Trump condena vídeo racista com Obamas, mas recusa pedido de desculpas
A bordo do Air Force One, em fevereiro de 2026, Donald Trump condena um vídeo racista com imagens do casal Obama, publicado em seu perfil no Truth Social, mas se recusa a pedir desculpas. O presidente admite ter assistido à primeira parte do material antes de ele ir ao ar, mas afirma que não viu o trecho que associa os ex-moradores da Casa Branca a macacos.
Reconhecimento parcial e justificativa no avião presidencial
Trump fala com repórteres em pleno voo, em um raro reconhecimento de que ele próprio acompanha parte do conteúdo que aparece em suas redes oficiais. O vídeo, removido cerca de 12 horas após a publicação, sobrepõe o rosto de Barack e Michelle Obama a animações de macacos, em um uso direto de estereótipos racistas que marcam a história dos Estados Unidos desde o século 19.
O presidente insiste que só vê o início do material, que traz alegações já desmentidas de fraude em urnas eletrônicas. “Eu vi o começo. Estava tudo bem”, afirma. Ele descreve a primeira metade do vídeo como “uma publicação muito forte em termos de fraude eleitoral” e sustenta que ninguém na Casa Branca percebe o conteúdo racista ao fim. “Ninguém sabia que aquilo era o final. Se tivessem prestado atenção, teriam visto, e provavelmente teriam tido a sensatez de remover o vídeo”, diz.
Trump relata que, após assistir à parte inicial, envia o vídeo para um integrante de sua equipe, encarregado de cuidar de publicações no Truth Social. “Alguém deixou escapar uma pequena parte”, comenta, atribuindo o erro a um funcionário que, segundo a Casa Branca, publica o conteúdo “por engano”. A versão oficial tenta conter o dano político, mas confirma que a peça circula por pelo menos meia jornada inteira na conta do presidente antes de ser apagada.
Reação interna, pressão republicana e debate sobre racismo
A crise ganha outra dimensão quando o senador Tim Scott, único republicano negro no Senado, decide enfrentar publicamente o presidente. Scott classifica o vídeo como “a coisa mais racista” que já vê partir da Casa Branca de Trump. A declaração ecoa em telejornais, rádios e redes sociais, expõe fissuras no Partido Republicano e pressiona a Casa Branca a oferecer uma resposta mais clara.
Questionado sobre a conversa com o senador, Trump admite ter falado com Scott e diz condenar a parte racista do vídeo. A condenação, porém, vem acompanhada de um limite imposto pelo próprio presidente: ele rejeita a ideia de responsabilidade direta. Ao ser perguntado se pediria desculpas aos Obama ou ao público americano, responde seco. “Não. Não cometi nenhum erro”, afirma, mantendo a linha de não recuar, mesmo diante de críticas dentro do próprio partido.
O episódio acende um novo debate sobre racismo na era digital e sobre o uso de plataformas oficiais para amplificar mensagens de intolerância. As imagens, ainda que fiquem menos de 24 horas no ar, circulam em capturas de tela, recortes e reuploads em outras redes, multiplicando o alcance. Em um país que registra, segundo dados de organizações civis, dezenas de milhares de incidentes de ódio por ano, a associação de uma família negra que ocupou a presidência à figura de macacos resgata uma tradição de desumanização que sempre esteve presente em grupos extremistas.
A postura de Trump também dialoga com seu histórico. Desde a campanha de 2016, ele testa, com frequência, a fronteira do que o sistema político e a opinião pública consideram aceitável. Ataques a imigrantes, minorias e rivais políticos circulam com naturalidade em seus discursos e publicações. O vídeo com os Obama surge como mais um capítulo dessa estratégia: acena a grupos que se alimentam de teorias conspiratórias e discursos de ódio, ao mesmo tempo em que tenta manter uma aparência de condenação quando o custo político se torna visível.
Impacto político, redes sob escrutínio e o que vem a seguir
A repercussão imediata coloca em xeque a gestão das redes oficiais da Casa Branca e a própria narrativa de “erro” operacional. Se o presidente admite ter visto parte do material e o encaminha para a equipe, a linha entre falha técnica e escolha política se estreita. Consultores republicanos avaliam, reservadamente, que o caso pode afetar a percepção de eleitores moderados e de suburbanos, grupo decisivo em estados-chave nas eleições legislativas e presidenciais.
O desgaste também alcança a imagem institucional dos Estados Unidos no exterior. Embaixadas americanas lidam há anos com questionamentos sobre racismo estrutural, violência policial e supremacismo branco. Um vídeo racista partindo do perfil oficial do presidente alimenta críticas de governos estrangeiros e organizações de direitos humanos, que cobram coerência entre discurso democrático e prática política.
Dentro do país, lideranças negras, movimentos civis e parte do próprio Partido Republicano pressionam por regras mais rígidas na moderação de contas oficiais. A exigência é que conteúdos sejam revisados integralmente antes da publicação e que haja responsabilização clara em casos de mensagens que violem direitos civis. A permanência do vídeo por aproximadamente 12 horas no Truth Social alimenta a percepção de que, mesmo quando o erro é reconhecido, a reação do governo é lenta.
Trump, por sua vez, transforma o episódio em mais um embate com a imprensa e com adversários políticos. Ele se apresenta como alvo de exagero midiático e repete a defesa de que a parte relevante do vídeo é a que fala de suposta fraude eleitoral, tese rejeitada por cortes e autoridades eleitorais desde 2020. Ao manter a recusa em pedir desculpas, aposta que sua base mais fiel enxergará a polêmica como nova tentativa de censura e de silenciamento de suas denúncias.
O caso segue em aberto. Investigações internas prometidas pela Casa Branca ainda precisam apontar quem autoriza a publicação, quais protocolos falham e se haverá punição a algum funcionário. A reação do eleitorado, medida em pesquisas nos próximos meses, dirá se a associação racista ao casal Obama se torna apenas mais um ruído em um mandato marcado por choques constantes ou se passa a pesar como um marco no limite da tolerância política e social nos Estados Unidos.
