Tempestades de neve paralisam Kamchatka e deixam mortos na Rússia
Intensas tempestades de neve paralisam Petropavlovsk-Kamchatsky, no Extremo Oriente russo, em janeiro de 2026, deixam ao menos dois mortos e forçam decreto de emergência municipal.
Cidade soterrada entre telhados instáveis e ruas bloqueadas
A principal cidade da península de Kamchatka amanhece há dias sob um cenário que moradores chamam de “apocalipse de neve”. Ruas somem sob montes brancos que chegam ao segundo, terceiro e até quarto andar de prédios residenciais. Na prática, boa parte de Petropavlovsk-Kamchatsky deixa de funcionar.
As cenas correm o mundo pelas redes sociais. Vídeos mostram carros engolidos por túneis improvisados, fachadas enterradas até as janelas e moradores abrindo passagem a pá para sair de casa. Em algumas quadras, a neve acumula mais de três metros, empurrada por rajadas de vento que superam 100 km/h.
O extremo leste russo está acostumado a invernos duros. A diferença agora é a sequência de tempestades concentradas em menos de uma semana. Desde a última segunda-feira, sistemas de baixa pressão formados no Mar de Okhotsk avançam um após o outro sobre Kamchatka, sem dar tempo para limpeza adequada das ruas e, principalmente, dos telhados.
Nesse intervalo, a neve deixa de ser apenas cenário para virar risco direto à vida. Em vez do pó leve que costuma cair com frio intenso, a proximidade da temperatura com 0°C torna a neve úmida, densa e pesada. O peso extra sobre lajes e telhados de casas térreas e prédios baixos provoca quedas repentinas de grandes blocos de neve, capazes de soterrar pessoas em poucos segundos.
Mortes, responsabilização e colapso da rotina
O primeiro alerta trágico vem com a morte de um homem de 60 anos, atingido pela massa de neve que despenca do telhado de um prédio residencial de dois andares. O caso leva o prefeito Yevgeny Belyayev a decretar estado de emergência em toda Petropavlovsk-Kamchatsky na quinta-feira, com o objetivo de liberar recursos extras e acelerar a remoção de neve.
Na sequência, o ministro regional de Situações de Emergência, Sergei Lebedev, confirma uma segunda vítima. Um homem de 63 anos é soterrado pela neve que cai do telhado de uma casa térrea. Equipes médicas tentam reanimá-lo, mas ele morre ainda no local. “O aumento da temperatura torna a neve mais pesada e instável, o que eleva muito o risco de deslizamentos dos telhados”, alerta Lebedev em comunicado.
A reação das autoridades locais se volta rapidamente à responsabilização. Belyayev acusa empresas de administração predial de terem ignorado a urgência na limpeza dos telhados durante a sequência de tempestades. Segundo ele, muitas esperam o fim do mau tempo para agir, mesmo com camadas perigosas de neve acumulada sobre estruturas antigas ou mal conservadas.
O Comitê Investigativo da Rússia abre uma investigação criminal por violação de normas de segurança que resultam em morte. A apuração mira justamente a conduta dessas empresas e a possível falta de fiscalização. Nos bastidores, autoridades municipais reconhecem que a cidade entra no inverno com um passivo de manutenção em telhados, calhas e estruturas expostas ao peso extra da neve.
Enquanto o processo avança, a rotina de cerca de 180 mil habitantes muda de forma abrupta. Escolas fecham, o transporte público é suspenso e linhas de ônibus deixam de circular em vários bairros, simplesmente porque não conseguem atravessar as paredes de neve acumuladas nas vias. Em vez de coletivos, a prefeitura mobiliza caminhões com tração especial para transportar moradores em trajetos emergenciais.
Equipes do Ministério de Situações de Emergência divulgam vídeos em que bombeiros e voluntários escavam túneis estreitos em enormes bancos de neve para alcançar idosos presos em casas térreas. Em alguns casos, portas e janelas ficam completamente bloqueadas. Dentro dos imóveis, famílias dependem do aquecimento central e dos estoques de alimento para enfrentar dias sem conseguir sair à rua.
Impacto imediato e lições de um inverno extremo
A paralisação de Petropavlovsk-Kamchatsky expõe a fragilidade de uma cidade moldada para o frio, mas não para uma sucessão de tempestades intensas em sequência. Grandes nevascas são parte do cotidiano de Kamchatka, porém a combinação de vento acima de 100 km/h, neve úmida e telhados carregados transforma um evento esperado em emergência urbana.
O governador Vladimir Solodov faz questão de reforçar que, apesar do caos, o fornecimento de energia elétrica e aquecimento se mantém na maior parte da península. A manutenção desses serviços impede um cenário ainda mais grave, em que casas soterradas também ficariam sem calor em temperaturas negativas. Mesmo assim, agências estatais relatam danos a janelas, veículos esmagados por placas de neve e telhados arrancados por rajadas de força quase furacão.
Meteorologistas emitem alertas sucessivos para neve pesada, ventos fortes e visibilidade quase nula. Em alguns momentos, a recomendação é clara: ninguém deve sair de casa a pé se puder evitar. No entorno de prédios residenciais, moradores passam a evitar áreas sob beirais e sacadas, com medo de quedas repentinas de neve e gelo.
Nos bairros mais atingidos, a resposta inicial não vem apenas do poder público. Vizinhos organizam frentes de trabalho, dividem pás e ferramentas, abrem corredores até as escadas dos prédios e criam rotas improvisadas para que idosos alcancem farmácias ou postos de saúde. Imagens mostram moradores mergulhando em valas de neve até a cintura para chegar à rua principal mais próxima.
O episódio recoloca na agenda local a discussão sobre prevenção. Autoridades regionais admitem que a limpeza preventiva de telhados, a revisão estrutural de prédios antigos e protocolos mais rígidos para empresas de administração predial precisam sair do papel antes das próximas temporadas de neve extrema. A própria investigação criminal tende a pressionar por leis mais claras e punições mais duras em casos de negligência.
Próximos dias de atenção e um debate mais amplo
A previsão meteorológica indica a chegada de um novo ciclone nos próximos dias, o que prolonga o estado de alerta em Kamchatka. A cidade entra em ritmo de guerra contra a neve: equipes de resgate trabalham em turnos estendidos, máquinas pesadas operam sem pausa e o poder público tenta manter o equilíbrio entre liberar vias principais e reduzir o risco imediato nos telhados mais críticos.
Nos corredores do governo regional, o episódio já é tratado como um teste de estresse para a infraestrutura do Extremo Oriente russo diante de eventos climáticos mais extremos. O acúmulo recorde de neve em janeiro de 2026 não é visto apenas como anomalia, mas como sinal de que a cidade precisa se adaptar a cenários de risco mais frequentes. A forma como Petropavlovsk-Kamchatsky responde a esta temporada pode definir não só o próximo inverno, mas a maneira como regiões inteiras do Ártico e subártico se preparam para novos choques do clima.
