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Trump ameaça Otan e ironiza Groenlândia em meio à guerra com Irã

Donald Trump intensifica o confronto com a Otan ao reclamar de apoio insuficiente na guerra contra o Irã e ameaçar tirar os EUA da aliança. As declarações explodem em 8 de abril de 2026, em plena escalada militar no Oriente Médio.

Crise aberta na Casa Branca

O choque ganha forma em uma reunião a portas fechadas na Casa Branca com Mark Rutte, secretário-geral da Otan, e se espalha rapidamente pelas redes sociais. Trump chega ao encontro irritado com o que considera falta de solidariedade europeia na campanha militar contra o Irã, iniciada semanas antes, após ataques iranianos a interesses americanos na região do Golfo Pérsico.

Ao longo de mais de duas horas de conversa no Salão Oval, o ex-presidente dos Estados Unidos insiste que aliados europeus “foram testados e falharam” ao negar uso de espaço aéreo e apoio naval à operação. A crítica ganha selo oficial quando a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, repete a frase em briefing à imprensa, reforçando que, para Washington, a guerra deixa em evidência quem está disposto a arriscar recursos militares e quem prefere se preservar.

Rutte tenta conter o desgaste e descreve a reunião como tensa, porém controlada. “Ele está claramente decepcionado com muitos aliados da Otan, e eu consigo entender o ponto dele”, afirma à CNN, logo após deixar a residência oficial. O holandês, no entanto, busca um tom conciliador: “Foi uma conversa muito franca, muito aberta, mas também uma conversa entre dois bons amigos”. O esforço é o de mostrar que, apesar das broncas em público, os canais políticos seguem abertos.

Nas redes, Trump abandona a cautela diplomática. Em letras maiúsculas, escreve que “A OTAN NÃO ESTAVA LÁ QUANDO PRECISAMOS DELES E NÃO ESTARÁ LÁ SE PRECISARMOS NOVAMENTE”. Em seguida, resgata uma obsessão antiga. “LEMBREM-SE DA GROENLÂNDIA, AQUELE PEDAÇO DE GELO ENORME E MAL ADMINISTRADO”, ataca, num recado direto à Dinamarca e aos países nórdicos, que compõem o núcleo mais resistente a aventuras militares na região.

A referência à ilha reabre uma ferida do segundo mandato de Trump, quando a Casa Branca ensaia a ideia de anexar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, integrante da Otan desde 1949. Na época, Copenhague reage com indignação, e a cúpula da aliança trata o episódio como excentricidade passageira. Agora, em meio a ataques reais, navios em risco no Estreito de Ormuz e aeronaves em operação diária, a cobrança ganha outra gravidade.

Apoio limitado, tensão máxima

O estopim da crise é a recusa de vários países europeus em liberar seu espaço aéreo para aviões militares americanos a caminho do Oriente Médio ou em enviar forças navais para reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo transportado por mar no mundo. Governos de ao menos uma dezena de capitais, segundo diplomatas, temem ser arrastados para uma guerra aberta com o Irã, que já dispara mísseis contra bases americanas e ameaça alvos em Israel e na Península Arábica.

Sem citar nomes, Rutte admite que “alguns países da Otan não cumpriram seus compromissos na operação contra o Irã”, embora ressalte que “a grande maioria dos europeus” se mostra útil. A frase expõe o racha interno. De um lado, governos dispostos a reforçar a presença militar ao lado dos Estados Unidos. De outro, parceiros que se limitam a apoio político, sanções econômicas e cooperação de inteligência, mas se recusam a colocar navios, caças ou tropas em cenário de confronto direto.

Trump usa esse ceticismo como munição. Em reuniões internas, segundo assessores, volta a chamar a aliança de “tigre de papel” e a dizer que sente “nojo” da Otan. Em público, ventila novamente a ameaça de retirar os Estados Unidos do tratado, movimento que rasgaria um compromisso de defesa coletiva em vigor há 77 anos. O artigo 5º, que prevê resposta conjunta a ataques a qualquer membro, depende, na prática, do poder militar americano, responsável por cerca de 70% dos gastos de defesa da aliança.

Na guerra em curso, essa dependência fica ainda mais evidente. Porta-aviões dos EUA cruzam o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico desde o início de 2026, enquanto caças decolam diariamente de bases na região. A ausência de apoio pleno da Otan obriga o Pentágono a redesenhar rotas e deslocar mais recursos próprios, com custo estimado em bilhões de dólares adicionais em poucos meses. A narrativa de abandono, alimentada por Trump, encontra eco no Congresso americano, onde cresce a pressão por contrapartidas concretas da Europa.

A ironia com a Groenlândia adiciona um componente simbólico à crise. Países nórdicos, hoje na linha de frente da contenção à Rússia no Ártico, veem a fala como sinal de que o atual governo dos EUA volta a tratar a região como ativo imobiliário, não como pilar de segurança. Diplomatas europeus admitem, em privado, preocupação com a possibilidade de Washington condicionar investimentos estratégicos, como radares e bases aéreas no extremo norte, a concessões políticas em outras frentes.

Risco à arquitetura de segurança global

As ameaças de Trump têm efeito imediato sobre a credibilidade da Otan. Parceiros em regiões sensíveis, como Bálcãs, Leste Europeu e Báltico, acompanham com apreensão a hipótese de um enfraquecimento do compromisso americano. Um recuo dos EUA criaria um vácuo de poder que beneficiaria rivais estratégicos, em especial Rússia e China, interessadas em explorar fissuras no eixo transatlântico.

No curto prazo, a guerra contra o Irã torna qualquer ruído político mais caro. Negociações sobre o uso de bases europeias, abastecimento de munições e partilha de informações sensíveis passam a ser travadas em ambiente de desconfiança. Países que resistem a um alinhamento automático com Washington temem ser punidos por eventuais cortes de investimentos ou redução da presença militar americana em seus territórios. Já governos alinhados a Trump enxergam oportunidade de exigir mais peso nas decisões estratégicas da Otan.

Analistas ouvidos por veículos internacionais descrevem a estratégia do ex-presidente como “tudo ou nada”: ou a Otan embarca de forma mais visível na operação contra o Irã, ou arrisca perder seu principal fiador. Na prática, o recado mexe também com a opinião pública europeia, historicamente reticente a conflitos no Oriente Médio. Pesquisas recentes em países como Alemanha, França e Holanda mostram maior apoio a missões defensivas do que a ataques preventivos em regiões distantes.

Diplomatas em Bruxelas avaliam que os próximos 90 dias serão decisivos. Até meados de julho de 2026, a aliança precisa apresentar a Washington uma combinação de compromissos militares e políticos que reduza a tensão. Entre as opções em discussão estão o aumento de contribuições individuais para o orçamento de defesa, a ampliação de missões de patrulha no Mediterrâneo e um pacote de cooperação específica para a segurança de rotas marítimas ligadas ao Estreito de Ormuz.

No campo doméstico americano, a escalada verbal alimenta o clima eleitoral e coloca a Otan no centro do debate sobre o custo da liderança global dos EUA. A pergunta que se impõe, em Washington, Bruxelas e nas capitais europeias é direta: até que ponto a aliança sobrevive a um parceiro que, ao mesmo tempo, é indispensável e imprevisível?

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