Ultimas

Trump apresenta em Davos plano de US$ 30 bi para reconstruir Gaza

O governo dos Estados Unidos, sob liderança de Donald Trump e de seu genro Jared Kushner, apresenta nesta quinta-feira (22), em Davos, um plano de reconstrução de US$ 30 bilhões para a Faixa de Gaza. O projeto prevê prédios de luxo, zonas turísticas e um amplo programa de desradicalização, atrelado a um acordo de cessar-fogo e a garantias de imunidade para Benjamin Netanyahu.

PowerPoint em Davos e promessa de uma “Nova Gaza”

Trump escolhe o palco do Fórum Econômico Mundial, na Suíça, para revelar o que chama de “Nova Gaza”. Em um auditório lotado de executivos e autoridades estrangeiras, assessores projetam slides com torres envidraçadas à beira-mar, marinas e avenidas arborizadas no mesmo território onde, nos últimos dois anos, 2 milhões de palestinos vivem sob bombardeios e bloqueio.

O plano, apresentado em formato de PowerPoint, detalha a construção de 180 edifícios altos na faixa costeira, com 100 mil unidades residenciais, 180 centros religiosos e 200 escolas. As imagens, geradas por inteligência artificial, mostram prédios ultramodernos e praias voltadas ao turismo internacional. A distância entre a projeção e a devastação atual em Gaza provoca desconforto visível em parte da plateia, mas não encontra contestação pública dos líderes presentes ao lado de Trump.

Riviera no lugar de ruínas e aposta na livre economia

Trump volta a uma ideia que lança ainda no início de seu primeiro governo, quando fala em transformar Gaza em uma “Riviera”. Na ocasião, seus comentários, feitos em meio à morte de milhares de mulheres e crianças, geram indignação global. Agora, o conceito regressa em forma de plano oficial, com previsão de execução em três anos e metas econômicas precisas.

“É um grande local”, afirma o ex-presidente, lembrando seu passado no setor imobiliário. “Veja essa propriedade no mar. Tudo começa com a localização. Poucos lugares são assim”, completa, enquanto as telas exibem a orla reconstruída. Kushner assume a parte técnica e descreve uma estratégia apoiada em desradicalização política, desarmamento gradativo do Hamas e estímulo agressivo à economia de livre mercado.

Segundo ele, a reconstrução inclui estradas novas, redes de energia, saneamento e um data center para atrair empresas de tecnologia. O objetivo oficial é que o Produto Interno Bruto de Gaza alcance US$ 10 bilhões em dez anos, com renda média anual de US$ 13 mil por habitante até 2035. Kushner fala em 500 mil novos postos de trabalho diretos e indiretos, impulsionados por investimentos privados e parcerias público-privadas.

Cessar-fogo, anistia e o lugar de Netanyahu no acordo

O pacote econômico aparece amarrado a um acordo político complexo. O plano é apresentado como parte de um cessar-fogo mais amplo, descrito por assessores americanos como “janela histórica” para mudar o status de Gaza de zona de conflito para polo de turismo e negócios. Em troca, o texto prevê garantias de anistia e imunidade internacional para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, alvo de denúncias de crimes contra a humanidade em cortes e organismos multilaterais.

O desarmamento do Hamas é colocado como condição central. Integrantes do grupo que aceitarem entregar as armas receberiam anistia e acesso aos programas econômicos e de emprego. Trump adota o tom habitual. “Eles nascem com armas no colo”, diz, ao defender a necessidade de um programa de “reeducação” dos palestinos, que Kushner descreve como “desradicalização” por meio de educação, incentivos financeiros e integração ao mercado formal.

O governo americano aposta que a oferta de investimentos em larga escala e empregos em massa reduzirá a influência de grupos armados. O projeto, porém, não detalha como será a transição institucional em Gaza, quem administrará os recursos no território e qual será o papel das autoridades palestinas reconhecidas internacionalmente. Essas lacunas alimentam dúvidas entre diplomatas presentes ao fórum.

Impacto regional, controvérsia internacional e quem ganha com o plano

A proposta mexe com o tabuleiro político do Oriente Médio. Ao vincular a reconstrução a um escudo jurídico para Netanyahu, Washington tenta blindar um aliado-chave e preservar a cooperação militar com Israel. Ao mesmo tempo, cria uma narrativa de “iniciativa de paz” que, na prática, abre espaço para grandes grupos imobiliários, de construção e tecnologia na costa mediterrânea.

Empresas de infraestrutura, turismo e serviços financeiros surgem como potenciais beneficiadas do novo desenho urbano. O cálculo de US$ 30 bilhões em investimentos, em três anos, sinaliza um pacote de contratos bilionários de obras, concessões e serviços públicos. Comunidades palestinas deslocadas pela guerra, por outro lado, ainda não têm garantias claras de retorno às áreas originais, nem de participação efetiva nas decisões sobre o futuro do território.

Organizações de direitos humanos acompanham à distância e destacam o risco de “reconstrução sem justiça”, em que os efeitos econômicos do projeto não são acompanhados de responsabilização por violações cometidas na guerra. Em Davos, nenhum dos líderes ao lado de Trump se manifesta publicamente sobre o tema da responsabilização. O silêncio é lido por parte dos observadores como sinal de adesão tácita ao pacote político que sustenta a “Nova Gaza”.

Negociações, incertezas e o que pode acontecer com Gaza

O plano depende de uma sequência de negociações delicadas. Israel precisa aceitar o desenho final do cessar-fogo e do desarmamento do Hamas. Países árabes, em especial aqueles que mantêm relações diplomáticas recentes com Israel, analisam a possibilidade de participar do financiamento e da gestão da reconstrução. A Autoridade Nacional Palestina, que governa partes da Cisjordânia, tenta preservar espaço político em um projeto concebido fora de seus canais tradicionais.

Os próximos meses definem se a “Nova Gaza” fica na tela do PowerPoint ou sai do papel. Sem consenso regional e sem garantias mínimas de segurança e autonomia para os palestinos, o risco é que a promessa de torres de vidro, resorts e data centers se transforme em mais um ponto de tensão. A pergunta que paira sobre Davos, e sobre o Mediterrâneo, é se a paz pode ser construída com base em imunidades políticas e maquetes digitais, enquanto os escombros da guerra ainda ocupam o chão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *