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Síndico é acusado de usar verba de condomínio para encobrir homicídio

O síndico Cléber Rosa de Oliveira é acusado de matar a corretora Daiane Alves Souza e desviar dinheiro do condomínio em Caldas Novas (GO) para pagar honorários advocatícios. Os crimes ocorrem entre novembro de 2024 e janeiro de 2026 e abalam a rotina de um residencial que passa a conviver com medo e desconfiança.

Emboscada no subsolo e dinheiro do condomínio no Pix

A Polícia Civil de Caldas Novas afirma que Cléber transforma o cargo de síndico em ferramenta para dois tipos de crime: contra o patrimônio e contra a vida. De um lado, ele desvia recursos da associação de moradores via Pix, usando a conta do condomínio para transferir dinheiro ao próprio filho. De outro, planeja e executa a morte de uma moradora com quem mantém desavenças constantes.

As conclusões são apresentadas pelo delegado André Luiz em coletiva na última quinta-feira, 19 de fevereiro, depois de quase três meses de investigação. Segundo a polícia, Daiane, corretora de imóveis que administra apartamentos no prédio desde novembro de 2024, discute de forma recorrente com o síndico sobre regras internas e gestão do condomínio. O conflito cresce até se transformar em ameaça real.

No dia em que desaparece, Daiane é vista pela última vez pelas câmeras de segurança do elevador. As imagens mostram a corretora descendo ao subsolo para verificar o quadro de energia de seu apartamento, que está sem luz. O disjuntor, apura a investigação, é desligado de forma proposital por Cléber para atraí-la até a área isolada do prédio.

Em um intervalo de apenas oito minutos, a rotina do condomínio muda de vez. A polícia afirma que, nesse curto período, o síndico ataca, mata e passa a ocultar o corpo de Daiane. O que ele não prevê é que a própria vítima registra, com o celular, os últimos instantes de vida. O aparelho é encontrado depois no esgoto do prédio, com o vídeo do momento exato do ataque.

O corpo de Daiane só aparece 40 dias mais tarde, em estado de ossada, em uma área de mata a cerca de 15 quilômetros de Caldas Novas. O local é apontado pelo próprio Cléber, já sob investigação. Na mesma madrugada em que o cadáver é encontrado, em 28 de janeiro, policiais prendem o síndico e o filho dele.

Enquanto avança nas perícias de homicídio e ocultação de cadáver, a polícia começa a seguir o rastro do dinheiro. A associação descobre um contrato de honorários assinado em 17 de janeiro e, no dia seguinte, identifica um Pix partindo da conta do condomínio para a conta do filho de Cléber, no mesmo valor acordado com o advogado. O presidente da associação registra boletim de ocorrência assim que percebe a operação suspeita.

Condomínio sob choque e pressão por transparência

Os moradores recebem a sequência de revelações como um choque. O síndico, responsável direto pela administração de um dos principais patrimônios das famílias, passa a ser tratado pela polícia como autor de homicídio e de desvio de recursos. A fronteira entre conflito de vizinhança e crime brutal se rompe em um condomínio residencial que, até então, lida com problemas típicos de assembleia: inadimplência, regras de uso de áreas comuns, reclamações de barulho.

O caso ganha atenção nacional por reunir elementos que raramente aparecem juntos em uma mesma investigação. Há uma emboscada registrada em vídeo pela vítima, o uso da estrutura do prédio para facilitar o crime, a ocultação do cadáver em área de difícil acesso e o provável uso de dinheiro coletivo para bancar a defesa. Para especialistas em direito condominial, episódios assim expõem a fragilidade de sistemas que concentram poderes extensos nas mãos do síndico sem mecanismos eficazes de controle.

Pagamentos via Pix, que se popularizam por causa da praticidade, entram no centro da discussão. No condomínio de Caldas Novas, a ferramenta de transferência instantânea deixa rastro preciso do caminho do dinheiro da associação até a conta do filho do síndico. A polícia trata o desvio como crime patrimonial vinculado ao exercício do cargo, enquanto moradores percebem na prática o risco de uma gestão sem fiscalização.

Delegado André Luiz, responsável pelo caso, afirma na coletiva que Cléber responde “não apenas pelos crimes contra a vida, mas também por condutas patrimoniais ligadas à administração do condomínio”. É um recado direto a condomínios de todo o país que ainda confiam em controles informais para o caixa, especialmente em cidades turísticas como Caldas Novas, onde a rotatividade de moradores e hóspedes é alta.

O impacto se estende ao mercado imobiliário local. Corretores relatam que proprietários começam a questionar com mais frequência quem administra os prédios e quais são os mecanismos de auditoria das contas. As imagens do subsolo, do elevador e da mata onde o corpo é encontrado circulam em redes sociais e grupos de moradores, alimentando a sensação de insegurança em um setor que vende justamente a ideia de proteção e conforto.

Investigação especial e debate sobre gestão condominial

O inquérito sobre homicídio e ocultação de cadáver segue em Caldas Novas, enquanto os crimes patrimoniais relacionados ao cargo de síndico são encaminhados ao Grupo Especial de Investigações Especiais (GEIC). A divisão permite que a apuração sobre o desvio de recursos avance com foco em documentos, contratos e movimentações bancárias. A meta é identificar quanto do dinheiro da associação foi usado para pagar honorários e se houve outras irregularidades na gestão.

O filho de Cléber, que inicialmente aparece como suspeito de ajudar a ocultar provas, é solto na tarde de quinta-feira, 19, após novas análises técnicas. A polícia indica que a autoria do homicídio recai apenas sobre o pai. O síndico permanece preso e deve responder por homicídio, ocultação de cadáver e crimes patrimoniais ligados à administração do condomínio.

Advogados ouvidos reservadamente por moradores avaliam que o caso tende a acelerar propostas de mudança em convenções internas e na legislação local. Entre as medidas em discussão estão a obrigatoriedade de auditorias independentes anuais, a limitação de poderes do síndico para autorizar pagamentos de alto valor sem deliberação em assembleia e o reforço de câmeras e controles de acesso em áreas pouco movimentadas, como subsolos e casas de máquinas.

Em Caldas Novas, a expectativa é que a atuação do GEIC ajude a estabelecer parâmetros de responsabilização que sirvam de referência para outros condomínios da região. A forma como a polícia trata o uso de dinheiro coletivo para fins particulares, em um contexto de crime grave, pode influenciar decisões futuras de juízes em casos semelhantes.

As famílias que vivem no residencial onde Daiane desaparece tentam retomar a rotina entre assembleias extraordinárias e conversas de corredor. A corretora, encontrada 40 dias depois em uma área de mata, torna-se símbolo de um alerta que ultrapassa os limites do condomínio: quando o gestor do patrimônio comum cruza a linha da legalidade, o que falha primeiro, o controle interno ou a confiança dos moradores?

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