Ultimas

Trump anuncia morte de chefe do cartel Jalisco Nova Geração

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia nesta quarta-feira (25), em discurso do Estado da União, a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, líder do cartel Jalisco Nova Geração. O governo dos EUA atribui a derrubada do chefe da maior organização criminosa do México a uma operação conjunta entre as Forças Armadas mexicanas e a inteligência americana.

Operação secreta e recado em horário nobre

Trump usa o púlpito do Congresso para transformar um dos momentos mais solenes da política americana em vitrine da ofensiva contra o narcotráfico. “Nós derrubamos o chefe do cartel mais importante do México, vocês o viram ontem”, afirma, diante de deputados, senadores e juízes da Suprema Corte, em Washington. A frase, planejada para abrir o trecho de segurança nacional do pronunciamento, ecoa como confirmação oficial de uma caçada que dura mais de uma década.

A Casa Branca informa que a operação ocorre no fim de semana anterior, no domingo 22 de fevereiro de 2026, em área sob influência do cartel no oeste mexicano. Militares mexicanos lideram a ação em solo, enquanto os Estados Unidos fornecem inteligência, monitoramento e apoio logístico. O governo mexicano ainda não divulga detalhes públicos sobre o local exato do confronto ou o número de mortos, mas autoridades americanas falam em uma “operação cirúrgica” com semanas de preparação.

O anúncio acontece em meio à pressão interna sobre a crise de overdose nos EUA. Em 2024, mais de 70 mil americanos morrem por intoxicação ligada a opioides sintéticos, em especial o fentanil, segundo dados oficiais. Trump liga diretamente a morte de El Mencho ao esforço de conter o fluxo dessa droga, produzida em laboratórios clandestinos no México com insumos químicos importados da Ásia. “O fentanil é uma arma de destruição em massa”, diz o presidente, reforçando o discurso que sustenta a linha-dura contra os cartéis.

Golpe no cartel mais violento do México

O cartel Jalisco Nova Geração surge no início da década de 2010 e, em menos de dez anos, se torna a organização criminosa mais poderosa do México, segundo órgãos de segurança dos EUA. Sob o comando de El Mencho, ex-policial municipal, o grupo se espalha por mais de 20 dos 32 estados mexicanos, controla rotas estratégicas para os Estados Unidos e assume a produção em larga escala de metanfetamina e fentanil. Relatórios do Departamento do Tesouro americano apontam que o cartel movimenta bilhões de dólares por ano.

A morte de El Mencho atinge o coração dessa estrutura. Investigadores ressaltam, porém, que o cartel já opera em modelo descentralizado, com células locais relativamente autônomas. Agências americanas calculam que a substituição do chefe máximo pode ocorrer em semanas, com disputa entre ao menos dois comandantes regionais. O vácuo de poder já se traduz em violência: desde a segunda-feira, cidades de Jalisco, Michoacán e Colima registram bloqueios de estradas, incêndio de veículos e ataques a prédios públicos.

Autoridades mexicanas descrevem os ataques como reação direta à operação do domingo. Hospitais reforçam plantões em Guadalajara, segunda maior metrópole do país, e governos estaduais decretam reforço policial em rodovias e áreas turísticas. Analistas locais apontam risco de que a atual onda de violência se prolongue por semanas, como ocorreu em 2016, quando a prisão de um dos principais operadores financeiros do cartel desencadeia uma série de ataques contra forças de segurança.

Trump tenta enquadrar o episódio como prova da eficácia da cooperação bilateral. “Quando tratamos cartéis como terroristas, mandamos o sinal correto: ninguém está acima da lei”, afirma, em referência à decisão de classificar organizações mexicanas como grupos terroristas estrangeiros. Na prática, essa designação amplia o leque de sanções econômicas, autoriza o congelamento de bens e facilita o uso de leis de combate ao terrorismo contra intermediários e lavadores de dinheiro nos EUA.

Impacto na guerra às drogas e na relação EUA-México

O governo americano vende a operação como avanço decisivo na guerra às drogas. Especialistas em segurança, porém, relativizam o impacto imediato sobre o fluxo de fentanil que chega ao território americano. Experiências anteriores com a morte de líderes do cartel de Sinaloa, na década passada, mostram que as rotas costumam ser rapidamente assumidas por outros grupos, às vezes com ainda mais violência. A questão central, apontam analistas, é se o Estado mexicano terá capacidade de ocupar as áreas deixadas pelo cartel em Jalisco e estados vizinhos.

Para o México, o episódio reforça a dependência da cooperação com Washington em temas de segurança. A inteligência americana se torna cada vez mais determinante em operações de alto nível, enquanto o governo mexicano precisa responder ao aumento da violência interna. Organizações de direitos humanos alertam para o risco de expansão de operações militares em áreas urbanas, com impacto sobre civis e deslocamento de comunidades inteiras. O oeste do país já registra, nos últimos cinco anos, crescimento de mais de 30% no número de famílias forçadas a deixar suas casas por causa de conflitos entre cartéis.

A classificação dos cartéis como terroristas também reacende debate jurídico e diplomático. Juristas mexicanos temem que o enquadramento abra espaço para ações unilaterais dos EUA em território estrangeiro, sob o argumento de combate ao terrorismo. O governo americano nega essa intenção, mas parlamentares republicanos defendem abertamente, desde 2023, o uso de “força letal precisa” contra chefes de cartel mesmo fora de operações conjuntas formais.

Na política interna dos EUA, o anúncio fortalece o discurso de Trump às vésperas de mais um ciclo eleitoral. A Casa Branca calcula que a combinação de linha-dura contra o crime organizado e promessa de redução de overdoses pode mobilizar eleitores em estados-chave como Ohio e Pensilvânia, duramente atingidos pela crise de opioides. Pesquisas recentes mostram que mais de 60% dos americanos apoiam ações mais agressivas contra cartéis estrangeiros, ainda que isso envolva riscos de escalada com governos vizinhos.

Pressão, incerteza e a próxima fase da ofensiva

A derrubada de El Mencho abre uma nova fase na relação entre Washington e Cidade do México. A operação bem-sucedida eleva a fasquia para futuras ações conjuntas e pressiona o governo mexicano a manter o ritmo da ofensiva. Há expectativa de novas prisões e operações contra laboratórios de fentanil ao longo de 2026, especialmente em estados do Pacífico e em fronteiras estratégicas como Tijuana e Ciudad Juárez.

Governos estaduais no México pedem apoio financeiro e logístico adicional para lidar com a escalada da violência. Organismos internacionais calculam que, se a atual tendência se mantiver, o país pode registrar em 2026 mais de 35 mil homicídios, repetindo o patamar recorde observado em anos anteriores de guerra aberta aos cartéis. A resposta a esse cenário vai testar não apenas a capacidade militar, mas também as políticas sociais e econômicas em regiões historicamente dominadas pelo crime organizado.

Nos Estados Unidos, o sucesso da operação aumenta a pressão por resultados concretos na redução de mortes por overdose. Famílias de vítimas e especialistas em saúde pública cobram que ações de segurança sejam acompanhadas de investimentos robustos em tratamento, prevenção e regulação de insumos químicos. A dúvida, por enquanto, permanece aberta: a morte do homem mais procurado do cartel Jalisco Nova Geração será lembrada como ponto de virada na crise do fentanil ou apenas como mais um capítulo de uma guerra sem fim definido?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *