Trump autoriza importar 80 mil t de carne bovina magra da Argentina
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assina em 2026 um decreto que libera a importação de 80 mil toneladas de aparas de carne bovina magra da Argentina. A medida amplia a oferta de carne moída no mercado americano em meio à disparada de preços.
Decreto mira inflação da carne e usa brecha legal
O decreto se apoia em uma lei americana que permite ao presidente ajustar importações quando há oferta insuficiente de um produto essencial, por causa de desastre natural, doença ou forte desequilíbrio no mercado interno. Trump afirma que esse é o cenário da carne bovina hoje nos EUA, maior consumidor mundial do produto, pressionado por demanda aquecida e rebanho menor.
Em comunicado oficial, o presidente justifica a decisão como resposta direta ao bolso dos eleitores. “Como Presidente dos Estados Unidos, tenho a responsabilidade de garantir que os americanos trabalhadores possam se alimentar e alimentar suas famílias”, escreve. Ele diz estar “tomando medidas para aumentar temporariamente a quantidade de importações dentro da cota de aparas de carne bovina magra, a fim de aumentar a oferta de carne moída para os consumidores americanos”.
Os dados do próprio governo sustentam o diagnóstico de aperto na oferta. Desde janeiro de 2021, o preço médio da carne moída sobe de forma quase contínua e alcança US$ 6,69 por libra em dezembro de 2025, algo em torno de US$ 14,75 por quilo. É o valor mais alto desde que o Departamento do Trabalho começa a monitorar os preços da carne bovina, ainda na década de 1980.
Trump descreve uma combinação de fatores internos para a queda da produção de gado no país. Fazendeiros abatem mais animais do que repõem, pressionados pelo custo de ração, por secas em regiões produtoras e pela rentabilidade de outras culturas. O resultado é um rebanho menor no momento em que o consumo sobe, não apenas em restaurantes, mas nas compras semanais dos supermercados.
Argentina ganha exclusividade e reforça eixo com Washington
O texto do decreto é explícito ao conceder à Argentina todo o volume adicional de importação de aparas de carne bovina magra em 2026. As 80 mil toneladas extras “são atribuídas na sua totalidade à Argentina”, afirma o documento, que transforma Buenos Aires em fornecedora exclusiva desse tipo de produto dentro da nova cota.
A decisão vem na esteira de uma reaproximação política e econômica entre os dois países. Na quinta-feira, 5, os governos de Trump e do presidente argentino, Javier Milei, fecham o chamado Acordo de Comércio e Investimentos Recíprocos. O anúncio fala em “uma relação estratégica entre ambos os países, baseada na abertura econômica, em regras claras para o intercâmbio internacional e em uma visão moderna da complementaridade comercial”.
Na prática, Washington abre com rapidez um nicho relevante de seu mercado de alimentos a um só parceiro. A Argentina, tradicional potência na pecuária, encontra espaço para escoar cortes menos nobres, as chamadas aparas de carne bovina magra, usadas principalmente na produção de carne moída industrial e em redes de fast food. O movimento tende a impulsionar frigoríficos argentinos, elevar exportações e gerar divisas em dólar para o país vizinho.
Consumidores americanos, por sua vez, devem sentir o impacto na gôndola. Mais oferta costuma significar algum alívio de preços, ainda que gradual. O governo evita cravar metas, mas admite, nas entrelinhas, que mira uma acomodação dos valores antes do fim de 2026, em um contexto de renda apertada e desgaste político com o custo de vida.
O decreto também mexe com a geopolítica da carne. Ao privilegiar a Argentina, os EUA deixam de distribuir esse incremento de cota entre outros grandes exportadores, como Brasil e Austrália. O gesto reforça Milei, que vende ao eleitorado interno a imagem de parceiro preferencial de Washington, e sinaliza a outros governos que alinhamento político pode se converter em acesso diferenciado ao mercado americano.
Monitoramento, incertezas e efeitos sobre o mercado global
O texto presidencial determina um acompanhamento de perto do novo fluxo de importações. “O Secretário da Agricultura continuará a monitorar o fornecimento interno de aparas de carne bovina magra, conforme julgar apropriado”, registra o decreto. O mesmo secretário, em conjunto com o Representante de Comércio dos EUA, deve informar Trump sobre qualquer mudança relevante no equilíbrio entre oferta e demanda e recomendar medidas adicionais, se julgar necessário.
A formulação deixa aberta a porta para novos ajustes, tanto para cima quanto para baixo. Se a produção doméstica de gado reagir e os preços caírem, o governo pode reduzir a dependência das compras externas. Se a pressão inflacionária persistir, outra rodada de ampliação das cotas não está descartada. Em ambos os cenários, produtores rurais americanos e frigoríficos estrangeiros acompanham cada linha do Diário Oficial em Washington.
No mercado internacional, analistas veem potencial de efeito dominó. Ao garantir demanda extra de 80 mil toneladas da Argentina, os EUA podem deslocar cargas que iriam para outros destinos, como China e União Europeia, e mexer nos preços de referência da carne bovina. Países concorrentes buscam compensar a perda de espaço em solo americano com descontos e maior agressividade comercial em outras praças.
O acerto entre Trump e Milei também cria um laboratório político. A Casa Branca testa até que ponto o eleitor aceita importar mais comida para conter preços internos, em um setor tradicionalmente protegido. A Argentina mede quanto consegue transformar capital diplomático em contratos e investimentos. O sucesso ou o fracasso dessa aposta conjunta, medido na etiqueta do açougue e nos índices de inflação, ajuda a definir se a cota de 2026 será um ponto fora da curva ou o início de uma nova fase do comércio de carne entre os dois países.
