Thuram acusa Mourinho de racismo estrutural após ataque a Vinícius Júnior
Lilian Thuram acusa José Mourinho de exalar racismo estrutural ao culpar Vinícius Júnior pela paralisação de uma partida em 2026, no Estádio da Luz, em Lisboa. O ex-zagueiro francês chama as declarações do técnico de “patéticas” e “narcisistas” e reacende o debate sobre como o futebol trata denúncias de jogadores negros.
Mourinho relativiza denúncia e vira alvo
O estopim da crise começa quando, após novos insultos racistas a Vinícius Júnior, o protocolo antirracismo é acionado e paralisa a partida em Lisboa. Diante de mais de 60 mil pessoas no Estádio da Luz, o atacante brasileiro do Real Madrid decide reagir, aponta os agressores nas arquibancadas e pressiona pela interrupção do jogo.
Em vez de concentrar a crítica nos torcedores que proferem os insultos, Mourinho, então técnico do Benfica, transfere o foco para o comportamento do jogador. “Conversei com os dois, Vinícius me disse uma coisa e Prestianni me disse outra. Não quero dizer que acredito 100% em Prestianni, mas também não quero dizer que o que Vinícius disse é verdade”, afirma o português, ao comentar o relato do brasileiro e do jovem argentino do Benfica.
O treinador avança na crítica e cobra de Vinícius outra postura diante do público. “Vinícius marca um gol que só ele ou Mbappé conseguem marcar, ele deveria comemorar com os companheiros, e não se meter com as 60 mil pessoas neste estádio”, completa, em declaração que corre a Europa em poucos minutos.
As falas cruzam a fronteira rapidamente e chegam à França, onde Thuram, campeão do mundo em 1998 e referência na luta antirracista, decide responder. Em entrevista ao jornal L’Équipe, o ex-defensor não poupa o técnico português e transforma o caso em exemplo de como o futebol costuma duvidar de atletas negros.
“Superioridade branca e narcisismo”
Thuram parte de uma constatação direta. “Estamos em 2026 e, em 2026, pessoas negras ainda podem ser humilhadas em campo. Porque racismo é humilhação”, afirma, ao lembrar que o episódio de Lisboa não é isolado na carreira de Vinícius. Desde 2021, o brasileiro relata insultos em estádios de LaLiga e da Liga dos Campeões, com múltiplos inquéritos abertos, punições pontuais e poucas mudanças estruturais.
Na entrevista, o francês mira a desconfiança que cerca as vítimas. “Vinícius relatou os eventos, Kylian Mbappé os relatou. Mas não, isso não basta, a dúvida persiste, não temos certeza. Mas por que não acreditamos nesses dois jogadores? Porque as palavras de homens negros não são confiáveis”, diz. A menção a Mbappé amplia o alcance do caso e conecta Portugal, Espanha e França a um mesmo padrão de reação.
O ex-jogador aprofunda o ataque a Mourinho. “Quem é você, Sr. Mourinho, para decidir o que Vini tem o direito de fazer? Essa declaração exala superioridade branca e narcisismo”, dispara. Thuram rejeita a ideia de que o comportamento de Vinícius tenha qualquer responsabilidade na agressão sofrida. “O ato racista que Vinícius Júnior sofreu não teve nada a ver com o comportamento dele, mas sim com a cor da sua pele.”
Ao acusar o técnico de inverter responsabilidades, o francês radicaliza o julgamento. “Quando Mourinho tenta nos fazer acreditar que Vinícius é responsável pelo racismo que sofre, é patético. Essa análise o reduz a uma pessoa insignificante, um homem insignificante”, conclui. O ataque frontal vem de alguém que acompanha o tema há pelo menos duas décadas e dirige uma fundação dedicada a combater preconceitos desde 2008.
A intervenção de Thuram encontra um ambiente já carregado. Poucos dias antes, o Real Madrid divulga nota em que diz ter entregado “todas as provas disponíveis” às autoridades portuguesas e à Uefa. Ídolo do Benfica, o ex-zagueiro Luisão revela ter sido alvo de ofensas racistas ao defender publicamente Vinícius, sinal de que a disputa ultrapassa o gramado e atinge também ex-jogadores. O ex-goleiro paraguaio José Luis Chilavert, em linha oposta, ataca o brasileiro em entrevista e contribui para o clima de polarização.
Pressão sobre o futebol europeu
O embate entre Thuram e Mourinho adiciona uma camada política a um problema recorrente. A cada novo episódio, ligas e federações reforçam protocolos em três estágios, que preveem avisos ao sistema de som, paralisação e até suspensão definitiva de partidas. Na prática, a aplicação segue irregular, depende da coragem de árbitros e jogadores e esbarra em interesses econômicos ligados a estádios cheios e direitos de transmissão.
Quando um treinador do peso de Mourinho, com mais de 25 anos de carreira em clubes como Real Madrid, Chelsea e Inter, relativiza uma denúncia em público, o sinal para o vestiário é imediato. Técnicos orientam comportamentos e definem limites de tolerância. Ao sugerir que Vinícius deveria se calar e “não se meter” com 60 mil torcedores, o português envia a mensagem de que a prioridade é a continuidade do espetáculo, não a proteção do atleta insultado.
Ao cobrar uma resposta firme, Thuram tenta deslocar essa balança. Sua crítica atinge não só o treinador, mas também dirigentes que, há anos, evitam confrontar torcidas organizadas e patrocinadores. O racismo, nesta leitura, não é um desvio individual, e sim parte de uma estrutura que normaliza ofensas, desacredita vítimas e trata denúncias como exagero.
O impacto imediato recai sobre a imagem de Mourinho, que já acumula polêmicas públicas e suspensões disciplinares. Em 2026, com redes sociais mais atentas a pautas identitárias e comissões de ética atuando sob pressão, declarações como as dele deixam de ser apenas frases duras e passam a ser vistas como indicadores de cultura de clube. Em paralelo, Vinícius segue no centro do debate, transformado em símbolo de resistência dentro e fora de campo.
O que vem depois do choque público
A repercussão das falas de Thuram tende a alimentar investigações, relatórios e novos compromissos formais contra o racismo. Clubes como Real Madrid, federações nacionais e a própria Uefa são cobrados a dar respostas em prazos curtos, com punições esportivas mais pesadas e ações educativas que envolvam torcedores, funcionários e atletas de base.
O confronto também pressiona treinadores a rever discursos e práticas. Declarações em zona mista, antes tratadas como descarga emocional, viram material para análises sobre liderança e ambiente interno. Em um cenário em que direitos de imagem somam centenas de milhões de euros por temporada, ninguém ignora o risco de associar uma marca a episódios de discriminação.
O futebol europeu entra em mais um ciclo de introspecção, com reuniões, comitês e campanhas pontuais. A fala de Thuram, porém, recoloca a pergunta que se arrasta há pelo menos 20 anos: até quando a palavra de jogadores negros seguirá sob suspeita nos grandes estádios? A resposta, desta vez, não depende só deles.
