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Tempestades cancelam mais de 10 mil voos e deixam EUA em alerta

Tempestades severas paralisam o transporte aéreo nos Estados Unidos neste domingo (25) e derrubam a rede elétrica em diversas regiões. Mais de 10 mil voos são cancelados, milhões enfrentam apagões e cidades inteiras reduzem o ritmo enquanto a neve, o granizo e a chuva congelante avançam pelo país.

Caos nos aeroportos e cidades em meio à neve

A cena se repete em grandes hubs como Atlanta, Chicago, Nova York e Dallas: painéis dominados pela palavra “canceled”, filas longas diante dos balcões e passageiros dormindo em cadeiras improvisadas. O balanço preliminar das companhias aéreas aponta mais de 10 mil voos cancelados em um único dia, o maior volume desde as grandes ondas de frio de 2022.

O impacto se espalha pela malha aérea inteira. Passageiros com conexões internacionais ficam retidos em aeroportos intermediários e famílias se dividem em remarcações sucessivas. Em alguns terminais, a espera por um novo embarque supera 24 horas, enquanto os hotéis próximos esgotam rapidamente a capacidade. “Estou desde ontem tentando embarcar e cada mensagem no celular é mais um cancelamento”, afirma por telefone a professora brasileira Ana Paula Ribeiro, que tenta sair de Nova York rumo a Miami.

As empresas aéreas correm para reorganizar tripulações e aeronaves, um quebra-cabeça que depende da melhora das condições meteorológicas nas próximas horas. As pistas acumulam neve e gelo, exigindo pausas frequentes para limpeza e aplicação de produtos anticongelantes nas aeronaves, o que reduz o ritmo de decolagens e pousos. Mesmo aeroportos com estrutura robusta para o inverno operam acima do limite, em um esforço para manter ao menos parte da malha funcionando.

O governo federal monitora a situação por meio da Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês) e do Serviço Nacional de Meteorologia, que mantêm alertas de tempestade de inverno em vigor para amplas faixas do território. Autoridades orientam que passageiros consultem as companhias antes de se deslocar até o aeroporto e que evitem viagens terrestres longas em áreas com gelo nas estradas.

180 milhões sob impacto e rede elétrica sob pressão

O problema não se limita aos aeroportos. As mesmas tempestades que cancelam voos derrubam linhas de transmissão, árvores e postes, deixando cerca de 180 milhões de pessoas sob algum tipo de impacto, entre quedas de energia, vias bloqueadas e serviços reduzidos nas cidades. Em bairros de estados como Michigan, Pensilvânia e Nova Jersey, moradores passam o domingo entre cobertores e lanternas, à espera do retorno da luz.

Empresas de energia trabalham em regime de emergência e deslocam equipes de estados vizinhos para acelerar o conserto da rede. A prioridade recai sobre hospitais, lares de idosos e sistemas de aquecimento coletivo, essenciais em temperaturas que caem abaixo de zero. “Temos uma tempestade extensa, que combina neve, chuva congelante e ventos fortes, uma receita que sempre testa os limites da infraestrutura”, afirma um meteorologista do serviço nacional ouvido pela reportagem.

As cenas lembram outros episódios recentes em que o clima extremo expõe fragilidades do sistema, como a onda de frio que atingiu o Texas em 2021 e deixou milhões sem aquecimento por dias. Desta vez, o problema se distribui por uma área maior, afetando centros urbanos e corredores logísticos estratégicos, o que amplia o alcance econômico do evento.

Companhias aéreas calculam perdas com combustível, horas extras, realocação de passageiros e multas regulatórias por atrasos. Companhias elétricas enfrentam desgaste político e pressão de reguladores estaduais por planos mais robustos de contingência. Em muitos casos, a discussão volta a um ponto conhecido: até que ponto a infraestrutura construída no século passado suporta uma sequência de eventos climáticos cada vez mais intensos e frequentes.

Pressão por investimentos e incertezas para os próximos dias

O dia 25 de janeiro entra na conta de episódios que alimentam o debate sobre resiliência climática nos Estados Unidos. Governos locais e estaduais admitem, em reservado, que faltam recursos para modernizar redes elétricas, ampliar sistemas de drenagem e adaptar aeroportos a um padrão de emergência que deixa de ser exceção e passa a ser parte da rotina.

As companhias aéreas anunciam políticas emergenciais de reembolso e remarcação sem custo adicional, medida que busca reduzir a revolta de passageiros e evitar ações coletivas. A normalização do tráfego, porém, depende de uma cadeia complexa: as tempestades precisam se dissipar, equipes devem cumprir períodos obrigatórios de descanso e aeronaves fora de posição precisam ser redistribuídas. Mesmo com melhora do tempo, especialistas preveem reflexos na malha aérea por pelo menos dois ou três dias.

Na área de energia, engenheiros projetam um cronograma de restabelecimento por fases. Regiões críticas voltam primeiro, áreas mais afastadas aguardam mais tempo. Cada nova rajada de vento ou nova célula de tempestade pode atrasar o processo. A população acompanha as atualizações em aplicativos e redes sociais, numa rotina que se repete a cada grande evento climático.

O episódio reaquece discussões no Congresso sobre novos pacotes de investimento em infraestrutura, com foco em redes inteligentes de energia, linhas enterradas em áreas urbanas e sistemas de monitoramento em tempo real. Parlamentares alinhados à agenda climática defendem que o país está atrasado nessa transição. Céticos resistem a novos gastos e pedem mais estudos de custo-benefício.

Enquanto a paisagem permanece coberta de neve e aeroportos tentam reorganizar seus cronogramas, uma pergunta se impõe nas conversas entre especialistas em clima, engenheiros e gestores públicos: o país se prepara para conviver com esse novo padrão de tempestades severas, ou seguirá contando com a sorte a cada inverno?

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