Tarcísio comemora rebaixamento de escola após alegoria com evangélicos
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirma estar “feliz” com o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, decidido dias após o desfile de 2026 no Rio. A escola homenageia o presidente da República e leva para a avenida uma alegoria que retrata evangélicos em lata de conserva, reacendendo o debate sobre limites da crítica religiosa no carnaval.
Polêmica na Sapucaí vira pauta política nacional
O comentário de Tarcísio circula em entrevistas e redes sociais desde o fim dos desfiles, em 17 de fevereiro de 2026, e ganha alcance nacional em poucas horas. O governador, que se projeta como uma das principais vozes da direita no país, usa o episódio para se alinhar a grupos religiosos que veem ofensa na representação dos fiéis como produto enlatado.
A Acadêmicos de Niterói leva para a Marquês de Sapucaí um enredo que exalta o presidente da República e mistura crítica social, referências bíblicas e sátiras à disputa política. Em um dos carros alegóricos, artistas surgem dentro de uma grande lata cenográfica, numa alusão ao consumo em massa de símbolos religiosos e à exploração da fé. Setores evangélicos leem a cena como ataque direto às igrejas, à Bíblia e aos fiéis.
Tarcísio adota o discurso de defesa da fé e da honra de milhões de brasileiros. Em declarações públicas, afirma que a escola “passa do ponto” e ultrapassa a fronteira entre crítica política e desrespeito. “Não é liberdade de expressão quando você humilha quem acredita”, diz o governador, ao justificar o apoio ao rebaixamento decidido pelos julgadores do carnaval carioca.
A punição, que empurra a Acadêmicos de Niterói para a Série Ouro já no desfile de 2027, nasce de uma combinação de notas técnicas, avaliações artísticas e da repercussão negativa da alegoria. A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio não divulga sanção específica por ofensa religiosa, mas a discussão extravasa o universo do carnaval e chega a gabinetes, templos e tribunais.
Liberdade artística em choque com pressão religiosa
O caso reacende uma disputa antiga no carnaval brasileiro: até onde a arte pode ir quando mexe com religião, poder e política. Desde os anos 1980, desfiles abordam temas religiosos, figuras bíblicas e líderes políticos sem medo de atrito com instituições e grupos organizados. Em 2026, a combinação de homenagem ao presidente da República com a imagem dos evangélicos em conserva adiciona combustível a um cenário de polarização permanente.
Lideranças evangélicas elogiam o tom adotado por Tarcísio. Pastores influentes citam o governador em cultos transmitidos ao vivo e defendem punições mais duras a manifestações consideradas blasfemas. Nas redes, hashtags em apoio ao rebaixamento alcançam centenas de milhares de menções em menos de 48 horas, enquanto vídeos da alegoria somam milhões de visualizações no mesmo período.
Artistas, carnavalescos e acadêmicos reagem na direção oposta. Para eles, o rebaixamento somado à celebração pública de autoridades configura um recado preocupante. “O recado é claro: quem mexer com religião organizada e com o poder político corre risco na avenida”, afirma um pesquisador de cultura popular ouvido pela reportagem. O grupo vê no episódio um avanço sutil de mecanismos de censura informal, impulsionados por pressão de governos e bases eleitorais.
Especialistas em direito constitucional lembram que a liberdade de expressão e a liberdade religiosa constam lado a lado na Constituição de 1988. O conflito, apontam, não é novo, mas ganha nova dimensão quando autoridades comemoram punições artísticas. O gesto, avaliam, pode influenciar jurados, organizadores e patrocinadores, que passam a evitar qualquer risco de desgaste público.
Carnaval sob nova vigilância e incertezas para 2027
O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói afeta diretamente centenas de profissionais que vivem do carnaval. Orçamentos de escolas da elite do Grupo Especial superam R$ 10 milhões por ano, com forte dependência de patrocínios, verbas públicas e contratos de transmissão. Na Série Ouro, o valor cai, o número de holofotes diminui e a pressão por enredos mais “seguros” tende a crescer.
Dirigentes de outras agremiações admitem, nos bastidores, revisar enredos já registrados para 2027. Alegorias que tratam de temas religiosos, conflitos de terra e disputas de poder entram em reavaliação. A margem de risco, antes aceita como parte da tradição crítica do carnaval, encolhe diante da possibilidade de perda de notas por repercussão negativa e queda de receitas.
O posicionamento de Tarcísio também alimenta cálculos eleitorais. Aliado informal de setores conservadores e próximo do presidente homenageado pela escola, o governador se fortalece junto a bases evangélicas que representam cerca de 30% do eleitorado brasileiro, segundo pesquisas recentes. Ao mesmo tempo, amplia a rejeição em segmentos culturais e acadêmicos que veem no episódio um teste para a convivência entre arte e religião.
Organizações de defesa da liberdade de expressão avaliam ingressar com ações e representações em conselhos de comunicação e órgãos de justiça. A discussão pode chegar a tribunais superiores ainda em 2026, caso grupos entendam que houve violação à proteção constitucional à criação artística. Juristas apontam que não há, hoje, regra clara que autorize rebaixamento por conteúdo religioso de enredo, o que abre espaço para disputas jurídicas prolongadas.
Com a contagem regressiva para o próximo carnaval já em curso, escolas, patrocinadores e autoridades caminham num terreno mais estreito. A pergunta que se impõe é se a avenida continuará a ser espaço de crítica contundente ou se passará a desfilar, cada vez mais, dentro de uma lata invisível de autocensura.
