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Toffoli reduz de seis para dois dias depoimentos no caso Banco Master

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, reduz de seis para dois dias o prazo para depoimentos no inquérito do caso Banco Master. As oitivas, antes previstas de 23 a 28 de janeiro de 2026, passam a ocorrer de forma concentrada em 23 e 24 de janeiro, em Brasília.

Decisão encurta cronograma e pressiona investigação

A decisão é tomada nesta sexta-feira, 16 de janeiro de 2026, e atinge diretamente a etapa mais sensível da investigação, a colheita de depoimentos dos principais investigados. Toffoli determina que a Polícia Federal apresente um novo cronograma com dois dias consecutivos de audiências, em vez dos seis originalmente reservados para as oitivas.

No despacho, o ministro justifica a mudança por “limitações de pessoal e disponibilidade de salas nas dependências desta Suprema Corte”. A restrição logística, que em outros casos costuma ser tratada de forma discreta, entra no centro de um inquérito já marcado por disputas entre órgãos de controle e pela alta exposição política e econômica do Banco Master e de seus executivos.

Entre os chamados a depor estão o ex-CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, além de outros ex-executivos e empresários ligados às operações sob suspeita. A PF precisa agora reorganizar a agenda de interrogatórios, condensando em 48 horas o que planejava distribuir ao longo de seis dias úteis.

Tensão entre STF, PF e peritos marca caso Master

O encolhimento do prazo ocorre em meio a uma sequência de decisões de Toffoli que ampliam a tensão entre o Supremo, a Polícia Federal e entidades de peritos. Na quarta-feira, 14 de janeiro, o ministro determina que todo o material apreendido na segunda fase da Operação Compliance Zero fique sob custódia do STF. A operação mira suspeitas ligadas ao Banco Master e recolhe documentos físicos, arquivos digitais e equipamentos eletrônicos.

Horas depois, o ministro recua parcialmente e decide que os itens apreendidos devem ser periciados pela Procuradoria-Geral da República. No dia seguinte, 15 de janeiro, indica quatro peritos da PF para acompanhar a análise do material. A escolha provoca reação imediata da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, que critica a interferência na forma de designação de especialistas e vê risco de pressão indevida sobre o trabalho técnico.

O inquérito do caso Banco Master se insere em um ambiente de desconfiança mútua entre instituições que atuam no eixo financeiro, policial e judicial. A investigação parte de suspeitas de fraudes, irregularidades em operações ligadas ao sistema previdenciário e uso de estruturas bancárias para desviar recursos. A presença do Banco de Brasília no rol de investigados aumenta a sensibilidade do caso, por envolver um banco público estratégico para o Distrito Federal.

A decisão de concentrar as oitivas em dois dias pode acelerar a formação do conjunto probatório, mas também comprime o tempo de preparação de defesas e investigadores. Advogados costumam acompanhar cada depoimento com atenção, cruzando informações dadas por diferentes investigados ao longo de vários dias. Com o cronograma enxuto, depoentes relevantes devem se suceder em ritmo mais intenso, sob o olhar direto do STF.

Impacto prático e desafios de logística judicial

A mudança de seis para dois dias representa uma redução de 66% no período inicialmente reservado às audiências. Na prática, a PF terá de redistribuir todos os interrogatórios, alocar equipes em escala reforçada e garantir que não haja atrasos que possam comprometer o andamento da investigação. A justificativa de falta de pessoal e de salas no prédio do Supremo expõe um problema estrutural pouco discutido em casos de alta repercussão: a capacidade física e humana de a Corte lidar com procedimentos complexos, simultâneos e extensos.

Para os investigados, o impacto é imediato. Defesas que contavam com um intervalo maior entre as oitivas para avaliar contradições e ajustar estratégias passam a operar sob um calendário comprimido. A concentração também pode reduzir a margem para remarcações por questões de saúde, agendas de advogados ou imprevistos logísticos, sob pena de atrasar todo o bloco de depoimentos.

No plano institucional, a decisão reforça o protagonismo de Toffoli na condução do caso Master. Ao centralizar a guarda do material apreendido, definir o órgão responsável pela perícia e, agora, ajustar o ritmo das audiências, o ministro assume o papel de árbitro em um terreno em que Polícia Federal, Ministério Público e peritos criminais tentam preservar espaços de autonomia.

Entidades de classe acompanham o caso com atenção, temendo que decisões pontuais se transformem em precedente para outros inquéritos de grande porte. A reação da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais à indicação de quatro peritos ilustra o desconforto com a participação direta de ministros do STF na composição de equipes técnicas, historicamente definidas pela própria PF.

Próximos passos e cenário em aberto

O novo cronograma, a ser apresentado pela PF, definirá em quais horários e em que ordem os principais investigados serão ouvidos nos dias 23 e 24 de janeiro. A forma como a corporação distribuirá Vorcaro, Paulo Henrique Costa e demais executivos ao longo das duas datas indicará a prioridade de cada linha de apuração.

Após a conclusão das oitivas, o inquérito entra em fase de consolidação de provas, cruzamento de depoimentos e laudos periciais do material apreendido na Operação Compliance Zero. Caberá ao STF avaliar se o conjunto é suficiente para avançar para denúncias formais ou se novas diligências serão necessárias, inclusive pedidos adicionais de busca, quebra de sigilo e ampliação da perícia.

A redução do prazo para colheita de depoimentos, justificada por limitações internas do Supremo, reabre o debate sobre transparência e eficiência do sistema de Justiça em casos que envolvem grandes bancos e figuras influentes. A forma como o STF administra o tempo, o espaço físico e o relacionamento com PF, PGR e peritos ajudará a definir não apenas o desfecho do caso Banco Master, mas também a confiança pública na capacidade das instituições de investigar o próprio sistema financeiro sem ceder a pressões externas.

Enquanto o país observa a movimentação em Brasília, a pergunta que se impõe é se a compressão de prazos reforça a busca por agilidade ou apenas desloca para os bastidores um conflito que continua aberto entre investigação, política e poder econômico.

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