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TJ do Rio aceita denúncia por estupro coletivo de adolescente em Copacabana

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro aceita a denúncia contra quatro adultos acusados de estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana. O ex-namorado da jovem, também de 17 anos, é apontado como mentor do crime e responde por ato infracional análogo ao estupro. O caso vem a público em 2026, após detalhes do inquérito policial revelarem a violência física, sexual e psicológica sofrida pela vítima.

Encontro marcado, emboscada e frases de deboche

A violência acontece em um imóvel na Rua Ministro Viveiros de Castro, um dos endereços mais movimentados de Copacabana, na zona sul do Rio. Segundo o inquérito da 12ª DP, a adolescente acredita que terá um encontro a sós com o ex-namorado, com quem mantém uma relação de confiança desde antes do fim do relacionamento.

O relatório aponta que o garoto combina o encontro por aplicativo de mensagens e chega a sugerir que a jovem leve uma amiga, proposta que ela recusa. A investigação descreve que, ao chegar ao prédio, a adolescente segue com o ex-namorado até o apartamento, sem saber que quatro adultos a aguardam no local.

No quarto, de acordo com a Polícia Civil, os homens identificados como Bruno Felipe Allegretti, Vitor Hugo Simonin, João Gabriel Xavier Bertho e Mattheus Verissimo Zoel Martins invadem o espaço e iniciam a sequência de violência sexual. O inquérito relata agressões físicas, humilhações e abusos psicológicos, em um ambiente descrito como de total domínio e intimidação sobre a vítima.

Depois dos abusos, o ex-namorado acompanha a adolescente até a saída do edifício. Na porta, ainda segundo o documento, Mattheus dirige ao menor uma frase que choca até investigadores experientes: “na próxima vez, leva uma amiga boa igual”. A frase, registrada no inquérito, é tratada como sinal de frieza e possível naturalização da violência dentro do grupo.

Imagens de câmeras de segurança anexadas ao inquérito mostram o adolescente fazendo gestos de comemoração após a saída da jovem do prédio. Para os investigadores, a cena reforça a tese de premeditação e de participação ativa do menor em todas as etapas do crime, da atração da vítima à celebração posterior.

Processo em segredo de justiça e risco de reincidência

O Ministério Público denuncia os quatro adultos por estupro de vulnerável qualificado, com agravantes pela premeditação, pela ação em grupo e pela idade da vítima. A denúncia é aceita pelo TJRJ, e o processo segue em segredo de justiça. Em caso de condenação, as penas podem variar de 8 a 12 anos de reclusão para cada um, com possibilidade de aumento em razão das circunstâncias descritas no inquérito.

Os suspeitos adultos estão presos preventivamente. A medida, segundo fontes envolvidas na apuração, busca evitar pressão sobre a vítima, interferência na colheita de provas e, sobretudo, novos ataques. A Polícia Civil investiga se o grupo participa de outros dois casos de estupro registrados desde 2023, com o mesmo padrão de sedução inicial, encontro marcado em imóvel e ação coletiva dentro de quarto.

O ex-namorado responde por ato infracional análogo ao crime de estupro, sob as regras do Estatuto da Criança e do Adolescente. A sanção máxima prevista é de três anos de internação em unidade socioeducativa. Delegados e promotores ouvidos reservadamente afirmam que o limite imposto pela legislação expõe uma tensão permanente: como responsabilizar um adolescente apontado como mentor de um crime tão grave sem romper princípios de proteção integral da infância e juventude.

O caso ganha peso simbólico porque toca em uma zona sensível das relações afetivas entre adolescentes. A vítima aceita o encontro porque confia no ex-namorado, não em estranhos. Especialistas em violência sexual ouvidos pela reportagem explicam que esse tipo de crime se apoia, muitas vezes, em laços de proximidade que desarmam a desconfiança e reduzem a percepção de risco.

Organizações que acompanham casos de estupro coletivo lembram que a violência em grupo tende a intensificar a sensação de impotência da vítima e a dificultar a denúncia. Quando o agressor central é alguém próximo, como um parceiro ou ex-parceiro, a culpa e a vergonha costumam ser ainda maiores, o que pode retardar a busca por ajuda e a formalização do boletim de ocorrência.

Pressão por respostas e o que vem a seguir

A divulgação dos detalhes do inquérito, em 2026, reacende o debate sobre a vulnerabilidade de meninas em relações marcadas por ciúme, controle e chantagem emocional. Escolas, serviços de saúde e famílias se veem diante do desafio de reconhecer sinais de abuso antes que situações como a de Copacabana se consolidem em violência extrema.

Para o sistema de Justiça, o caso coloca à prova a capacidade de dar respostas rápidas e firmes em crimes sexuais coletivos. A investigação sobre outros dois episódios com possível ligação ao mesmo grupo pode revelar se o ataque em Copacabana é um ponto fora da curva ou parte de uma escalada de violência planejada. A sentença, quando vier, vai medir não apenas a responsabilidade dos acusados, mas também o quanto o Estado consegue proteger adolescentes que confiam demais em quem nunca deveria tê-las traído.

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