Torcida do Botafogo picha CT contra Textor e aumenta pressão
Pichações contra John Textor aparecem nos muros do Centro de Treinamento do Botafogo, no Espaço Lonier, na noite de quinta-feira (22). As mensagens, apagadas com tinta branca na manhã desta sexta (23), expõem a insatisfação crescente da torcida com a gestão e a crise financeira do clube.
Muros como termômetro da crise em General Severiano
As paredes do CT, na Zona Oeste do Rio, amanhecem sem os dizeres que viralizam horas antes nas redes sociais. Na noite anterior, torcedores picham frases como “Gringo 71“, “John ladrão 171 safado“, “Cadê o dinheiro?“, “Sai do Botafogo“, “Venda jogador, Super Mundial“ e “França não te quer, Brasil também”. O alvo é o controlador da SAF alvinegra, o empresário americano John Textor, que assume o futebol do clube em 2022 com a promessa de investimento pesado e competitividade imediata.
Logo cedo, funcionários do clube cobrem as mensagens com tinta branca. Imagens publicadas no X mostram o muro recém-pintado, ainda com marcas da cobertura às pressas. “Clube já pintou. Para isso são rápidos. Queremos respostas e soluções. Inadmissível o ano que tivemos em 2024 e agora doando jogador para rival”, escreve o perfil do torcedor Henrique Curupira, que acompanha de perto o cotidiano do Botafogo.
O contraste entre a ação rápida para apagar as frases e a demora para equacionar dívidas e restrições impostas por entidades do futebol alimenta o tom de revolta. A torcida vê na tinta branca mais uma tentativa de esconder um problema que já não cabe atrás de um muro.
Transfer ban, dívidas e ano de frustrações
O protesto desta semana não surge do nada. O Botafogo convive com um transfer ban imposto pela Fifa, que impede o registro de novos jogadores enquanto não quita pendências com clubes e atletas. Na prática, o clube não consegue reforçar o elenco enquanto rivais se movimentam no mercado para a temporada de 2026.
Além da punição internacional, o passivo interno pressiona. Há débitos com jogadores referentes a direitos de imagem, Fundo de Garantia (FGTS) e luvas, que somam valores significativos no fluxo mensal da SAF. A torcida cobra transparência sobre a origem e o tamanho exato dessas dívidas e quer saber por que, mesmo com a promessa de “clube empresa” e capital estrangeiro, o Botafogo ainda tropeça em pendências trabalhistas básicas.
A ferida mais recente está no que os torcedores classificam como “doação de jogador para rival”, episódio que reacende a sensação de que o clube perde ativos esportivos e financeiros sem a devida compensação. Em 2024, o time também vive um dos anos mais traumáticos da era recente, com forte frustração esportiva após um início de temporada promissor, o que intensifica a cobrança atual.
O nome de John Textor, antes associado ao discurso de modernização e investimentos de longo prazo, passa a ser lembrado nas arquibancadas e agora nos muros como símbolo de promessas descumpridas. Termos como “171” e “ladrão”, usados nas pichações, não têm comprovação judicial, mas traduzem o sentimento de desconfiança e ruptura na relação com parte da torcida organizada.
Pressão crescente às vésperas do jogo no Nilton Santos
A remoção das pichações não encerra o protesto. Torcidas organizadas marcam um ato para sábado, às 16h, na parte externa do Estádio Nilton Santos, antes da partida contra o Bangu pelo Campeonato Carioca. A escolha do horário e do local mira visibilidade máxima: torcedores esperam concentrar centenas de pessoas nas rampas e acessos, em um dos primeiros jogos oficiais do ano.
O movimento mira a cúpula da SAF, cobra explicações públicas e exige um plano concreto para liberar o clube das amarras da Fifa e regularizar salários e direitos. A avaliação entre líderes de torcida é que, sem pressão constante, a crise financeira permanece restrita a comunicados e notas oficiais, longe da realidade de quem paga ingresso, plano de sócio e acompanha o time em viagens.
Internamente, a diretoria tenta conter o desgaste de imagem. A limpeza rápida dos muros indica preocupação em preservar o visual do principal centro de treinamento do clube, inaugurado com a promessa de ser símbolo da nova fase da SAF. O episódio, porém, mostra que a estrutura moderna não basta para blindar o projeto esportivo do humor das arquibancadas.
Relação em xeque e cobrança por transparência
A tensão desta semana expõe uma pergunta central para o futuro do Botafogo: até que ponto o modelo de clube-empresa, liderado por um investidor estrangeiro, responde às expectativas de uma torcida historicamente desconfiada e exigente? A resposta passa por números, resultados em campo e, sobretudo, transparência.
Os próximos dias colocam Textor e sua equipe sob fogo cruzado. A continuidade do transfer ban, a negociação de atletas e a capacidade de honrar compromissos trabalhistas vão indicar se o torcedor verá, em 2026, a repetição dos erros de 2024 ou uma inflexão real na gestão. Enquanto não chegam explicações mais detalhadas e um cronograma claro de soluções, os muros do Espaço Lonier seguem como palco potencial para novos recados da arquibancada.
