Técnico de enfermagem é preso após mortes em série na UTI do DF
Um técnico de enfermagem de 24 anos é preso após a morte de três pacientes na UTI de um hospital particular em Taguatinga, no Distrito Federal, entre 17 de novembro e início de dezembro de 2025. As investigações apontam que ele aplica desinfetante e cloreto de potássio nas veias das vítimas, com apoio de duas técnicas de enfermagem.
Mortes em série na unidade que deveria salvar vidas
A rotina da UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga, se quebra na tarde de 17 de novembro. Em poucas horas, dois pacientes sofrem sucessivas paradas cardíacas e morrem. Dias depois, uma terceira morte se soma à lista. O que parece uma coincidência trágica se revela, segundo a polícia e uma sindicância interna, como uma sequência de crimes cometidos dentro da unidade que concentra os casos mais graves.
De acordo com a Polícia Civil do Distrito Federal, o técnico de enfermagem Marcos Vinicius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, admite ter aplicado substâncias letais nos pacientes. Ele atua, segundo as investigações, com o apoio de duas técnicas de enfermagem: Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos, e Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos. Os três trabalham na UTI adulta, onde cada leito é monitorado por câmeras de segurança.
As imagens gravadas e os registros clínicos passam a ser revisados após a suspeita de “circunstâncias atípicas” nas mortes de três pacientes em um intervalo inferior a 20 dias. O próprio hospital, um dos maiores da rede privada do Distrito Federal, abre um comitê interno de apuração e aciona a polícia ao identificar inconsistências entre os procedimentos registrados e o quadro dos doentes.
O delegado Wislley Salomão, responsável pelo caso, descreve um roteiro que se repete nas três mortes. “Todas vezes em que ele aplicou alguma medicação na veia dos pacientes, em poucos segundos eles entraram em parada cardíaca”, afirma. Os laudos ainda estão em andamento, mas a perícia já aponta a presença de cloreto de potássio, droga usada de forma controlada, capaz de desregular o coração e levá-lo à falência quando aplicada em alta dose.
Marcos Vinicius muda de versão durante os depoimentos. Primeiro, atribui as ações ao que chama de excesso de movimentação no hospital, como se as mortes aliviassem a carga de trabalho. Depois, declara que estaria “aliviando a dor dos pacientes”. A polícia investiga se ele tem traços de psicopatia e busca entender se houve planejamento ou impulso.
Como a polícia reconstrói os últimos minutos das vítimas
As vítimas têm histórias comuns de quem procura o hospital esperando tratamento e alta. Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, dá entrada com constipação, um quadro digestivo que geralmente não inspira alarme. João Clemente Pereira, de 63 anos, chega após tonturas persistentes e recebe o diagnóstico de um hematoma na membrana que reveste o cérebro. O carteiro Marcos Raymundo Moreira, internado em 18 de novembro, apresenta suspeita de pancreatite, inflamação no pâncreas que exige vigilância, mas não costuma levar a paradas cardíacas súbitas sem agravamento prévio.
No leito 24 da UTI, Miranilde entra e sai da morte diversas vezes em um único dia. Conforme a investigação, a primeira aplicação de um medicamento por Marcos Vinicius provoca uma parada cardíaca em poucos segundos. A equipe de plantão consegue reanimá-la. Cerca de 40 minutos depois, nova medicação leva a outra parada. Ela volta a ser salva, sob o olhar dos filhos, que acompanham, atônitos, a sucessão de emergências.
As imagens mostram o técnico voltando ao leito e aplicando novas substâncias, incluindo desinfetante, um produto destinado à limpeza de superfícies. A sequência de paradas cardíacas se prolonga. Na quarta parada, após nova injeção de desinfetante, Miranilde não resiste. Técnicos e médicos tentam a reanimação, sem sucesso. Marcos, Marcela e Amanda participam dos procedimentos, ainda segundo a apuração.
No leito ao lado, o 25, João Clemente também recebe desinfetante e doses de cloreto de potássio, conforme a reanálise das câmeras. Ele sofre uma primeira parada, é reanimado e sobrevive. Horas depois, passa por novas aplicações e piora de forma abrupta. Morre na madrugada seguinte, já em 18 de novembro.
A terceira morte ocorre quase duas semanas depois. Marcos Raymundo, internado em 18 de novembro, sofre uma primeira parada cardíaca, é intubado e permanece 14 dias em UTI. No dia 1º de dezembro, tem nova parada logo após receber uma injeção aplicada por Marcos Vinicius, segundo a polícia. Não volta a respirar.
O comportamento do técnico chama a atenção de colegas, que relatam intervenções fora do protocolo. A direção reúne prontuários, escalas, fichas de medicação e gravações de câmeras. Em menos de 20 dias, o hospital conclui a sindicância interna, demite os três profissionais e encaminha todo o material à Polícia Civil. “O hospital, também vítima da ação desses ex-funcionários, se solidariza com os familiares das vítimas e colabora de forma irrestrita com as autoridades”, diz nota do Anchieta.
As defesas de Marcos, Marcela e Amanda adotam estratégia de silêncio público. Os advogados de Marcos afirmam, em nota, que não negam as acusações, mas que vão se manifestar apenas nos autos, que correm sob sigilo. A defesa de Marcela declara que ela “lamenta profundamente o ocorrido com as vítimas” e que sua dignidade e a verdade ainda serão restabelecidas. O advogado de Amanda limita-se a informar que ela teve um relacionamento com Marcos Vinicius e não entra em detalhes.
Abalo na confiança e pressão por mais controle em hospitais
O caso repercute entre profissionais de saúde, conselhos de classe e gestores de hospitais. Entidades de enfermagem falam em choque e pedem cautela para evitar que toda a categoria seja estigmatizada por ações individuais. Ao mesmo tempo, cobram critérios mais rígidos de seleção, acompanhamento e avaliação psicológica de quem atua em UTI, ambiente onde decisões são urgentes e a vigilância precisa ser constante.
A sensação de vulnerabilidade atinge familiares de pacientes internados em diferentes unidades do Distrito Federal. A UTI, vista como último recurso para salvar vidas, passa a ser questionada como espaço de risco quando falham supervisão, protocolos e barreiras de segurança. Grupos de familiares das vítimas relatam acompanhamento psicológico oferecido pelo hospital, mas também falam em desconfiança em relação a qualquer procedimento invasivo.
Especialistas em segurança do paciente lembram que episódios de morte provocada dentro de hospitais, embora raros, já foram registrados em outros países e costumam levar à revisão ampla de sistemas de controle. Câmeras em todos os leitos, rastreamento eletrônico de medicamentos de alto risco, dupla checagem em injeções letais e auditorias diárias são algumas das medidas discutidas por gestores desde a divulgação do caso Anchieta.
Para o sistema de saúde, o impacto vai além das três mortes confirmadas. A Polícia Civil investiga se há outras vítimas associadas à atuação do trio. Prontuários de pacientes que morreram na mesma UTI, entre novembro e início de dezembro, são revisados. Exames complementares e reanálises de imagens buscam identificar padrões de conduta semelhantes.
Investigação em curso e cobrança por respostas
Marcos Vinicius está preso temporariamente na carceragem do Complexo da Polícia Civil do Distrito Federal. As duas técnicas também permanecem detidas enquanto a investigação avança. A delegacia especializada em Homicídios trabalha com a hipótese de homicídio qualificado, cometido com meio cruel, por motivo torpe e impossibilidade de defesa das vítimas.
Os próximos passos incluem novos depoimentos de funcionários, familiares e médicos que atuam na UTI, além de laudos toxicológicos detalhados. A polícia também apura se houve falhas estruturais de supervisão, como ausência de conferência em medicamentos de alto risco ou lacunas em escalas de plantão que facilitariam a ação isolada de um técnico.
O inquérito corre sob sigilo, o que limita o acesso a detalhes, mas a pressão por transparência aumenta. Conselhos profissionais e entidades de saúde pública discutem a criação de protocolos nacionais específicos para monitorar eventos críticos em UTIs privadas e públicas. A direção do hospital afirma ter reforçado a segurança interna e ampliado auditorias em todos os setores.
As famílias de Miranilde, João e Marcos Raymundo aguardam não apenas a responsabilização criminal dos acusados, mas explicações claras sobre como três mortes em sequência ocorreram em um ambiente cercado por câmeras, equipes numerosas e tecnologias avançadas. A investigação tenta responder a essa pergunta central: que tipo de vigilância é necessária para garantir que, em uma UTI, ninguém precise temer quem cuida de sua vida?
