teerã deixa de ser um assunto exclusivamente interno e se torna mais um campo de disputa entre Estados Unidos, aliados e rivais. Trump escolhe verbalizar essa disputa de forma aberta, com condições e prazos implícitos. O Irã responde, por enquanto, em linguagem contida, mas com o histórico de reagir de forma assimétrica, por meio de aliados armados na região. A pergunta que fica é se a morte de Khamenei abre uma rara chance de acomodação ou se inaugura uma fase de confronto ainda mais imprevisível no Oriente Médio.

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