Sob pressão da família Bolsonaro, Tarcísio cancela visita a ex-presidente
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cancela nesta quinta-feira (21) a visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. A decisão ocorre após uma escalada de ataques de grupos da direita e de integrantes da família Bolsonaro, que cobram dele um alinhamento mais explícito para 2026.
Pressão da família e temor de cobrança pública
A agenda com Bolsonaro estava combinada para esta quinta e, segundo aliados, era tratada como um gesto de lealdade de Tarcísio ao padrinho político. O encontro é solicitado pelo próprio ex-presidente, que vê no governador paulista um dos poucos nomes com capital eleitoral nacional após a crise que leva à sua prisão domiciliar.
O Palácio dos Bandeirantes divulga uma justificativa protocolar, atribuindo o cancelamento a compromissos no interior do Estado. Nos bastidores, porém, a versão é outra. Interlocutores diretos de Tarcísio relatam desgaste crescente com críticas vindas de uma ala da direita mais radical, alimentadas em momentos diferentes por Eduardo e Carlos Bolsonaro.
Essa pressão se intensifica depois da declaração do senador Flávio Bolsonaro, que afirma que o pai pretende usar a visita para cobrar do governador um apoio mais explícito à sua candidatura ao Planalto em 2026. A frase é lida no entorno de Tarcísio como um aviso público e, ao mesmo tempo, como um teste de fidelidade. Um aliado resume a avaliação do governador: “Seria uma armadilha perfeita”.
O temor não é apenas a cobrança em si, mas o cenário em que ela ocorreria. Uma foto ao lado de Bolsonaro, seguida de uma fala dura do ex-presidente ou dos filhos, poderia cristalizar a imagem de Tarcísio como mero “poste” da família em plena pré-campanha presidencial. O governador tenta evitar esse rótulo desde 2022, quando vence o governo paulista com apoio direto do então presidente, mas passa a construir uma imagem própria à frente do maior orçamento estadual do país, hoje superior a R$ 330 bilhões anuais.
Rachaduras na direita e disputa por 2026
A decisão de cancelar a visita expõe as rachaduras na direita bolsonarista. De um lado, Bolsonaro e seus filhos querem blindar o capital político do ex-presidente e transferi-lo de forma quase automática para a candidatura de Flávio ao Palácio do Planalto. De outro, Tarcísio tenta equilibrar a gratidão ao padrinho com a necessidade de sobreviver politicamente em São Paulo e no cenário nacional.
Aliados relatam que o governador repete, em reuniões fechadas, uma mesma mensagem: “Sou leal ao presidente Bolsonaro e vou apoiar o Flávio”. A frase funciona como mantra e como escudo. Ao reafirmar o apoio, ele tenta neutralizar críticas internas e impedir que o bolsonarismo o rotule como traidor. Ao mesmo tempo, fixa a linha que considera inegociável: não será candidato à Presidência em 2026.
Nesse cálculo, pesa também a matemática eleitoral. Tarcísio ainda não completa quatro anos no Bandeirantes e avalia que a reeleição em São Paulo, em 2026, é o caminho mais seguro. Uma candidatura nacional antecipada o obrigaria a abandonar o governo no auge de grandes obras de infraestrutura e programas de concessão que ele apresenta como sua marca. A aposta é concluir esse ciclo até 2030, quando poderia, então, se colocar como alternativa natural à direita.
A tensão com a família Bolsonaro, porém, ameaça esse roteiro. Eduardo e Carlos, que usam diariamente as redes sociais para pautar o bolsonarismo mais engajado, já vinham criticando, de forma direta ou velada, gestos de moderação do governador paulista. A interlocutores, Tarcísio se queixa do “fogo amigo” e diz que não aceita ser tratado como adversário por quem o ajudou a eleger.
O episódio desta quinta amplia a sensação de divisão em um campo político que tenta se reorganizar desde os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e as condenações de aliados. A prisão de Bolsonaro, confirmada no fim de 2025 após decisões do Supremo Tribunal Federal e de instâncias eleitorais, já provoca reacomodações silenciosas em partidos como PL e Republicanos, que observam com atenção cada movimento de Tarcísio.
O que muda na disputa pelo Planalto
O cancelamento do encontro não cria um rompimento imediato, mas altera o peso relativo de cada ator na direita. Bolsonaro mostra que ainda tenta comandar o tabuleiro, mesmo monitorado por tornozeleira eletrônica e restrito à residência. Tarcísio mostra que pretende impor limites à tutela política da família, ainda que ao custo de novas críticas públicas.
No curto prazo, o caso deve alimentar a narrativa de setores bolsonaristas que defendem um alinhamento incondicional ao ex-presidente. Esses grupos enxergam qualquer gesto de autonomia como traição e podem testar essa tese em eventos públicos, entrevistas e redes sociais nas próximas semanas. O uso de frases como “ingratidão” e “abandono” tende a se intensificar.
Na outra ponta, governadores, prefeitos e parlamentares de centro-direita acompanham o episódio como um laboratório. A forma como Tarcísio administra a crise indica se é possível manter votos do bolsonarismo duro sem se submeter integralmente à família Bolsonaro. Caso o governador preserve sua popularidade em São Paulo e mantenha as pontes com o PL, esse modelo pode se espalhar por outros estados.
O impacto direto sobre a candidatura de Flávio ainda é incerto. Publicamente, Tarcísio afirma que apoiará o senador na corrida presidencial de 2026. Na prática, esse apoio dependerá da forma como as feridas abertas agora serão tratadas. Um palanque dividido ou hostil em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, representa um risco concreto para qualquer nome da direita.
Próximos movimentos e dúvida central
A cúpula do governo paulista tenta reduzir a temperatura e fala em remarcação da visita “em outro momento”. Auxiliares de Bolsonaro, por sua vez, avaliam se vale insistir no encontro ou transformar o gesto de Tarcísio em mais um exemplo de suposto afastamento de antigos aliados. A decisão deve considerar pesquisas qualitativas que medem o humor do eleitorado bolsonarista diante de sinais de independência.
Tarcísio deve reforçar a agenda no interior de São Paulo nas próximas semanas, com inaugurações de obras e anúncios de investimentos em segurança e infraestrutura. A meta é ocupar o noticiário com entregas de governo, reduzir espaço para especulações eleitorais e retomar o eixo da reeleição estadual. Ao mesmo tempo, emissários do governador e da família Bolsonaro já testam, em conversas reservadas, uma trégua que preserve, ao menos formalmente, a aliança que os levou ao poder.
A pergunta que permanece em aberto é se o bolsonarismo aceitará um aliado forte e autônomo ou se exigirá submissão completa de quem pretende herdar parte de seu eleitorado. A resposta, mais do que o desfecho de uma visita cancelada, ajuda a definir o desenho da direita brasileira na eleição presidencial de 2026.
