Trump centraliza poder em Conselho da Paz e anuncia US$ 5 bi para Gaza
Donald Trump lidera nesta quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026, a primeira reunião do autodenominado Conselho da Paz, em Washington, sob controle quase absoluto das regras, falas e decisões. O encontro, com representantes de 45 países e promessa de um pacote inicial de US$ 5 bilhões para Gaza, inaugura um modelo de fórum internacional moldado à imagem do ex-presidente americano.
Um conselho feito sob medida para Trump
A cúpula acontece no recém-rebatizado Donald Trump US Institute of Peace, em Washington, símbolo físico do projeto político que o republicano tenta projetar para além das fronteiras americanas. A Casa Branca divulga que 45 países participam do encontro, ainda que muitos apenas como observadores, e apresenta o Conselho como um esforço global pela reconstrução de Gaza e pela estabilidade regional.
Documentos internos obtidos pelo ICL Notícias, porém, revelam que o fórum funciona em lógica oposta à dos organismos multilaterais tradicionais. Ao contrário da ONU, onde cada governo define livremente sua posição e pode confrontar a linha dominante, o Conselho de Trump nasce com regras que reforçam o poder exclusivo do anfitrião sobre a agenda, as falas e a própria composição do órgão.
O guia logístico enviado às delegações estrangeiras detalha, ponto a ponto, o que se espera de cada presidente quando tiver a palavra. Cada chefe de Estado terá no máximo dois minutos para discursar, com o tempo cronometrado, enquanto Trump não enfrenta qualquer limitação. “Os membros do Conselho devem estar preparados para fazer uma breve intervenção (estritamente limitada a dois minutos)”, determina o texto. Nenhuma linha menciona restrição semelhante ao ocupante da Casa Branca.
As orientações vão além do relógio. O documento indica o conteúdo esperado das falas, encorajando declarações que “reafirmem o compromisso do seu governo com o Conselho de Paz”, descrevam contribuições financeiras ou operacionais e declarem apoio à “arquitetura de segurança” e à “prosperidade a longo prazo de Gaza”. O roteiro não abre espaço explícito para críticas às diretrizes definidas em Washington.
Diplomatas ouvidos pela reportagem classificam o modelo como uma ruptura clara com a prática consagrada em conferências multilaterais. “Em fóruns como a ONU, cada país fala o que quer, inclusive para discordar frontalmente”, afirma um embaixador europeu. Outro, em tom irônico, vê uma espécie de avanço: “Em Davos, no ato de fundação, nenhum presidente, além dos representantes de Trump, abriu a boca. Agora, ao menos, todos ganham dois minutos”.
US$ 5 bilhões para Gaza sob tutela americana
O Conselho da Paz entra em cena com um anúncio vistoso: um investimento inicial de US$ 5 bilhões em Gaza, associado à criação de uma força internacional para garantir a chamada “paz” na região. O dinheiro deve ser direcionado a projetos de reconstrução, infraestrutura básica e iniciativas econômicas, em um território devastado por anos de conflito e bloqueios.
Trump e seus aliados, entre eles o presidente argentino Javier Milei, pretendem usar o pacote financeiro como vitrine de uma nova abordagem de política externa, centrada em resultados rápidos, forte presença militar e pouco espaço para dissenso público. O controle do conselho sobre a “arquitetura de segurança” dá a Washington poder direto sobre a formação e o comando da força internacional que atuará em Gaza.
O modelo, descrito por assessores americanos como “pragmático e eficiente”, concentra no presidente dos Estados Unidos poderes incomuns para um órgão que se apresenta como internacional. Trump é o único com assento garantido no Conselho e detém a prerrogativa exclusiva de decidir quem entra e quem sai. As demais cadeiras dependem de sua aprovação pessoal.
Os documentos obtidos pelo ICL Notícias confirmam ainda que o americano acumula o direito de vetar qualquer resolução, fazer nomeações para a administração de Gaza e expulsar países que desafiem sua linha política. Foi nesse enquadramento que o Canadá acabou excluído do grupo, num gesto que expõe o grau de tensão e a baixa tolerância a divergências dentro do arranjo idealizado por Trump.
O projeto também tem um componente financeiro sensível. O governo negocia com o banco JP Morgan a prestação de serviços ao novo organismo, incluindo a gestão de fluxos bilionários de recursos para Gaza. A parceria coloca uma das maiores instituições de Wall Street no centro de um desenho político que mistura reconstrução, influência geopolítica e controle sobre contratos e financiamentos futuros.
Especialistas em direito internacional ouvidos reservadamente preveem disputas prolongadas. Para eles, o Conselho de Trump cria um precedente de “multilateralismo dirigido”, no qual a presença de dezenas de bandeiras legitima decisões tomadas, na prática, por um único ator. “O risco é transformar esse modelo em referência para outros dossiês sensíveis”, alerta um professor de relações internacionais.
Críticas, riscos e próximos passos
A concentração de poder nas mãos de Trump já provoca reações entre governos e analistas. Críticos falam em falta de transparência, déficit de legitimidade e erosão de normas que sustentam a diplomacia desde o pós-guerra. A própria ideia de um Conselho da Paz comandado por um único líder, com direito de expulsar países inteiros, é vista como sinal de uma ordem internacional mais fragmentada e personalizada.
Na prática, quem aderir ao organismo ganha acesso prioritário aos recursos para Gaza e à mesa onde se desenham a nova segurança da região e eventuais contratos bilionários. Quem contesta corre o risco de isolamento político e econômico, especialmente se depender de Washington em outras frentes. A exclusão do Canadá é um recado para aliados desconfortáveis com o tom e o formato do projeto.
O impacto em Gaza ainda é uma incógnita. A injeção de US$ 5 bilhões pode acelerar obras, gerar empregos e reduzir parte da devastação material. A contrapartida é a presença de uma força internacional sob direção norte-americana, com possibilidade de fricção com atores locais e regionais. Grupos palestinos devem reagir à ideia de uma tutela ampliada dos Estados Unidos sobre o território.
Diplomatas na região falam em um cenário misto de expectativa e apreensão. Governos pressionados por crises econômicas olham para o fundo de reconstrução como oportunidade rara de investimento externo robusto. Ao mesmo tempo, temem que o modelo do Conselho da Paz estimule novas linhas de divisão, tanto no Oriente Médio quanto entre aliados ocidentais.
O encontro em Washington marca apenas o primeiro movimento formal do organismo criado em janeiro, em Davos. As próximas semanas devem trazer detalhes sobre o desenho da força internacional, o cronograma de desembolso dos US$ 5 bilhões e o papel efetivo de cada país na governança de Gaza. A disputa central, porém, já está colocada: até onde a comunidade internacional está disposta a ir ao aceitar um fórum global em que a paz é negociada sob comando exclusivo de um único líder?
