Tensão no Estreito de Ormuz reacende temor de crise energética global
Irã e Estados Unidos travam, desde 28 de fevereiro, uma disputa que ameaça fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. O tráfego de navios na região despenca, e governos correm para evitar que a rota estratégica se transforme no epicentro de uma nova crise energética global.
Estreito vira frente central de uma guerra existencial
O Estreito de Ormuz, estreita faixa de água entre Irã e Omã, sempre ocupa o centro dos roteiros de crise no Golfo. Desta vez, porém, a escalada é diferente. Desde o início da ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, que matou o líder supremo iraniano, autoridades em Teerã descrevem a guerra como existencial. A Guarda Revolucionária ganha protagonismo e resgata uma ameaça antiga: fechar a única saída marítima para o petróleo de Kuwait, Irã, Iraque, Catar e Emirados Árabes Unidos.
Os efeitos são imediatos. Dados da ONU indicam que o tráfego de navios pelo estreito cai 97% desde o início da guerra. Tanqueiros de petróleo e embarcações de gás natural liquefeito evitam a região, enquanto seguradoras recalculam riscos e prêmios. Na segunda-feira (9), o petróleo sobe brevemente ao nível mais alto desde 2022, reacendendo memórias da disparada de preços que se segue à invasão da Ucrânia pela Rússia.
Ao longo da última década, a ameaça de fechamento de Ormuz é repetida diversas vezes por Teerã. Em 2011, um comandante da Guarda diz que bloquear o estreito seria “mais fácil do que beber um copo de água”. O aviso volta a aparecer em 2016 e 2018, durante disputas sobre sanções e o programa nuclear, e em junho do ano passado, em meio a ataques israelenses e americanos. Analistas, porém, sempre tratam o cenário como último recurso, pela previsível retaliação militar e pelo dano ao próprio setor energético iraniano. A morte do líder supremo altera esse cálculo.
Ormuz concentra vulnerabilidades. As rotas de navegação têm apenas duas milhas náuticas de largura, cerca de três quilômetros, e obrigam navios gigantes a fazer curvas diante de ilhas iranianas e de uma costa montanhosa. A geografia favorece emboscadas, minas e ataques de surpresa. A marinha regular iraniana está em grande parte destruída, mas a Guarda Revolucionária mantém uma frota irregular de embarcações rápidas, mini-submarinos, minas e até jet skis carregados de explosivos, segundo o comandante aposentado da Marinha Real britânica Tom Sharpe.
Mercados em alerta com petróleo, fertilizantes e alimentos
A cada novo movimento militar no Golfo, o nervosismo se espalha pelas bolsas de energia. Cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo depende de Ormuz. A travessia também é fundamental para fertilizantes: 33% do volume global, incluindo enxofre e amônia, cruza o estreito, de acordo com a consultoria Kpler. Um bloqueio prolongado ameaça o abastecimento de combustíveis, encarece a produção agrícola e pressiona a inflação de alimentos.
Especialistas em segurança energética voltam a citar os choques de petróleo das décadas de 1970 como paralelo incômodo. Um salto duradouro dos preços poderia desencadear nova crise de custo de vida, em linha com o alerta da ONU, que vê risco concreto de um choque econômico global se a guerra se prolongar. Países pobres e importadores líquidos de energia seriam os primeiros a sentir o impacto, seguidos por economias avançadas que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis.
As tentativas de proteção da rota mostram o tamanho do desafio. O presidente Donald Trump afirma em 3 de março que os Estados Unidos fornecerão proteção a petroleiros que cruzem o estreito e ordena à agência de financiamento ao desenvolvimento do país que ofereça seguros e garantias a armadores. Mesmo assim, os ataques continuam, e “muito pouco está conseguindo passar”, reconhece o próprio governo americano.
Na Europa, o presidente francês Emmanuel Macron diz que países europeus, Índia e outros Estados asiáticos estudam uma missão conjunta para escoltar navios comerciais. A operação, porém, só avançaria após o fim das hostilidades, segundo o francês. A França desloca cerca de uma dúzia de navios de guerra, incluindo um grupo de ataque com porta-aviões, para o Mediterrâneo Oriental, o Mar Vermelho e, potencialmente, as proximidades de Ormuz.
No Reino Unido, o premiê Keir Starmer discute com líderes da Alemanha e da Itália formas de apoiar o transporte comercial. No Pentágono, o general Caine admite que Washington avalia “uma série de opções”, sem detalhar planos. Analistas militares calculam que seria possível escoltar, a curto prazo, três ou quatro navios por dia, usando sete ou oito destróieres para garantir cobertura aérea. Manter essa operação por meses exigiria, porém, bem mais recursos humanos e materiais.
A experiência recente no Mar Vermelho pesa sobre todos os cálculos. Os houthis do Iêmen, aliados de Teerã e com arsenal bem menor que o iraniano, interrompem por mais de dois anos boa parte do tráfego pelo Estreito de Bab al-Mandab e pelo Canal de Suez, apesar da presença de forças navais lideradas pelos EUA e pela União Europeia. A maioria das grandes companhias, como a dinamarquesa Maersk, prefere roteiros mais longos, contornando o sul da África, o que encarece fretes e atrasa cadeias de suprimentos.
Risco de bloqueio prolongado testa limites militares e econômicos
Mesmo em um cenário de ataques coordenados contra mísseis balísticos, drones e minas flutuantes do Irã, a ameaça de ações suicidas permanece, lembra Adel Bakawan, diretor do European Institute for Middle East and North African Studies. “Um único barco carregado de explosivos é suficiente para paralisar uma rota por dias”, resume um diplomata europeu ouvido em caráter reservado. A avaliação no meio militar é semelhante: “O mundo precisa que o petróleo flua a partir do Golfo, e por isso há planejamento em andamento para implementar medidas de proteção”, afirma Kevin Rowlands, editor do RUSI Journal, do Royal United Services Institute.
Teerã multiplica suas apostas assimétricas. Segundo o Centre for Information Resilience, o país é capaz de produzir cerca de 10 mil drones por mês, volume que alimenta não apenas sua própria campanha, mas também grupos aliados na região. A rede de milícias pró-Irã, que inclui os houthis no Iêmen, amplia o raio de ameaça a rotas comerciais do Mediterrâneo ao Índico. Cada novo ataque eleva os custos de seguro, frete e escolta para empresas de navegação.
Potências do Golfo tentam construir alternativas. Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita investem em oleodutos que desviam da rota de Ormuz. Os projetos, porém, ainda não operam em plena capacidade. E o ataque houthi de 2019 a um oleoduto leste-oeste saudita mostra que nem essas alternativas estão livres de risco. Oleodutos expostos em desertos, sem a profundidade estratégica do mar, tornam-se alvos tentadores.
Enquanto isso, governos monitoram com atenção o calendário. Se a guerra se estender por semanas, cresce a probabilidade de uma operação de escolta internacional mais robusta em Ormuz, nos moldes das missões antipirataria ao largo da Somália, onde uma força liderada pela União Europeia obteve mais sucesso contra grupos mal equipados. No Golfo, porém, o adversário é mais sofisticado, mais próximo da costa e mais disposto a aceitar custos humanos elevados.
A incerteza alimenta a pergunta que domina reuniões de gabinete de energia e de defesa em capitais de todo o mundo: quanto tempo a economia global suporta um gargalo de 97% no principal corredor de petróleo do planeta? A resposta depende menos de reservas estratégicas e mais das decisões que Teerã, Washington e seus aliados tomarão nas próximas semanas, entre o risco de uma escalada direta e a necessidade de manter o mundo abastecido.
