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Torcida do Fluminense reprova recepção calorosa a Arias no Allianz

Jogadores do Fluminense recebem Jhon Arias com abraços e sorrisos no Allianz Parque, em 25 de fevereiro de 2026. Nas arquibancadas e nas redes, a reação tricolor é de revolta.

Abraços em campo, mágoa fora dele

O reencontro entre Jhon Arias e o Fluminense, no duelo contra o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro, escancara uma fratura na relação entre time e arquibancada. Enquanto o colombiano é cumprimentado com carinho pelos ex-companheiros, uma parcela ruidosa da torcida vê na cena um gesto de rompimento com o sentimento tricolor.

O encontro acontece pouco mais de sete meses depois do adeus no Maracanã, quando Arias deixa o clube rumo ao Wolverhampton para realizar o sonho de jogar a Premier League. Na despedida, ele promete voltar. “Algum dia, eu vou voltar aqui, ao Fluminense. Com certeza. E o dia que isso acontecer vai ser especial”, afirma, em agosto de 2025, diante de mais de 50 mil pessoas.

O retorno ao Brasil, porém, se dá em outro endereço e com outra camisa. Em janeiro de 2026, o Palmeiras anuncia Arias como a segunda maior contratação de sua história: 25 milhões de euros, valor inferior apenas ao pago por Vitor Roque. A escolha golpeia a memória afetiva construída no Rio e transforma a promessa de volta em ferida aberta.

No Allianz Parque lotado, o clube alviverde opta por aliviar a pressão. Arias começa no banco de reservas, como já havia ocorrido em sua estreia, na vitória por 4 a 0 sobre o Capivariano, pelo Campeonato Paulista, quando joga cerca de 15 minutos e sofre o pênalti do terceiro gol. Diante do Fluminense, cada movimento do colombiano é observado com lupa.

Promessa quebrada e acusação de “frouxidão”

O clima azeda antes mesmo do apito inicial. Nas redes sociais, perfis identificados com o Fluminense resgatam o vídeo da despedida de Arias. A frase sobre o retorno prometido volta a circular com legendas de cobrança. A transferência para o Palmeiras, rival direto em títulos nacionais recentes, é tratada como traição.

Quando as câmeras de TV mostram os jogadores tricolores recebendo Arias com risadas, abraços demorados e conversas ao pé do ouvido, a irritação explode. Torcedores classificam a postura como “frouxa” e “desconectada” da arquibancada. Um dos comentários mais compartilhados resume o tom: “O cara promete voltar, escolhe o rival e vocês tratam como ídolo?”.

O incômodo vem de um coração já desgastado. O Fluminense encara sequência pesada de resultados irregulares na temporada e lida com críticas à diretoria, ao elenco e ao comando técnico. A volta de Arias ao Brasil, agora como estrela de um Palmeiras em alta, adiciona frustração a um ambiente que já circula entre o desânimo e a cobrança.

A relação recente entre os clubes amplifica o ressentimento. Fluminense e Palmeiras disputam título brasileiro, vaga em Libertadores e protagonismo nacional ao longo dos últimos anos. A imagem do antigo camisa 21 vestindo verde, em jogo de Brasileirão, funciona como lembrança de um ciclo vitorioso que ficou para trás no Rio e ganhou continuidade em São Paulo.

O contraste entre o afeto dos atletas e a revolta da arquibancada expõe uma fronteira pouco discutida: até que ponto o ambiente profissional em campo precisa espelhar a temperatura emocional da torcida? Para os jogadores, o reencontro é de colegas de trabalho. Para muitos torcedores, é um teste de lealdade.

Relação abalada e pressão sobre o elenco

A cena no Allianz não fica restrita a memes. A crítica à postura do elenco entra no pacote de cobranças que a torcida tricolor acumula. A percepção de distanciamento entre gramado e arquibancada ganha novo capítulo. Jogadores são acusados de relativizar a dor do torcedor, que se sente enganado por uma promessa pública de retorno.

O episódio atinge justamente a linha mais sensível da identidade do Fluminense recente. Arias participa de campanhas importantes, participa de decisões, vira referência técnica e afetiva. A saída para o Wolverhampton é entendida como passo natural na carreira. O retorno imediato ao Brasil, agora por um rival, reescreve essa narrativa e dá à promessa de volta um tom de marketing vazio.

O Palmeiras, por sua vez, capitaliza o movimento. Ao investir 25 milhões de euros para trazer o colombiano, o clube reforça o elenco e manda recado ao mercado interno: está disposto a disputar protagonistas de outros grandes. A contratação se soma ao histórico de movimentações fortes e ajuda a sustentar a ambição esportiva e comercial.

Entre tricolores, a leitura é menos racional. A reação agressiva nas redes nasce de um sentimento de perda dupla: do jogador ídolo e da palavra empenhada. A recepção calorosa de ex-companheiros, nesse cenário, passa a simbolizar uma desconexão mais ampla entre a vivência de quem paga ingresso e a lógica de quem vive do futebol.

Especialistas em comunicação esportiva veem no caso um estudo de como promessas públicas de atletas, feitas em momentos de emoção, podem se tornar armadilhas futuras. Quando o desfecho não corresponde à expectativa criada, a frustração é redirecionada para todos os atores em cena: jogador, dirigentes e elenco atual.

O que fica depois do reencontro

O reencontro de Arias com o Fluminense abre espaço para novos debates internos no clube. A diretoria passa a lidar não apenas com o desafio esportivo, mas com a necessidade de reconstruir confiança. Com a temporada em andamento e o Brasileirão em ritmo intenso, qualquer gesto em campo, de comemoração a cumprimento de adversário, entra no radar de uma torcida em estado de vigilância permanente.

Os jogadores também sentem o peso. A cobrança por “entender a arquibancada” se soma à pressão por resultados. A partir de agora, demonstrações públicas de alinhamento com o sentimento do torcedor tendem a ser analisadas com ainda mais rigor. A fronteira entre profissionalismo, amizade e rivalidade vira tema na conversa de vestiário.

Do lado de Arias, o episódio reforça a responsabilidade de cada passo no novo clube. A recepção hostil de antigos torcedores e o carinho de novos fãs palmeirenses moldam sua imagem no futebol brasileiro. A forma como ele se posiciona nas próximas entrevistas e jogos pode atenuar ou aprofundar o desgaste com o Fluminense.

O Allianz Parque volta a receber jogos decisivos, o calendário avança e novas polêmicas inevitavelmente surgem. A pergunta que permanece no ar, no entanto, é simples e incômoda: em um futebol cada vez mais profissionalizado, há espaço para promessas de volta sem que alguém saia magoado?

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