Toffoli antecipa depoimentos e acelera inquérito do Banco Master
O ministro Dias Toffoli manda a Polícia Federal antecipar para 26 e 27 de janeiro de 2026 os depoimentos no inquérito sobre a venda de créditos inexistentes pelo Banco Master. A investigação mira uma suposta fraude de R$ 12,2 bilhões, com potencial de abalar a confiança no sistema financeiro brasileiro.
Decisão comprime cronograma e eleva pressão sobre investigados
A ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal atinge diretamente a estratégia da Polícia Federal, que planejava ouvir os investigados entre o fim de janeiro e todo o mês de fevereiro. Com a decisão, as oitivas se concentram em dois dias, segunda e terça-feira, nas dependências do STF, em Brasília, e passam a ocorrer sob vigilância ainda mais rígida do gabinete de Toffoli.
O inquérito corre em sigilo, mas o recado é público. Ao reduzir prazos e centralizar a agenda, o ministro deixa claro que considera as declarações dos envolvidos decisivas para o avanço da investigação. A medida também busca evitar que a crise se arraste e contamine a percepção de segurança do Sistema Financeiro Nacional, em um caso que envolve cifras bilionárias e suspeitas de fraude em série.
A previsão inicial previa oitivas presenciais e remotas, espaçadas ao longo de várias semanas. Agora, a logística precisa caber em apenas 48 horas. Segundo despacho do ministro, as sessões são concentradas por limitações de espaço físico e de pessoal no STF, que já lida com uma agenda de alta complexidade. Esse encaixe forçado aumenta a pressão sobre investigados e autoridades, que terão pouco espaço para manobras ou adiamentos.
Fraude bilionária em créditos e o papel de Daniel Vorcaro
No centro do caso está a negociação de R$ 12,2 bilhões em créditos que, de acordo com a apuração, simplesmente não existiam. Os papéis teriam saído do Banco Master em direção ao Banco de Brasília (BRB), criando uma cadeia de riscos que preocupa reguladores e investidores. A suspeita é de que operações contábeis sofisticadas tenham mascarado a ausência de lastro real, abrindo espaço para ganhos indevidos e prejuízos difusos.
O controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, é um dos principais alvos da PF. Ele já prestou depoimento em 30 de novembro, em uma acareação com o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Na ocasião, respondeu a perguntas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e a cerca de 80 questionamentos do próprio gabinete de Toffoli, em um interrogatório que se estendeu por quase três horas.
Aquela oitiva não encerra as dúvidas dos investigadores. A PF pretende agora retomar os questionamentos a Vorcaro para confrontar pontos considerados contraditórios em relação às versões apresentadas por outros executivos. Desde que teve a prisão preventiva revogada, em 28 de novembro, o empresário usa tornozeleira eletrônica e só se desloca com autorização judicial. O novo depoimento ocorre nesse ambiente de vigilância e controle reforçado.
Outros nomes relevantes também entram em cena. Ex-executivos do Banco Master, como o ex-sócio Augusto Lima, e integrantes da antiga direção do BRB estão convocados para depor. O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, já falou à PF no mesmo período da acareação, embora não tenha participado do confronto direto entre Master e BRB. As falas desses atores compõem o mosaico de uma operação que, segundo investigadores, pode expor falhas graves de governança e supervisão.
Desde o início de dezembro, qualquer diligência ligada ao caso precisa de autorização direta de Toffoli. O ministro assume o comando da trilha probatória e avalia pessoalmente pedidos de novas buscas, quebras de sigilo e ações de campo. A centralização incomum reforça a avaliação de que se trata de um caso sensível, com potencial para gerar instabilidade além das fronteiras dos bancos diretamente envolvidos.
Impacto no sistema financeiro e sinais para o mercado
A decisão de encurtar prazos e trazer os depoimentos para a última semana de janeiro é também um gesto ao mercado. Ao acelerar as oitivas, o STF tenta reduzir a janela de incerteza em torno da suposta fraude de R$ 12,2 bilhões. Em um país em que a confiança nos bancos é pilar de estabilidade, a possibilidade de créditos sem lastro circularem entre instituições acende um alerta vermelho.
Autoridades do setor avaliam, nos bastidores, que a investigação tem efeito pedagógico. A forma como PF e STF conduzem o caso tende a influenciar futuras operações de venda de carteiras de crédito e de securitização, em que bancos transformam dívidas em títulos negociáveis. A pressão por transparência e por checagem mais rígida dos números deve aumentar, especialmente em operações de grande porte entre bancos médios e instituições públicas.
O episódio também coloca holofotes sobre a atuação dos órgãos de fiscalização. O Banco Central, responsável pela supervisão do sistema, é chamado a explicar como operações dessa magnitude se desenrolam sem disparar alarmes precoces. Procuradores veem na investigação uma oportunidade para rever fluxos de informação, cruzamentos de dados e parâmetros de alerta para operações fora do padrão.
Investidores e analistas acompanham o caso com atenção. Eventuais confirmações de fraude podem gerar processos cíveis e criminais, além de estimular uma revisão regulatória mais dura sobre bancos médios, que costumam crescer em nichos específicos e assumir mais risco. A imagem institucional do Master e do BRB está em jogo, assim como a de executivos que assinaram ou avalizaram as operações.
Próximos passos e o que está em disputa
As oitivas dos dias 26 e 27 de janeiro funcionam como um ponto de virada no inquérito. A PF espera reunir, em poucos dias, elementos suficientes para definir o rumo do caso: pedidos de novas medidas cautelares, denúncias formais ou aprofundamento de perícias contábeis. A velocidade da resposta institucional será observada não só por Brasília, mas por todo o setor financeiro.
Com o sigilo mantido, pouco se sabe sobre a estratégia de defesa dos principais investigados. Advogados trabalham para afastar a tese de créditos inexistentes e sustentar a regularidade das operações. Toffoli, por sua vez, sinaliza que não pretende alongar o processo além do necessário para formar convicção. A partir do que for dito no STF naqueles dois dias, o Judiciário terá de responder a uma pergunta central: o caso Banco Master será um episódio isolado ou o sintoma de um problema mais profundo na engrenagem do sistema financeiro nacional?
