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Temor de anexação da Groenlândia pelos EUA reacende fantasma do Havaí

Governos e especialistas em direito internacional soam o alerta em 2026: cresce o temor de que os Estados Unidos tentem, à margem da lei, anexar a Groenlândia. A ilha ártica, hoje autônoma sob soberania dinamarquesa, volta ao centro da disputa global por recursos e rotas estratégicas.

Um fantasma de 1898 no mapa de 2026

O receio ganha força à medida que Washington amplia sua presença militar e diplomática no Ártico. A Groenlândia, com pouco mais de 56 mil habitantes e cerca de 2,1 milhões de km², ocupa uma posição que poucos países podem ignorar. Com o recuo do gelo, estudos projetam que até 2035 quase 80% das novas rotas marítimas árticas estarão ao alcance direto de sua costa.

Em Bruxelas e Copenhague, diplomatas descrevem reservadamente a movimentação norte-americana como “pressão sistêmica”. O paralelo mais citado é o do Havaí, anexado em 1898, após a derrubada da rainha Liliʻuokalani com apoio de empresários e tropas dos EUA. Aquele movimento, legalizado depois pelo Congresso americano, permanece contestado por juristas e movimentos indígenas, que o tratam como um golpe travestido de acordo.

Hoje, a preocupação é que um roteiro parecido se repita com outros instrumentos. Em vez de marines desembarcando em Honolulu, o que se vê é uma ofensiva de contratos, bases ampliadas e negociações diretas com lideranças locais. “Quando um país muito maior fala de ‘parceria estratégica’ enquanto oferece bilhões de dólares, o desequilíbrio de poder fala mais alto do que qualquer tratado”, afirma um professor de direito internacional da Universidade de Copenhague, sob condição de anonimato.

A Groenlândia tem governo próprio desde 1979 e ampliou a autonomia em 2009, quando assumiu o controle sobre recursos naturais. A defesa e a política externa, porém, seguem nas mãos da Dinamarca, membro da Otan e aliado histórico de Washington. Esse arranjo cria brechas para disputas internas e pressões externas em um momento de forte valorização do Ártico.

Recursos, rotas e uma janela estratégica no Ártico

O derretimento acelerado do gelo transforma a região em fronteira econômica. Relatório do US Geological Survey estima que cerca de 13% das reservas ainda não descobertas de petróleo e 30% do gás natural do planeta estejam no Ártico. Boa parte desse potencial fica em áreas próximas à Groenlândia ou sob influência direta de seu território marítimo.

Além de hidrocarbonetos, levantamentos geológicos apontam depósitos relevantes de terras raras, zinco, ferro e urânio. Em 2025, um consórcio internacional avaliou em US$ 1 trilhão o valor potencial de longo prazo dos recursos exploráveis na ilha e em suas águas adjacentes. O número não é consenso, mas ajuda a dimensionar o apetite das grandes potências.

Os Estados Unidos operam desde 1951 a base aérea de Thule, no norte da Groenlândia, peça-chave no sistema de radares e defesa antimísseis do Pentágono. Nos últimos cinco anos, o orçamento anual para operações no Ártico supera US$ 4 bilhões, segundo dados públicos do Departamento de Defesa. A expansão de pistas, hangares e instalações logísticas em Thule é vista em Copenhague como sinal de que a presença americana tende a ser permanente, e não apenas contingencial.

Em Nuuk, capital groenlandesa, a pressão assume outra forma. Líderes locais relatam aumento de visitas de delegações norte-americanas, ofertas de investimentos em infraestrutura e propostas para acordos diretos em mineração e transporte. “Não queremos ser o próximo Havaí, onde uma monarquia foi derrubada e o povo perdeu o controle de sua terra”, diz, em caráter reservado, um ex-integrante do governo local. “A diferença é que hoje o golpe pode vir por meio de contratos e dívidas, não de baionetas.”

Organizações indígenas alertam para o risco de que comunidades inuítes sejam empurradas para áreas menores, à medida que projetos de mineração avançam. A experiência havaiana serve como aviso. Em 1900, nativos já eram minoria em sua própria ilha, após décadas de ocupação econômica e militar dos EUA. “A história mostra que anexações quase nunca são neutras para povos originários”, afirma a jurista groenlandesa Ane Petrussen, especialista em direitos indígenas.

Direito internacional posto à prova

O debate ultrapassa os limites do Atlântico Norte. Em Nova York e Genebra, diplomatas lembram que a anexação territorial à revelia do povo afetado contraria princípios básicos da Carta da ONU, em vigor desde 1945. O direito à autodeterminação, consagrado em sucessivas resoluções, veda mudanças unilaterais de soberania sem consulta livre e informada à população local.

Caso os Estados Unidos tentem absorver a Groenlândia por meio de um acordo direto com a Dinamarca, ignorando a vontade expressa dos groenlandeses, a operação seria vista como anexação forçada por boa parte da comunidade internacional. “Repetir o modelo do Havaí em 2026 significaria desafiar não só Copenhague e Nuuk, mas todo o sistema jurídico construído após a Segunda Guerra Mundial”, afirma um embaixador europeu envolvido nas discussões no Conselho do Ártico.

Diplomatas calculam que qualquer tentativa de mudança de status da ilha provocaria uma reação em cadeia. Rússia e China, que disputam influência na região, poderiam usar o episódio para justificar ações próprias em áreas contestadas. Países nórdicos falam, em privado, no risco de uma “Crimeia invertida” no extremo norte, com Washington no papel tradicionalmente associado a Moscou.

O tema já aparece em bastidores da Otan. Em reuniões reservadas, representantes da Dinamarca pedem garantias de que decisões estratégicas sobre a Groenlândia não serão tomadas sem consulta plena a Copenhague e Nuuk. Não está claro, porém, até que ponto aliados europeus estariam dispostos a confrontar frontalmente Washington em caso de escalada.

Pressão crescente e incertezas à frente

No parlamento groenlandês, partidos pró-independência e grupos favoráveis a um alinhamento mais estreito com os Estados Unidos travam uma disputa milimétrica. Nas eleições de 2024, a diferença entre os dois blocos foi de menos de 3 pontos percentuais. A fragmentação política torna o governo local mais vulnerável a promessas de investimentos rápidos e alívio econômico.

Economistas estimam que o PIB groenlandês, hoje em torno de US$ 3 bilhões anuais, poderia dobrar em 15 anos com a exploração intensiva de minérios e rotas marítimas. O custo, alertam ambientalistas, pode ser a perda de controle sobre o território e a diluição da autonomia conquistada nas últimas quatro décadas. “O dilema é brutal: riqueza agora ou soberania no longo prazo”, resume Petrussen.

Na Dinamarca, cresce a pressão interna para que o governo estabeleça linhas vermelhas claras. Parlamentares cobram, por exemplo, a exigência de um referendo vinculante em Nuuk para qualquer mudança de status político da ilha. Uma pesquisa divulgada em março de 2026 mostra que 62% dos groenlandeses rejeitam abertamente a anexação pelos EUA, enquanto apenas 14% veem a ideia com simpatia.

Governos europeus avaliam opções para blindar a ilha de aventuras geopolíticas. Entre as possibilidades estão garantias multilaterais de autonomia, monitoramento internacional de contratos de mineração e regras mais rígidas para presença militar estrangeira. Nenhuma delas, porém, parece capaz de afastar por completo o fantasma do Havaí.

O futuro da Groenlândia se decide nos próximos anos, à medida que o gelo derrete e o mapa econômico do planeta se redesenha. A pergunta que ecoa de Nuuk a Washington é direta: a ilha seguirá como território autônomo em uma ordem internacional baseada em regras ou será o próximo capítulo, em pleno século 21, da velha política de anexações?

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