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Título de cidadão honorário reacende debate sobre Toffoli e caso Master

O título de cidadão honorário concedido a Dias Toffoli em Ribeirão Claro em 2017 volta ao centro do debate público em 2026. A homenagem, ligada ao desenvolvimento turístico da cidade e à atuação do ministro na Justiça Eleitoral, ganha novos contornos em meio às suspeitas que cercam o caso Banco Master e os negócios da família do magistrado na região.

Homenagem local sob nova luz

O decreto legislativo que concede a honraria descreve a “constante atenção” de Toffoli ao município do interior paulista, “visando o desenvolvimento e o incremento turístico”. O texto também exalta a “atuação exemplar” do ministro para manter a 23ª Zona Eleitoral em Ribeirão Claro, ponto que reforça a aproximação institucional entre o Supremo Tribunal Federal e a cidade.

Dois anos depois da homenagem, em 20 de dezembro de 2019, Toffoli volta ao município para a inauguração do Fórum Eleitoral Luiz Toffoli, batizado em homenagem ao pai do ministro. Para o deslocamento, ele utiliza um avião da Força Aérea Brasileira em voo de Brasília até Ourinhos, cidade a menos de 40 quilômetros de Ribeirão Claro. O retorno para a capital federal ocorre em 23 de dezembro.

A presença de um ministro do STF em um município pequeno, com foro eleitoral que leva o nome de seu pai e título de cidadania aprovado pela Câmara local, já chama atenção à época. Anos depois, a proximidade geográfica com o Tayayá Resort, empreendimento às margens da represa de Chavantes que se torna polo turístico regional, amplia a área de sombra sobre potenciais conflitos de interesse.

Resort, fundos e caso Master

O Tayayá Resort entra no noticiário não apenas pelo apelo turístico. Dados da Receita Federal indicam que o quadro societário do empreendimento já inclui a Maridt Participações S.A., empresa de Igor Luiz Pires Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro. Em 2019, enquanto a cidade celebra o novo fórum eleitoral, o resort consolida sua posição como ativo relevante no mercado imobiliário e turístico da região.

Registros da Comissão de Valores Mobiliários mostram que um fundo de investimento, o Arleen Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, aporta R$ 4,3 milhões para comprar ações do Tayayá Resort. O Arleen é administrado pela Reag, gestora citada na operação Carbono Oculto sob suspeita de ligação com esquema de lavagem de dinheiro para o PCC. Segundo as investigações, a Reag também injeta R$ 16,3 milhões na DGEP Empreendimentos, empresa que já tem como sócio Mario Umberto Degani, primo de Toffoli.

As operações financeiras entram no radar justamente porque Toffoli se torna relator do caso Banco Master no Supremo. O Master tem como presidente Daniel Vorcaro, preso sob suspeita de uma série de fraudes financeiras. De acordo com informações confirmadas pela CNN, um fundo gerido por empresa citada no caso Master participa da compra de parte do Tayayá, ligando o resort às investigações.

Em nota, a defesa de Vorcaro nega “qualquer envolvimento com fraudes, fundos ilícitos ou operações” e afirma que o banco “nunca foi gestor, administrador ou cotista dos fundos citados”. A Reag informa que não vai comentar. A família de Toffoli vende a participação no resort em uma sequência de transações iniciadas em dezembro de 2024 e concluídas em setembro de 2025, quando o advogado goiano Paulo Humberto Costa, ligado à JBS dos irmãos Joesley e Wesley Batista, assume a fatia dos irmãos e do primo do ministro.

O gabinete de Dias Toffoli é procurado pela reportagem para comentar a homenagem, o uso do avião da FAB e a relação com os negócios na região, mas não responde até a publicação deste texto.

Conflito de interesse e pressão institucional

A combinação de homenagens locais, vínculos familiares com um resort de luxo e o papel central de Toffoli no caso Master alimenta questionamentos sobre conflito de interesse. O ministro não se declara impedido e afirma a interlocutores que não vê razão para deixar a relatoria. A manutenção do caso em suas mãos, mesmo sob pressão, expõe uma fissura dentro do Supremo e acirra a crítica de setores da política e do meio jurídico.

A condução do inquérito reforça essa percepção. Depois de assumir a relatoria, Toffoli viaja à final da Libertadores, no Peru, no mesmo jatinho em que está um dos advogados da defesa vinculada ao Master. Naquele momento, a investigação corre sob sigilo imposto pelo próprio ministro. O episódio aumenta a desconfiança de que há proximidade excessiva entre julgador e parte interessada.

Em 14 de janeiro de 2026, Toffoli determina que todos os bens, documentos e aparelhos eletrônicos apreendidos pela Polícia Federal na operação sobre o Master sejam lacrados e enviados diretamente ao Supremo. A decisão rompe a prática usual, que deixa as provas sob guarda da PF, e provoca reação imediata. O diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, formaliza um pedido de reconsideração.

Toffoli recua parcialmente. Autoriza que o material seja remetido à Procuradoria-Geral da República e, depois, libera o acesso à PF. Na sequência, escolhe por conta própria peritos da própria Polícia Federal para acompanhar a perícia dos itens apreendidos. A alternância de decisões, em intervalo de poucos dias, é interpretada como sinal de desgaste político e tentativa de controlar a narrativa do caso.

Transparência em xeque e próximos capítulos

A repercussão do título de cidadão honorário, somada ao histórico societário do Tayayá Resort, amplifica um debate que ultrapassa os limites de Ribeirão Claro. A discussão atinge a credibilidade do Supremo e a confiança na independência de seus ministros em processos que envolvem grandes bancos, fundos de investimento e figuras influentes do setor privado.

Especialistas em direito público ouvidos pela reportagem avaliam que o caso expõe a fragilidade dos mecanismos internos de controle de conflito de interesse no Judiciário. O sistema se apoia, em grande medida, na autodeclaração dos magistrados. Quando um ministro reluta em se afastar de um processo com múltiplas conexões pessoais e políticas, a pressão recai sobre a própria instituição, que passa a responder por cada gesto individual.

O impacto político é imediato. Congressistas ligados à oposição cobram explicações formais e veem na sucessão de episódios um fio narrativo capaz de alimentar discursos contra o Supremo em ano pré-eleitoral. Aliados de Toffoli, por outro lado, minimizam as críticas e defendem que não há ilegalidade comprovada, apenas coincidências interpretadas sob lente política.

As investigações sobre o Banco Master seguem em andamento na PGR e na Polícia Federal, enquanto o Supremo mantém sob sua guarda as principais decisões processuais. O desfecho do inquérito, o alcance das responsabilizações e a postura de Toffoli diante de novos questionamentos devem definir se a homenagem em Ribeirão Claro ficará marcada como gesto protocolar de agradecimento ou como peça simbólica em um caso que testa, mais uma vez, os limites de transparência e imparcialidade do Judiciário brasileiro.

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