Trump aplica tática de livro de 1987 em escalada com o Irã
Donald Trump eleva a pressão sobre o Irã e o Estreito de Ormuz em abril de 2026 usando, quase ao pé da letra, a tática descrita em seu livro de 1987. O presidente parte de ameaças máximas, recua horas depois e tenta transformar o recuo em vitória estratégica para os Estados Unidos.
Do papel à guerra no Golfo Pérsico
Na manhã de terça-feira, 7 de abril de 2026, Trump anuncia ao mundo que exige a abertura imediata do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente. Em discurso transmitido por canais de TV e redes sociais, ele afirma que, se o Irã mantiver restrições à passagem, “toda uma civilização morreria naquela noite”. A frase percorre mercados, chancelarias e comandos militares em poucos minutos.
Horas depois, o mesmo presidente que ameaça aniquilar um inimigo nucleariza o tom e recua. A ameaça de destruição em massa sai de cena, substituída por promessas de novas sanções econômicas e de maior presença naval americana na região. A cena repete, com outros personagens e outro cenário, o roteiro que Trump descreve quarenta anos antes em seu best-seller “Trump: The Art of the Deal”, lançado em 1987 e escrito em parceria com o jornalista Tony Schwartz.
No livro, Trump defende uma abordagem que chama de “selvagem”: o negociador, segundo ele, deve “pedir o mundo” logo de início, mesmo sabendo que não terá tudo o que pede. “Fui lá e pedi o mundo — uma isenção fiscal sem precedentes — partindo do princípio de que, mesmo que fosse reduzida, a redução ainda seria suficiente”, narra ao relembrar a construção do hotel Grand Hyatt, em Nova York, negócio fechado no fim dos anos 70 e consolidado no início dos anos 80.
À luz do conflito atual com Teerã, a lógica se transplanta do mercado imobiliário para o xadrez geopolítico. Ao condicionar a abertura do estreito a uma ameaça de “aniquilação”, o presidente cria um ponto de partida extremo. Quando abandona publicamente a ideia de ataque imediato e passa a falar em sanções e negociações indiretas, tenta vender o recuo como gesto de moderação. O “meio-termo” passa a ser, na prática, o que ele queria desde o início: mais espaço para manobra americana e pressão sustentada sobre o regime iraniano.
A estratégia ocorre em um momento em que o Golfo Pérsico acumula semanas de incidentes navais, drones abatidos e mísseis disparados de ambos os lados. O Irã ameaça, desde o começo de 2026, limitar o tráfego de petroleiros ligados a aliados de Washington, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, em resposta a ataques a posições militares e instalações energéticas em seu território. O Estreito de Ormuz, corredor com pouco mais de 50 km de largura em seu ponto mais estreito, volta ao centro da disputa, como já ocorreu em crises anteriores, em 1988, 2011 e 2019.
Pressão máxima e mercados em alerta
A fala de Trump, ainda pela manhã, dispara uma reação imediata nos mercados. O preço do barril do Brent salta mais de 8% em poucas horas, ultrapassa os US$ 100 pela primeira vez desde o início do conflito e amplia a volatilidade em moedas de emergentes. Operadores passam a precificar o risco de interrupção parcial da rota, por onde podem cruzar, em um dia típico, mais de 17 milhões de barris de petróleo.
Analistas de política externa enxergam um padrão já conhecido. A Casa Branca ameaça “o inimaginável”, nas palavras do próprio presidente, e recua para um terreno que, comparado ao cenário inicial, soa moderado. Em vez de mísseis, entram na conversa tetos de exportação iraniana, restrições bancárias, congelamento de ativos e novas exigências sobre o programa nuclear de Teerã. A tática, descrita no livro como forma de “ampliar o espaço de barganha”, agora impacta diretamente a segurança internacional.
Para aliados europeus, a escalada verbal complica o esforço de construir uma frente comum em defesa da navegação no Golfo. Diplomatas na União Europeia relatam desconforto com a retórica de “toda uma civilização morreria”, considerada imprópria em meio a uma guerra já marcada por centenas de mortos e deslocados. Ainda assim, governos dependentes do petróleo que cruza Ormuz, como Japão, Coreia do Sul e Índia, veem em Trump um fiador incômodo, mas indispensável, da liberdade de navegação.
Na prática, a tática de pressão máxima seguida de recuo controlado deixa o Irã diante de um dilema calculado em Washington. Se Teerã cede e flexibiliza o trânsito de navios, Trump apresenta o resultado como prova de que a postura dura funciona e reforça sua autoridade interna. Se não cede, enfrenta nova rodada de sanções e o risco de incidentes com a poderosa 5ª Frota americana, baseada no Bahrein, a poucos quilômetros do estreito.
O efeito político interno para Trump também é parte do cálculo. Ao dramatizar a crise, o presidente ocupa o centro do noticiário, testa limites com o Congresso e reforça sua imagem de negociador inflexível que “não tem medo de ir até o fim”, como escreve em “A Arte da Negociação”. A base mais fiel vê coerência entre o empresário que pressionava a prefeitura de Nova York por incentivos fiscais e o comandante em chefe que desafia abertamente o regime iraniano.
Risco de erro de cálculo e próximos passos
A transposição literal de uma estratégia de negócios para um cenário de guerra preocupa especialistas em segurança. Em empreendimentos imobiliários, um blefe mal calibrado pode atrasar um projeto ou reduzir um lucro. Em uma rota estratégica, cercada de navios de guerra e milícias apoiadas por Teerã em países vizinhos, o custo de um erro de cálculo pode ser um confronto direto, com impacto imediato na economia global.
Militares americanos que atuam sob anonimato admitem temor de incidentes locais, como colisões, disparos de advertência que saem do controle ou ataques de grupos não estatais que buscam se aproveitar do clima de tensão. Cada movimento de navios no corredor, cada sobrevoo de drones armados, vira uma pequena negociação em tempo real entre comandante iraniano e oficial americano, ambos submetidos a pressões nacionais.
Diplomatas europeus e mediadores regionais tentam, em paralelo, abrir canais discretos para reduzir o risco de escalada. Países como Omã, que historicamente atuam como ponte entre Teerã e Washington, intensificam contatos desde o início de abril. Nesses diálogos, a leitura é clara: Trump não abandona a tática que descreve desde 1987, mas pode ajustar o tom se enxergar vantagem política ou econômica concreta.
Nas próximas semanas, o foco recai sobre três frentes: o comportamento dos navios no estreito, a resposta econômica do Irã às novas sanções e a disposição da Casa Branca em transformar a atual trégua verbal em um entendimento mais estável. O livro de Trump oferece pistas sobre o método, mas não garante o desfecho. No tabuleiro de Ormuz, a pergunta que segue sem resposta é se a arte da negociação resiste, intacta, quando cada ameaça colocada à mesa envolve não apenas prédios e contratos, mas vidas e a estabilidade de um quinto do petróleo do planeta.
