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Três nomes disputam comando de diálogo do Irã com EUA no Paquistão

O Irã se prepara para escolher quem vai falar em seu nome na mesa com os Estados Unidos nesta sexta-feira (10), em Islamabad, no Paquistão. Três dos homens mais poderosos do regime — Mohammad Bagher Ghalibaf, Abbas Araghchi e o presidente Masoud Pezeshkian — surgem como principais cotados para liderar a tentativa de reduzir a escalada militar na região.

Negociação em meio a mortes no topo do regime

A reunião em Islamabad acontece em um momento em que Teerã tenta, ao mesmo tempo, evitar novos ataques e preservar a própria cúpula. Nos últimos meses, ofensivas atribuídas aos Estados Unidos e a Israel matam alguns dos principais articuladores da política externa iraniana, além do antigo líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, morto em um ataque que redesenha o comando do país.

Sem parte de seus negociadores históricos, o regime chega ao Paquistão com a necessidade de mostrar unidade e força, mas também de sinalizar algum pragmatismo. A missão central é buscar um acordo mínimo que reduza o risco de confronto direto com Washington e contenha os ciclos de retaliação que atingem, em cadeia, Líbano, Síria, Iraque, Golfo e o próprio território iraniano.

Diplomatas envolvidos nas conversas descrevem a data de 10 de abril como uma janela rara. A ausência de ataques em países do Golfo pela primeira vez desde fevereiro é vista como um alívio temporário, que pode ser ampliado em Islamabad ou se perder em uma nova rodada de violência caso o encontro fracasse.

Três caminhos possíveis para a voz de Teerã

O presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, surge como o nome mais forte para comandar a delegação, segundo veículos iranianos. Ex-prefeito de Teerã e ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, ele constrói sua carreira dentro das estruturas mais rígidas do regime, com histórico de repressão a protestos e declarações em que se orgulha de ter enfrentado manifestantes “com bastões de madeira”.

Apesar do perfil duro, Ghalibaf se projeta como interlocutor-chave com governos americanos desde o conflito com a administração Donald Trump, iniciado ainda na década passada. Para Ali Vaez, diretor do Iran Project no International Crisis Group, ele reúne todos os sinais de confiança que contam na capital iraniana. “Ele tem as credenciais que importam em Teerã, incluindo experiência na IRGC, laços com o establishment e instinto pragmático para preservar o regime”, disse Vaez à CNN internacional. Na avaliação do analista, porém, o pragmatismo tem limite: “Ele é aliado do regime, não dos EUA. Se subir ainda mais, o Irã tende a se tornar mais militarizado do que moderado”.

O segundo nome em discussão é o do chanceler Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores desde 2024. Diplomata de carreira, ele passa parte dos anos 1990 no Reino Unido, onde conclui doutorado em pensamento político. Colegas o descrevem como estudioso e acessível, antes de ele se consolidar como uma das vozes mais firmes de Teerã em foros internacionais.

Araghchi ganha projeção mundial ao integrar o núcleo que fecha, em 2015, o acordo nuclear com as grandes potências. O currículo alimenta a percepção, em capitais ocidentais, de que ele é um negociador capaz de construir pontes. Ao mesmo tempo, seu discurso interno deixa pouco espaço para ilusões: neste ano, o chanceler apoia publicamente a repressão violenta a manifestações no país, reafirma a lealdade ao regime e acusa os Estados Unidos de alimentarem a instabilidade regional.

O terceiro possível líder da delegação é o próprio presidente Masoud Pezeshkian. Ex-cirurgião, ele chega ao Palácio de Pasteur defendendo reformas políticas e sociais moderadas, em um ambiente no qual o poder real permanece concentrado na elite clerical e no aparato militar. Na prática, ocupa o segundo cargo mais importante do país, mas governa com espaço reduzido, em comparação com décadas anteriores.

Pezeshkian tenta se apresentar como rosto mais palatável do regime no exterior. No início de abril, envia uma carta aberta ao povo americano em que questiona se a guerra em curso realmente atende aos interesses dos Estados Unidos. A mensagem circula em redes sociais e veículos internacionais e é lida, por aliados, como tentativa de falar direto com a opinião pública de um país que, desde 1979, é visto como inimigo central em parte expressiva da elite iraniana.

Aposta para conter a escalada no Oriente Médio

A escolha de Islamabad como palco das negociações revela uma equação delicada. O Paquistão mantém canais abertos tanto com Teerã quanto com Washington e tenta se mover como mediador discreto em uma região onde fronteiras políticas e religiosas se cruzam com interesses energéticos globais. A distância geográfica em relação ao Golfo e ao Levante ajuda a reduzir a pressão imediata do campo de batalha, mas não elimina o peso das perdas recentes.

Os ataques israelenses no Líbano, que matam centenas de pessoas e atingem áreas próximas a instalações diplomáticas, e as ações americanas contra quadros iranianos aumentam a sensação de que a margem de erro encolhe a cada semana. Israel afirma ter matado um sobrinho do líder do Hezbollah em um ataque a Beirute, sinal de que o conflito se torna cada vez mais pessoal e simbólico para os atores envolvidos.

A eventual presença de Ghalibaf, Araghchi ou Pezeshkian à frente da delegação iraniana indica, para analistas, caminhos distintos dentro de um mesmo limite. Um comando assumido pelo presidente do Parlamento tende a reforçar o peso da Guarda Revolucionária e das alas de segurança na condução do diálogo, com maior ênfase em garantias militares. Um protagonismo do chanceler sinaliza aposta em linguagem diplomática mais tradicional, ainda que firme, e pode facilitar a construção de mecanismos de verificação e prazos graduais. A liderança direta de Pezeshkian, por fim, abriria espaço para gestos políticos de maior alcance, com foco em aliviar sanções e retomar canais econômicos, ao custo de enfrentar resistências internas.

No campo prático, qualquer avanço em Islamabad pode significar, em poucas semanas, redução no número de ataques aéreos e de operações por procuração em países como Síria, Iraque e Líbano. O alívio tende a atingir também o mercado de petróleo, sensível a cada ameaça a rotas como o Estreito de Ormuz, responsável por escoar parcela relevante da produção global. Estados produtores do Golfo, que acordam hoje sem relatos de novos ataques pela primeira vez desde fevereiro, observam o encontro como oportunidade de consolidar um respiro ainda frágil.

Pressões internas e o que esperar de Islamabad

Por trás da definição do nome que sentará diante dos americanos está uma disputa interna sobre o rumo do regime após a morte de Ali Khamenei e de outros dirigentes. A Guarda Revolucionária, o clero mais conservador e setores pragmáticos ligados à economia disputam influência na reconstrução da hierarquia. O escolhido para liderar a delegação, mesmo que formalmente subordinado a um comando coletivo, tende a ganhar capital político considerável se houver qualquer sinal de distensão.

Diplomatas ouvidos reservadamente afirmam que não há expectativa de um grande acordo em 10 de abril, com datas e metas detalhadas. A aposta mais realista envolve um entendimento de contenção, com compromissos graduais para reduzir ataques diretos e ações de aliados regionais. Em troca, Teerã espera algum alívio nas sanções, ainda que limitado, e garantias de que seus principais centros de decisão não serão alvos de novas ofensivas.

Washington também chega sob pressão. Em um ano marcado por seguidos confrontos desde fevereiro, qualquer recuo sem contrapartida clara pode ser visto como fraqueza por aliados no Oriente Médio e por opositores internos. A Casa Branca, por outro lado, lida com o risco de ver a escalada sair de controle, levando a um conflito aberto com o Irã, cenário que traria custos militares e econômicos altos em plena campanha eleitoral americana.

Ao fim do dia 10, o resultado mais importante talvez não esteja em um comunicado oficial, mas no simples fato de as partes aceitarem uma nova rodada de reuniões. A continuidade do canal de diálogo, somada à escolha de um representante capaz de falar às diferentes alas do poder em Teerã, pode definir se o encontro em Islamabad será lembrado como ponto de virada ou apenas como mais uma oportunidade perdida em uma década marcada por guerras, ataques cirúrgicos e acordos desfeitos.

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