Tenente-coronel é acusado de agredir PM Gisele dentro de batalhão
Um tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo é acusado de agredir fisicamente a própria esposa, a soldado Gisele Alves Santana, dentro do batalhão do Comando Geral. O episódio, ocorrido durante o expediente e presenciado por outros policiais, volta ao centro das investigações após a morte da PM, em 18 de fevereiro. A corporação abre agora um processo para expulsar o oficial, que responde preso.
Agressão em área restrita e clima de medo no quartel
O caso ganha novos contornos com depoimentos colhidos pela Corregedoria da Polícia Militar em 27 de março de 2026. Uma testemunha que atuava no Departamento de Suporte Administrativo do Comando Geral relata que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto agride Gisele durante o expediente, em uma área administrativa de circulação restrita a policiais. A discussão, segundo esse relato, começa por ciúmes e termina em violência física.
De acordo com a testemunha, o oficial segura Gisele pelos braços e a pressiona contra a parede, diante de outros policiais que circulavam pelo setor. A cena provoca constrangimento imediato e acende um alerta sobre a gravidade da situação, já que envolve um oficial de alta patente e ocorre dentro do próprio quartel. Outro depoente afirma à Corregedoria que colegas relataram um episódio ainda mais grave: as câmeras internas do batalhão registram o tenente-coronel apertando o pescoço da soldado com força suficiente para comprometer a respiração.
O gesto, descrito como intenso e deliberado, reforça a suspeita de violência doméstica exercida também no ambiente de trabalho. Os relatos indicam que não se trata de um rompante isolado. Testemunhas descrevem um padrão de comportamento marcado por ciúmes excessivos, controle sobre a vida pessoal e profissional de Gisele e conflitos recorrentes. Esse histórico aparece em uma série de depoimentos reunidos no inquérito interno ao qual a CNN Brasil tem acesso.
Mensagens trocadas pelo casal, citadas nas investigações, mostram que Gisele fala em se divorciar após uma suposta traição do marido. O conteúdo reforça a versão de um relacionamento em deterioração, com escalada de tensão nos meses que antecedem a morte da policial. Dentro do batalhão, colegas relatam discussões frequentes e atitudes consideradas abusivas do tenente-coronel, inclusive na frente de subordinados.
PM abre processo de expulsão e caso expõe violência na corporação
A morte de Gisele, atingida por um tiro na cabeça na manhã de 18 de fevereiro, leva o caso a outro patamar. A Polícia Militar confirma a abertura de um processo administrativo para expulsar o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto da corporação. A informação é dada pelo secretário de Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico, na manhã desta sexta-feira, 27 de março. Ele afirma que o procedimento corre em paralelo à investigação criminal.
O secretário explica que o processo de expulsão é analisado por uma comissão interna e assegura ao investigado o direito à ampla defesa e ao contraditório. Segundo ele, mesmo sem condenação judicial, o oficial pode ser desligado da PM se a comissão entender que houve falta grave incompatível com a função. Nico ressalta que, desde o momento em que Geraldo entra no sistema prisional, o salário do tenente-coronel é cortado.
A abertura do processo sinaliza uma tentativa da corporação de responder à pressão por responsabilização em casos de violência contra mulheres, inclusive quando as vítimas são policiais. Ao mesmo tempo, o rito administrativo levanta debate sobre até onde a Polícia Militar pode ir antes de uma decisão definitiva da Justiça. Se houver absolvição por inexistência do fato ou negativa de autoria, a PM pode ser obrigada a recuar e manter o oficial nos quadros.
O inquérito da Corregedoria, porém, já aponta para um quadro de violência doméstica e psicológica prolongada. Os depoimentos sugerem que a hierarquia e a cultura interna da corporação funcionam como barreira para que mulheres policiais denunciem abusos praticados por colegas e superiores. A agressão dentro de uma área restrita do Comando Geral, em plena jornada de trabalho, expõe falhas no controle interno e na proteção de vítimas em ambiente militar.
A defesa de Geraldo Leite Rosa Neto responde por nota. “Sobre o mérito das novas circunstâncias, a defesa se manifestará nos autos”, afirma o advogado. Em outro posicionamento, a equipe jurídica diz que, uma vez instaurado o Conselho de Justificação, exercerá a plena defesa do tenente-coronel e que confia na “proclamação da inocência administrativa” do cliente.
Próximos passos e impacto sobre políticas de proteção
As investigações criminal e administrativa seguem em curso, com produção de laudos periciais, análise de imagens internas do batalhão e reconstituições de rotina do casal. As novas informações sobre agressões anteriores podem influenciar tanto a responsabilização pelo homicídio quanto a conclusão da comissão que julga a conduta do oficial. A linha de apuração de violência doméstica, já destacada pela Corregedoria, ganha peso com o relato de estrangulamento e de controle emocional e psicológico.
O caso já provoca reação de entidades ligadas aos direitos das mulheres e de organizações que acompanham a atuação das forças de segurança. Especialistas em violência de gênero veem na morte de Gisele um ponto de inflexão para a discussão sobre proteção de mulheres dentro das próprias corporações armadas. A pressão tende a crescer por protocolos mais rígidos, canais de denúncia independentes e revisão de mecanismos de promoção e comando envolvendo policiais investigados por agressão.
Para a Polícia Militar de São Paulo, o processo de expulsão de um tenente-coronel de alto escalão também tem efeito simbólico. A decisão final pode indicar se a corporação está disposta a enfrentar a cultura de silêncio em torno da violência doméstica ou se continuará a tratar esses casos como conflitos privados, mesmo quando transbordam para dentro do quartel. A resposta institucional, somada ao desfecho na Justiça, deve ajudar a definir se a morte de Gisele se torna um caso isolado na estatística ou um marco para mudanças estruturais.
Enquanto a comissão interna não vota e a Justiça não decide, permanece a pergunta que atravessa o inquérito e as discussões públicas: quem protege as mulheres quando o agressor veste a mesma farda que elas?
