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Trump avalia ataque ao Irã em meio à rejeição da opinião pública

Donald Trump entra em fevereiro de 2026 diante de um impasse perigoso: decidir se ordena um ataque militar ao Irã ou recua de ameaças públicas. A escolha, que ele promete tomar em poucos dias, expõe um conflito entre sua retórica dura e uma opinião pública majoritariamente contrária a uma nova frente de guerra.

Promessas quebradas e linha vermelha adiada

O dilema se forma a partir de uma sequência de promessas não cumpridas. No fim de 2025, diante da repressão iraniana contra manifestantes, Trump afirma que responderia com força caso o regime atirasse contra a população. Garante, em discurso, que os Estados Unidos atingiriam o Irã “onde mais dói” e diz aos manifestantes que “AJUDA ESTÁ A CAMINHO”.

A ajuda não chega. Em meados de janeiro, o presidente declara que “os assassinatos pararam”, embora relatórios de organizações internacionais e de opositores iranianos indiquem que o regime continua a matar manifestantes. Nas semanas seguintes, Trump praticamente abandona o tema dos protestos e passa a concentrar o discurso na ameaça nuclear iraniana, repetindo que o país não pode ter uma bomba atômica e advertindo sobre “coisas ruins” caso Teerã não aceite um novo acordo.

A retórica endurece, mas a ação não vem. O Irã reage no plano diplomático e militar. Em comunicado à ONU, informa que responderá “de forma decisiva” se for atacado. O chefe do Exército promete defender o país “até o fim”. Em paralelo, as Forças Armadas americanas intensificam exercícios no Oriente Médio, numa demonstração de força que aumenta a tensão em bases e rotas estratégicas da região.

O clima de espera se cristaliza na quinta-feira, 19, dois dias depois da última rodada de negociações indiretas entre Washington e Teerã em Genebra. Na reunião inaugural de seu recém-criado Conselho de Paz, Trump avisa que uma decisão está próxima. “Vocês vão descobrir nos próximos, provavelmente, 10 dias”, diz a aliados e assessores, mantendo a ambiguidade sobre se apertará ou não o gatilho.

Bastidores do governo descritos por interlocutores mostram um presidente oscilando. Segundo a CNN, os EUA estão prontos para atacar o Irã já neste fim de semana, com planos operacionais concluídos e forças em posição. Trump, porém, ainda não toma a decisão final e argumenta em privado tanto a favor quanto contra uma ação militar direta.

Opinião pública resiste a nova guerra

A dúvida não é apenas militar. O cálculo é político. Diferentemente de ataques anteriores, o Irã surge como um custo potencial alto para um presidente que enfrenta queda nos índices de aprovação. Nos últimos meses, ele consegue manter apoio suficiente para operações de curto alcance: a ofensiva contra instalações nucleares iranianas em junho, a série de ataques extrajudiciais a embarcações suspeitas de tráfico de drogas a partir do outono e até a operação que derruba Nicolás Maduro na Venezuela no mês passado.

Nenhuma dessas ações se torna popular de forma ampla, mas tampouco vira um peso insuportável na opinião pública. São operações rápidas, com objetivos limitados e baixa exposição prolongada de tropas americanas. O Irã é outra história. Três pesquisas recentes apontam rejeição clara a um envolvimento mais profundo com o país.

Em sondeio da Ipsos, 42% dos entrevistados se opõem a ataques com mísseis em resposta à repressão contra manifestantes iranianos, enquanto apenas 16% apoiam a medida. Quatro em cada dez se dizem neutros, sinal de desconfiança e cansaço com novas aventuras externas. Em pesquisa CBS News-YouGov, 67% rejeitam o uso de força militar para apoiar manifestantes, contra 33% favoráveis.

O quadro é ainda mais duro na Quinnipiac University: 70% dos eleitores registrados afirmam que os Estados Unidos não devem se envolver, mesmo se protestos forem reprimidos com mortes, enquanto só 18% defendem algum tipo de intervenção. Até entre republicanos, base do presidente, a ideia enfrenta resistência: 53% se opõem, 35% apoiam.

Os números contrastam com a reação inicial aos ataques limitados de junho. Na época, a própria Quinnipiac registra 42% de apoio entre eleitores registrados, o dobro do respaldo atual à possibilidade de nova escalada. Em paralelo, pesquisas da CBS e da mesma Quinnipiac indicam outro dado incômodo para a Casa Branca: cerca de 8 em cada 10 americanos dizem estar, no mínimo, “um pouco” preocupados com o risco de uma guerra mais ampla, incluindo 6 em cada 10 republicanos.

O temor de retaliação também é majoritário. Levantamento da CBS mostra que 71% acreditam que ataques americanos levariam o Irã a lançar contra-ataques. Pesquisa Reuters-Ipsos indica que 79% estão, ao menos, “um pouco” preocupados com a possibilidade de Teerã mirar civis nos Estados Unidos. Para 58% dos ouvidos numa pesquisa da CNN, as ofensivas tendem a tornar o Irã uma ameaça ainda maior, contra apenas 27% que veem efeito dissuasório.

Impacto econômico, geopolítico e doméstico

A resistência da opinião pública reflete um cálculo mais amplo, que ultrapassa a disputa entre falcões e moderados em Washington. Uma ofensiva direta contra o Irã pode elevar o preço do petróleo, pressionar a inflação global e afetar economias dependentes de energia importada, do Brasil à Europa. O estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, volta ao centro das preocupações estratégicas.

Diplomatas americanos alertam que aliados europeus e asiáticos preferem manter a pressão por meios econômicos e negociais. Grande parte desses governos teme que um ataque jogue o Irã de vez nos braços de potências rivais, redesenhe alianças no Oriente Médio e diminua o espaço para qualquer novo acordo nuclear. A resposta iraniana, que promete ser “decisiva”, ameaça atingir bases americanas na região e parceiros próximos, como Israel e monarquias do Golfo.

No plano interno, assessores políticos da Casa Branca enxergam risco de desgaste acelerado. Um presidente que já enfrenta índices de desaprovação em alta considera agora cumprir uma promessa impopular. Se ordenar o ataque, Trump pode recuperar parte da imagem de líder forte junto à base mais leal, mas corre o risco de aprofundar a rejeição no eleitorado moderado e independente, que teme repetir os longos anos de guerra no Iraque e no Afeganistão.

A alternativa também cobra preço. Se recuar da ameaça, depois de dizer repetidas vezes que não toleraria a repressão a manifestantes nem um programa nuclear iraniano ativo, Trump se expõe à acusação de fraqueza. Adversários democratas e críticos republicanos já testam esse argumento, sugerindo que o presidente fala alto, mas evita assumir o custo de decisões duras.

Decisão nas próximas semanas e incerteza global

Os próximos dias, até o prazo informal de 10 dias apontado por Trump, servem como termômetro do que prevalece na Casa Branca: a linha vermelha tardia ou o cálculo de sobrevivência política. Generais, diplomatas e estrategistas eleitorais disputam influência sobre um presidente conhecido por decisões impulsivas, mas também atento a pesquisas quando sua popularidade se deteriora.

No Irã, manifestantes testam o limite da repressão enquanto aguardam por uma ajuda que, meses depois das promessas, ainda não chega. Em capitais aliadas, chancelerias preparam planos para conter danos de uma eventual escalada, enquanto acompanham o humor do Congresso americano e de uma opinião pública cansada de guerras longas.

A crise se transforma em teste duplo: mede até onde vai a disposição dos Estados Unidos de impor custos militares a regimes autoritários e até onde a sociedade americana aceita pagar o preço. Quando o presidente finalmente anunciar sua decisão, o resultado não afetará apenas o destino dos protestos iranianos. Vai definir, por algum tempo, a imagem de poder e limite da maior potência militar do mundo.

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