Tarcísio intensifica movimentos e testa candidatura ao Planalto em 2026
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), acelera discretamente as articulações para uma candidatura à Presidência da República em 2026. Desde o início de janeiro, ele marca reuniões reservadas, consulta marqueteiros e evita aparecer ao lado de Jair Bolsonaro, numa tentativa de se firmar como alternativa viável da direita. O movimento ganha força nesta quinta-feira (22), em meio ao avanço da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e à disputa por espaço no campo bolsonarista.
Disputa silenciosa no campo bolsonarista
As últimas semanas expõem uma mudança de rota calculada. Tarcísio reduz agendas públicas ao lado do ex-presidente e cancela, segundo aliados, ao menos duas viagens em que dividiria palanque com Bolsonaro. A avaliação interna é que a associação direta, hoje, mais restringe do que amplia seu alcance eleitoral nacional, sobretudo entre eleitores de centro-direita e conservadores moderados. “Ele sabe que precisa preservar a própria marca”, resume um interlocutor próximo, sob condição de anonimato.
O cálculo político ocorre em paralelo ao reposicionamento do bolsonarismo. Com Jair Bolsonaro ameaçado por decisões do Tribunal Superior Eleitoral e pelo risco de novas condenações no Supremo Tribunal Federal, o grupo discute quem encarna melhor a continuidade do projeto. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, lançada ainda em 2025 e reforçada agora com viagens semanais a pelo menos três capitais, amplia a pressão sobre Tarcísio, que resiste a entrar oficialmente na corrida antes do segundo semestre de 2026.
Nos bastidores, o governador transforma o Palácio dos Bandeirantes em ponto de passagem para estrategistas e dirigentes partidários. A cada semana, assessores contam pelo menos quatro reuniões focadas em 2026, com marqueteiros que já atuaram em campanhas presidenciais e coordenadores de pesquisas qualitativas. Levantamentos internos testam cenários com e sem apoio explícito de Bolsonaro, bem como confrontos diretos com nomes do PT e de outros campos da direita, como o Novo e o PL.
Tarcísio governa o Estado mais populoso do país, com 44,4 milhões de habitantes segundo o Censo de 2022, e administra um orçamento anual que ultrapassa R$ 320 bilhões em 2026. A máquina paulista, somada à exposição diária, é vista por aliados como trunfo decisivo para um salto nacional. O governador, porém, enfrenta o dilema de manter a gestão em funcionamento e, ao mesmo tempo, construir uma candidatura competitiva num ambiente fragmentado à direita.
Risco de divisão e reconfiguração da direita
O avanço simultâneo de Tarcísio e Flávio Bolsonaro redesenha o mapa da direita brasileira. O campo que se organiza em torno do bolsonarismo, responsável por cerca de 49% dos votos válidos no segundo turno presidencial de 2022, não fala mais com uma só voz. Líderes regionais dividem-se entre a lealdade histórica a Bolsonaro e a leitura pragmática de que o ex-presidente perde margem de crescimento fora de seu eleitorado mais fiel.
Empresários que ajudaram a financiar campanhas de 2018 e 2022, especialmente dos setores de infraestrutura, agronegócio e serviços, agora testam novos canais. Interlocutores de São Paulo relatam jantares com participação de executivos que faturam acima de R$ 500 milhões por ano, interessados em ouvir propostas sobre privatizações, concessões e reformas. O grupo vê em Tarcísio um perfil mais técnico e previsível para o mercado, ao mesmo tempo em que mantém diálogo com o PL e com bancadas conservadoras no Congresso.
No Congresso Nacional, parlamentares ligados ao bolsonarismo medem com cuidado cada movimento. Deputados de primeira viagem, eleitos na onda de 2022, temem que um racha entre Tarcísio e a família Bolsonaro reduza o capital político que ainda exploram nas redes sociais. Já caciques experientes calculam a força de cada nome nos Estados. Em pelo menos sete unidades da federação, dirigentes locais relatam pressões simultâneas dos dois grupos, que disputam palanques e alianças para as chapas proporcionais.
Analistas políticos ouvidos pela reportagem apontam que a fragmentação à direita tende a mexer com todo o tabuleiro presidencial. “Se Tarcísio consolida uma candidatura sem o controle direto de Bolsonaro, ele abre espaço para novos acordos com partidos de centro”, avalia um cientista político de Brasília. Segundo ele, essa costura pode envolver legendas que somam hoje mais de 200 deputados e participam do chamado centrão, bloco decisivo em qualquer governo.
A tensão com Bolsonaro, ainda que contenha gestos públicos de cordialidade, é descrita por aliados como “controlada, mas real”. O ex-presidente resiste a aceitar um nome competitivo que não esteja sob seu comando direto e incentiva a movimentação de Flávio. Tarcísio, por sua vez, tenta ganhar tempo e distância, enquanto evita fotos e falas que possam ser interpretadas como rompimento definitivo. Até aqui, o equilíbrio se sustenta em reuniões fechadas, recados indiretos e silêncios calculados.
Estratégia, prazos e incertezas até a eleição
O calendário eleitoral impõe limites à fase de teste. Partidos têm até abril de 2026 para filiações estratégicas e até agosto para oficializar candidaturas em convenções. Assessores de Tarcísio trabalham com um roteiro em três etapas: consolidar indicadores de gestão em São Paulo até meados do ano, calibrar pesquisas e cenários entre junho e setembro e, só então, bater o martelo sobre a entrada definitiva na disputa presidencial.
O governador também monitora a evolução das investigações e processos que cercam Jair Bolsonaro. Cada nova decisão judicial, principalmente em casos envolvendo ataques ao sistema eleitoral ou suspeitas de uso da máquina pública, redefine o peso do apoio do ex-presidente. Se Bolsonaro se torna inelegível por um longo período ou enfrenta novas condenações, a pressão para que Tarcísio assuma o papel de herdeiro político aumenta de maneira significativa.
Enquanto evita gestos públicos definitivos, Tarcísio investe na construção de um discurso de “gestor conservador”. Nas entrevistas, fala em responsabilidade fiscal, privatizações e investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo em que reforça pautas caras ao eleitorado bolsonarista, como segurança pública e costumes. A tentativa é preservar o apoio de uma base que soma hoje algo em torno de um terço do eleitorado, sem fechar portas para alianças mais amplas.
Flávio Bolsonaro, por outro lado, intensifica viagens e encontros partidários, sobretudo no Nordeste e no Centro-Oeste. A meta de sua equipe é chegar ao fim de 2026 conhecido por pelo menos 70% do eleitorado, patamar considerado mínimo para uma candidatura viável. O risco, admitem aliados, é que a exposição prolongada desgaste o senador antes do início oficial da campanha, especialmente se os resultados de pesquisas não acompanharem o esforço.
O cenário abre uma pergunta que permanece sem resposta clara: até que ponto o eleitorado de direita está disposto a seguir um projeto bolsonarista sem Bolsonaro, ou com um Bolsonaro menos central? A resposta depende das próximas decisões de Tarcísio, da resistência da família Bolsonaro em ceder protagonismo e da capacidade da oposição de ocupar o espaço deixado pelas divisões internas. Até lá, a campanha de 2026 segue sendo montada em gabinetes, jantares reservados e conversas longe das câmeras.
