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‘Sicário’ segue em estado gravíssimo após tentativa de suicídio na PF

O investigado Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, 43, permanece em estado gravíssimo nesta sexta-feira, 6 de março de 2026, em Belo Horizonte. Ele tenta sobreviver após uma tentativa de suicídio dentro da custódia da Polícia Federal, horas depois de ser preso na Operação Compliance Zero.

Versões conflitantes e um quadro ainda indefinido

Mourão está internado no Centro de Terapia Intensiva do Hospital João XXIII, referência em trauma em Minas Gerais. A Secretaria de Estado da Saúde de Minas afirma que o quadro é “extremamente grave, porém estável dentro da gravidade” e que não há, até o momento, protocolo aberto para confirmação de morte encefálica.

A situação clínica de “Sicário” se transforma também em um impasse público. Na noite de quarta-feira, 4, a Polícia Federal informa que médicos do hospital teriam constatado morte cerebral. Horas depois, a Secretaria de Saúde divulga nota em sentido oposto, afirmando que o paciente permanece vivo, sob cuidados intensivos. A defesa de Mourão reforça a versão da secretaria. “Ele está internado no CTI, em estado gravíssimo. Não há protocolo de morte encefálica”, afirma o advogado da família, Robson Lucas, após contato com a equipe médica.

A discrepância entre os relatos de dois órgãos públicos lança dúvidas sobre a comunicação oficial em um caso de alta sensibilidade jurídica e política. Na quinta-feira, 5, fontes ligadas à investigação chegam a confirmar a morte cerebral do investigado, informação depois relativizada pelo boletim da rede estadual de saúde. O governo mineiro evita antecipar qualquer laudo definitivo e promete novas atualizações assim que houver mudança relevante no quadro.

Um personagem-chave em um esquema bilionário

A tentativa de suicídio ocorre poucas horas após a prisão de Mourão na Operação Compliance Zero, deflagrada na quarta-feira, 4. A investigação mira um suposto esquema bilionário de fraudes financeiras associado ao Banco Master e atinge executivos, operadores e intermediários de alto escalão. Em relatórios da PF, Mourão aparece com o codinome “Sicário” e figura como peça estratégica do grupo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, também preso na ação.

Documentos da investigação apontam que o investigado atua no monitoramento de pessoas ligadas ao caso, na obtenção ilegal de dados em sistemas restritos e em ações de intimidação contra possíveis adversários do grupo. Segundo a PF, ele poderia receber cerca de R$ 1 milhão por mês pelos serviços prestados à organização. A corporação descreve uma engrenagem que envolveria desvio de recursos em larga escala, blindagem de patrimônio e uso de informações privilegiadas para pressionar testemunhas e autoridades.

A prisão de “Sicário” ocorre em um momento em que a Operação Compliance Zero ganha peso político e econômico. O Banco Master, alvo central da apuração, movimenta bilhões de reais em crédito e operações estruturadas. As suspeitas de fraudes abalam a confiança de investidores e acendem alerta em órgãos reguladores sobre a vulnerabilidade dos mecanismos de controle. O colapso físico do investigado dentro da custódia policial adiciona uma camada de tensão à investigação, que já envolve integrantes do sistema financeiro, operadores de inteligência privada e figuras com trânsito em Brasília.

Desde a deflagração da operação, delegados e procuradores tratam Mourão como um elo capaz de detalhar a dinâmica interna do grupo. Sua eventual incapacidade de ser ouvido, seja por sequelas neurológicas severas, seja por uma morte confirmada, pode redesenhar a linha de apuração. Sem o depoimento de quem circula entre a alta cúpula do esquema e o submundo da coleta ilegal de dados, a PF depende ainda mais de quebras de sigilo, perícias digitais e colaboração premiada de outros investigados.

Custódia sob escrutínio e riscos para a investigação

A tentativa de suicídio dentro da Superintendência da PF em Belo Horizonte abre uma frente paralela de apuração. Na quinta-feira, 5, a corporação instaura inquérito para investigar as circunstâncias do episódio, que ocorre enquanto Mourão aguarda audiência de custódia. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirma que todas as movimentações do preso, assim como o atendimento prestado, estão registrados por câmeras sem pontos cegos. Os vídeos já foram enviados ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator das investigações.

O caso reacende o debate sobre a segurança de presos de alto valor investigativo sob custódia da União. Em um intervalo de poucas horas entre a prisão e o colapso clínico, a PF precisa explicar quais procedimentos de revista, vigilância e acompanhamento psicológico foram adotados. A abertura de inquérito funciona como resposta institucional imediata, mas não dissipa a impressão de que brechas operacionais podem ter permitido o ato extremo.

Especialistas em segurança carcerária costumam apontar que presos envolvidos em esquemas bilionários, com potencial de delatar redes complexas, exigem protocolos reforçados. O risco de suicídio, simulado ou real, é tratado como hipótese permanente em operações desse porte. O episódio com “Sicário” joga luz sobre esses procedimentos e tende a alimentar questionamentos no Congresso, no Conselho Nacional de Justiça e em organismos de controle sobre a custódia federal.

A instabilidade em torno do estado de saúde de Mourão também tem reflexos imediatos na condução do caso no Supremo. A defesa já trabalha com a possibilidade de pedir acesso integral aos vídeos e a todos os registros médicos desde a entrada do paciente no Hospital João XXIII. A divergência entre as primeiras comunicações oficiais e o boletim da Secretaria de Saúde de Minas gera desconfiança e pode ancorar pedidos de perícia independente e de responsabilização administrativa, caso sejam identificadas falhas na cadeia de informação.

Próximos passos e incertezas no centro da operação

Os próximos dias são decisivos para a investigação e para o próprio enredo da Operação Compliance Zero. Se o quadro clínico de Mourão se estabilizar, ainda que com limitações, a PF e o Ministério Público tentarão preservar sua capacidade de depor em juízo e em delações. Se houver confirmação de morte encefálica, o inquérito sobre a tentativa de suicídio ganha peso central e a apuração sobre o esquema financeiro perde um protagonista.

O STF acompanha os desdobramentos com atenção, uma vez que os vídeos da custódia e os relatórios médicos vão subsidiar decisões sobre a legalidade dos atos da operação e sobre a conduta da PF. A forma como o Estado lida com um investigado que transita entre o mundo financeiro formal e estruturas clandestinas de informação se torna um teste de transparência e responsabilidade institucional. A dúvida que permanece, enquanto “Sicário” luta pela vida no CTI do João XXIII, é se a principal testemunha operacional do suposto esquema bilionário ainda estará em condições de contar o que sabe quando, e se, deixar o hospital.

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