Ciencia e Tecnologia

Sony fecha Bluepoint Games e demite 70 após revisão estratégica

A Sony decide fechar a Bluepoint Games e demitir cerca de 70 funcionários após uma revisão estratégica do negócio de games, anunciada nesta quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026. O estúdio de Austin, conhecido por remakes de Demon’s Souls e Shadow of the Colossus, encerra as atividades no próximo mês.

Um estúdio celebrado que perde o chão

O comunicado confirma o fim de um dos estúdios mais respeitados da PlayStation. Em pouco mais de 20 anos, a Bluepoint se torna sinônimo de remakes tecnicamente impecáveis, capazes de recontar clássicos para novas gerações sem trair a memória dos originais. Essa trajetória interrompe de forma abrupta, em meio a uma mudança de rumo na estratégia global da Sony para o setor de jogos.

Em nota, um porta-voz da PlayStation reconhece o peso da decisão. “A Bluepoint Games é uma equipe incrivelmente talentosa e sua expertise técnica entregou experiências excepcionais para a comunidade PlayStation. Agradecemos pela paixão, criatividade e capricho no trabalho”, afirma a empresa, ao mesmo tempo em que confirma a desativação do estúdio e o corte de cerca de 70 postos de trabalho em Austin, no Texas.

A medida vem após o cancelamento de projetos internos, incluindo um jogo derivado de God of War com estrutura de serviço contínuo, encerrado em janeiro de 2025. Na ocasião, a Sony ainda fala em buscar um “novo caminho” para a Bluepoint. Um ano depois, esse caminho deixa de existir. O fechamento aparece agora como o desfecho de uma revisão mais ampla, que também atinge iniciativas focadas em jogos como serviço, consideradas estratégicas pela empresa poucos anos antes.

A notícia reverbera rapidamente no mercado. O jornalista Jason Schreier, da Bloomberg, descreve o desfecho como “um fim chocante para um estúdio muito respeitado”, em postagem publicada nesta quinta-feira. Nas redes sociais, fãs e desenvolvedores lembram o salto visual de Demon’s Souls no PlayStation 5 e o cuidado extremo do remake de Shadow of the Colossus no PS4, dois trabalhos que ajudam a construir a imagem da Bluepoint como guardiã de clássicos.

Do auge com Demon’s Souls ao cancelamento de projetos

Fundada em 2006, em Austin, a Bluepoint começa com remasterizações discretas, mas precisas. Ganha relevância ao trabalhar com franquias conhecidas, como Uncharted, e se consolida com Shadow of the Colossus, lançado em 2018 para o PS4. O jogo atualiza um ícone do PlayStation 2 com gráficos modernos e performance estável, sem mexer na essência da experiência original.

O ápice da reputação vem em 2020, no lançamento do PlayStation 5, com o remake de Demon’s Souls. O projeto reconstrói do zero o RPG de ação que, no PS3, se torna cult e abre caminho para a série Dark Souls. A nova versão impressiona pelo nível de detalhe, pelo uso avançado de iluminação e pela fidelidade à estrutura e ao ritmo do jogo de 2009. Demon’s Souls vira uma das principais vitrines técnicas do console em seu primeiro ano nas lojas.

O sucesso leva a Sony a oficializar a compra da Bluepoint em 2021, em um movimento que parece consolidar o estúdio como peça fixa da casa. Desde então, a equipe trabalha em projetos não anunciados, entre eles um spin-off de God of War com modelo de serviço online, que aposta em atualizações constantes e monetização prolongada. Em janeiro de 2025, esse jogo é cancelado, quando a Sony começa a rever a aposta agressiva em títulos do tipo.

A revisão atual mira todo o portfólio de games da companhia. O foco passa a recair em projetos considerados de maior potencial de retorno, com ênfase em grandes franquias próprias e títulos inéditos com forte apelo comercial. Nesse redesenho, um estúdio especializado em remakes e remasterizações — por mais celebrados que sejam — deixa de se encaixar de forma óbvia na nova conta.

O resultado é um vazio no segmento de recriações de alto padrão, área em que a Bluepoint atua quase como referência técnica. A decisão também se soma a um ciclo recente de cortes na indústria de games, que afeta estúdios em diferentes países desde 2023, pressionados por custos crescentes e metas de crescimento agressivas.

Impacto para jogadores, mercado e o futuro dos remakes

O fechamento da Bluepoint atinge de imediato cerca de 70 profissionais em Austin, cidade que se firma como um dos polos de desenvolvimento de jogos nos Estados Unidos. Essas demissões alimentam a preocupação com a sustentabilidade de estúdios de médio porte, mesmo quando associados a grandes marcas e responsáveis por projetos elogiados pela crítica.

Para a comunidade de jogadores, a perda é simbólica e prática. Remakes como Demon’s Souls e Shadow of the Colossus mostram que é possível atualizar jogos clássicos sem transformá-los em produtos inteiramente diferentes. A saída de cena de um dos poucos estúdios dedicados a esse tipo de trabalho reduz a oferta de recriações cuidadosas, em um mercado que muitas vezes se apoia apenas em remasterizações superficiais.

No curto prazo, a Sony mantém um catálogo forte de exclusivos e segue com outras equipes internas, como Santa Monica Studio, Naughty Dog e Insomniac. A mudança de rota, porém, indica uma prioridade clara em novas propriedades intelectuais e expansões de franquias já consolidadas, deixando remakes aprofundados em segundo plano. Concorrentes como Microsoft e Nintendo observam o movimento e podem adaptar suas próprias estratégias para jogos clássicos e relançamentos.

O mercado de remakes, que cresce na última década com o avanço do poder gráfico dos consoles e a nostalgia de jogadores mais velhos, enfrenta agora um ponto de inflexão. Estúdios especializados passam a depender ainda mais de contratos pontuais e de uma leitura precisa da demanda do público, enquanto grandes empresas avaliam se esse tipo de projeto ainda justifica investimentos de alto orçamento.

O que vem depois do fim da Bluepoint

Os próximos meses devem concentrar atenções no futuro dos cerca de 70 ex-funcionários. Austin abriga outros grandes estúdios e empresas de tecnologia, o que pode facilitar a recolocação de parte dessa mão de obra especializada. Ainda assim, a concorrência por vagas aumenta em um cenário de cortes sucessivos no setor.

Para a Sony, a decisão marca o fim de uma aposta que, até poucos anos atrás, parecia estratégica: ter dentro de casa um estúdio dedicado a recontar a própria história em forma de remakes luxuosos. A empresa agora direciona recursos para outros projetos e modelos de negócios, enquanto jogadores e analistas se perguntam quem assumirá o papel de preservar, com o mesmo nível de cuidado, os clássicos que ajudaram a construir a marca PlayStation.

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