Esportes

Textor acusa tentativa de golpe e nega recuperação judicial no Botafogo

O controlador da SAF do Botafogo, John Textor, acusa uma tentativa de levar o clube à recuperação judicial para “roubar o Botafogo” e critica a imprensa por alimentar rumores sobre dívidas bilionárias, em mensagem enviada na manhã desta quinta-feira (12/2) à repórter Victoria Leite, da Cazé TV.

Mensagem expõe crise interna e confronto com a imprensa

O texto de Textor circula poucas horas depois de novos rumores sobre a situação financeira do Botafogo voltarem a ganhar espaço nas redes e em programas esportivos. O americano reage a um noticiário que, segundo ele, distorce a disputa societária na Eagle, empresa que controla a SAF alvinegra, e contamina o ambiente político do clube justamente no momento em que o associativo analisa um novo aporte financeiro.

Na mensagem reproduzida por Victoria Leite, o dirigente acusa diretamente pessoas ligadas ao clube de agirem com má-fé. “As pessoas que tentaram levar o clube à recuperação judicial há duas semanas são pessoas que tentaram roubar o clube e depois dizer que salvaram o clube. Foi tudo mentira, e os jornalistas acreditaram porque, no Brasil, dependem de fontes anônimas. Foram histórias manipuladas e a mídia simplesmente seguiu a narrativa”, afirma Textor.

A crítica mira veículos que noticiam, desde o fim de janeiro, a possibilidade de a SAF recorrer à recuperação judicial, mecanismo usado por empresas em crise profunda para renegociar dívidas. Em 28 de janeiro, o GE publica reportagem afirmando que o Botafogo prepara um pedido de recuperação judicial para a SAF por causa de débitos estimados em ao menos R$ 1,5 bilhão. O clube reage no mesmo dia e divulga nota oficial negando a iniciativa.

Naquela ocasião, a direção escreve que “não tomou nenhuma iniciativa relativa à Recuperação Judicial da SAF” e que segue “envidando todos os esforços para regularizar a situação financeira”, frisando que “a informação sobre este mecanismo não procede”. O desmentido não encerra o assunto e o tema continua a aparecer em análises sobre o futuro da SAF, agora reativado pelas declarações duras de Textor.

Disputa societária, dívidas e a batalha pela narrativa

O bastidor da crise passa pela Eagle, holding por meio da qual Textor concentra seus investimentos no futebol e que vive uma disputa societária prolongada. A tensão interna se reflete no Botafogo, onde decisões estratégicas, como a aprovação de um novo aporte junto ao quadro associativo, dependem de alinhamento entre o controlador da SAF e diferentes grupos políticos do clube. Cada movimento financeiro é lido como sinal de força ou fraqueza nessa queda de braço.

O valor de R$ 1,5 bilhão citado na reportagem do GE se torna símbolo desse embate. Para opositores e críticos da gestão, o número revela a dimensão do desafio para equilibrar as contas e cumprir compromissos assumidos desde a criação da SAF, em 2022. Para Textor, o dado entra em um pacote de informações usadas para construir um cenário de colapso iminente, que justificaria, segundo ele, uma intervenção travestida de “salvação” do clube.

A acusação de que houve tentativa de empurrar o Botafogo para a recuperação judicial serve, na prática, como uma denúncia política. Ao dizer que “foi tudo mentira” e que houve tentativa de “roubar o clube”, o americano insinua que grupos internos se aproveitam da complexidade das dívidas para ganhar poder sobre a SAF. O ataque à imprensa, nesse contexto, funciona como forma de deslegitimar reportagens que descrevem um Botafogo à beira do colapso financeiro.

O choque de versões expõe um problema recorrente no futebol brasileiro: a falta de transparência plena em números, contratos e fluxos de caixa de clubes e SAFs. Sem acesso detalhado às contas, torcedores e mesmo conselheiros dependem de informações filtradas por dirigentes, advogados e fontes anônimas. Esse terreno nebuloso alimenta vazamentos seletivos, leituras interessadas e manchetes que ora reforçam, ora derrubam narrativas em disputa.

O histórico recente do Botafogo ajuda a entender o peso desse debate. Antes da SAF, o clube carrega décadas de desequilíbrio financeiro, atrasos salariais e disputas judiciais com jogadores e credores. A promessa de profissionalização e aporte privado com a chegada de Textor, em 2022, cria a expectativa de ruptura com esse passado. Quando surgem cifras bilionárias e a palavra “recuperação judicial”, parte da torcida enxerga o risco de o velho roteiro se repetir sob nova embalagem.

Impacto sobre torcedores, investidores e a gestão da SAF

As declarações desta quinta-feira têm efeito imediato sobre a confiança de quem acompanha o clube. Para torcedores, a diferença entre uma dívida pesada, mas administrável, e um pedido formal de recuperação judicial é enorme. O primeiro cenário permite investimentos graduais, negociação com credores e manutenção de competitividade esportiva. O segundo carrega estigma, afasta patrocinadores e pode travar contratos por anos.

Investidores e parceiros comerciais avaliam com cautela o desenrolar da crise. Um clube associado a processos de recuperação judicial tende a pagar taxas maiores em empréstimos, encontrar mais resistência em bancos e ver cair o apetite de novos sócios. Ao negar publicamente qualquer movimento nessa direção, Textor tenta proteger o valor de mercado da SAF e preservar o ambiente para futuros aportes, inclusive o que está em discussão com o associativo alvinegro.

Dentro do clube, a fala do controlador da SAF aumenta a pressão sobre conselheiros, dirigentes e representantes de grupos políticos que vinham questionando a condução financeira. Ninguém quer ser associado, diante da torcida, a uma suposta tentativa de “roubar o clube”. Ao mesmo tempo, a acusação abre espaço para cobranças por demonstrações contábeis detalhadas, auditorias independentes e comunicação mais objetiva sobre o tamanho real das dívidas.

A relação com a imprensa também sai mais tensa. Ao dizer que jornalistas “acreditaram porque, no Brasil, dependem de fontes anônimas”, Textor confronta diretamente a prática de bastidor que sustenta a cobertura esportiva e política há décadas. Redações passam a ser pressionadas a reforçar checagens, ouvir mais lados e explicitar melhor o grau de confirmação das informações quando o tema envolve finanças sensíveis e disputas societárias.

Próximos capítulos da disputa pelo controle do Botafogo

A mensagem enviada a Victoria Leite, que vem a público nesta quinta-feira e é registrada às 17h57, não encerra a crise. A aprovação ou não do aporte em discussão no quadro associativo tende a funcionar como termômetro do apoio interno a Textor. Cada voto carrega, nas entrelinhas, uma leitura sobre a confiança na gestão da SAF e na capacidade do americano de equacionar as dívidas sem recorrer à recuperação judicial.

Os próximos passos dependem de como os envolvidos na disputa societária dentro da Eagle e do Botafogo vão reagir às acusações. Se houver novas notas oficiais, documentos contábeis detalhados ou manifestações públicas de grupos internos, o debate pode ganhar contornos mais objetivos e menos baseados em versões. Até lá, a pergunta que paira sobre General Severiano é direta: quem controla, de fato, o futuro financeiro do clube que Textor diz querer proteger?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *