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Sérgio Nahas é preso na Bahia 24 anos após morte de Fernanda Orfali

O empresário Sérgio Nahas, 61, é preso no último sábado 17, na Praia do Forte, litoral norte da Bahia, quase 24 anos após o assassinato da esposa, Fernanda Orfali. A detenção, confirmada nesta quarta-feira 22, ocorre após sua identificação por câmeras de reconhecimento facial instaladas em área pública da região.

Condenação antiga, captura tardia

A prisão encerra um período de quase um ano em que Nahas vive como foragido da Justiça. O mandado é expedido em 2025, depois que o Supremo Tribunal Federal confirma, em maio daquele ano, a condenação pelo homicídio de Fernanda e rejeita os últimos recursos da defesa. O nome do empresário entra na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo que alerta polícias de vários países sobre procurados de alta prioridade.

Nahas é condenado em 2018 pelo Tribunal do Júri de São Paulo por homicídio simples. A sentença inicial fixa a pena em sete anos de prisão em regime semiaberto. O Ministério Público recorre, e o Tribunal de Justiça aumenta a punição para oito anos e dois meses em regime fechado. A confirmação pelo STF, quase sete anos depois, torna a decisão definitiva e abre caminho para a execução da pena.

O crime que agora leva o empresário ao sistema prisional baiano ocorre em 2002, no apartamento em que o casal vive em Higienópolis, bairro de alto padrão em São Paulo. Fernanda Orfali, então com 28 anos, leva um tiro no peito dentro de casa. Desde o início, Nahas sustenta que a esposa teria cometido suicídio, tese rejeitada por laudos periciais e pela investigação conduzida pela polícia paulista.

O processo se arrasta por mais de uma década, com uma sucessão de recursos e questionamentos apresentados pela defesa. A demora alimenta, ao longo dos anos, a percepção de impunidade em um caso que envolve violência doméstica, classe média alta paulistana e um réu com acesso a uma estrutura robusta de advogados. A confirmação da condenação pelo STF, em 2025, é vista por promotores como uma resposta tardia, mas simbólica.

Reconhecimento facial e violência doméstica em foco

A captura de Nahas ocorre em um dos destinos turísticos mais valorizados da Bahia, onde ele se hospeda em uma acomodação de alto padrão. Imagens de câmeras de reconhecimento facial, instaladas em área pública da Praia do Forte, identificam o rosto do empresário e cruzam os dados com bancos de procurados. A tecnologia, adotada por governos estaduais nos últimos anos, volta ao centro do debate, agora associada a um caso de feminicídio de grande repercussão nacional.

Depois da identificação, equipes da Polícia Civil baiana montam a operação que resulta na prisão, no sábado 17. A corporação informa a apreensão de drogas, celulares e um veículo no local onde o empresário está. Em seguida, Nahas passa por audiência de custódia e é encaminhado ao sistema prisional da Bahia, onde começa a cumprir a pena de oito anos e dois meses em regime fechado.

A defesa tenta reduzir o impacto da condição de foragido. Advogados afirmam que o empresário é idoso, tem problemas de saúde e não pretende se manter em fuga. A estratégia jurídica deve explorar brechas para pedidos de progressão de regime e eventuais benefícios futuros. Até agora, os representantes de Nahas não apresentam manifestação formal detalhada sobre a prisão e sobre o uso da tecnologia de reconhecimento facial no caso.

O histórico do processo de Fernanda Orfali se soma a uma lista de casos de violência doméstica envolvendo mulheres mortas por parceiros ou ex-parceiros, em que a resposta do sistema de justiça leva anos. A morte da jovem em 2002 ocorre muito antes da Lei Maria da Penha, de 2006, e da tipificação do feminicídio, em 2015. Mesmo sem essa nomenclatura à época, o caso é frequentemente lembrado por organizações de direitos das mulheres como exemplo de demora e dificuldade na responsabilização de agressores em ambientes de classe média e alta.

O que muda com a prisão e os próximos passos

A prisão de Nahas reforça o discurso de autoridades que defendem o uso ampliado de reconhecimento facial para localizar foragidos de longa data. A tecnologia, porém, também enfrenta críticas de especialistas em direitos digitais e organizações de direitos humanos, que apontam riscos de erros, abordagens abusivas e discriminação. O caso de um condenado por homicídio de alta visibilidade, identificado em um ponto turístico, tende a fortalecer a ala que vê nos sistemas de reconhecimento uma ferramenta de alto impacto.

Para o sistema de justiça, a captura de um réu condenado após mais de duas décadas do crime serve como mensagem de que decisões definitivas podem, ainda que tardiamente, ser executadas. A família de Fernanda e movimentos que atuam contra a violência de gênero enxergam na prisão um desfecho parcial, que não reverte a demora, mas interrompe a sensação de fuga permanente. O cumprimento da pena em regime fechado, definido em oito anos e dois meses, ainda pode ser encurtado por progressões e benefícios, a depender do comportamento do preso e de eventuais decisões judiciais futuras.

Ainda não há definição sobre a transferência de Nahas para São Paulo, onde o homicídio ocorre e onde tramitam os autos originais do processo. A possibilidade de deslocamento para um presídio paulista deve envolver negociação entre os governos estaduais e o Judiciário. Enquanto isso, o caso volta a alimentar o debate sobre a lentidão de julgamentos em crimes contra mulheres, o peso econômico e social de longos recursos e o papel de tecnologias de vigilância no fechamento de ciclos de impunidade.

Os próximos meses devem mostrar se a defesa conseguirá transformar a idade de 61 anos e os alegados problemas de saúde em argumentos efetivos para flexibilizar o cumprimento da pena. Também devem definir se a prisão de um réu de alta renda por reconhecimento facial impulsiona a expansão desses sistemas ou se reforça a cobrança por regras mais rígidas de transparência e controle. O desfecho do caso de Fernanda Orfali, duas décadas depois do tiro que interrompe sua vida em Higienópolis, ainda deixa aberta a pergunta sobre quantos outros crimes semelhantes chegam ao fim sem a mesma visibilidade e sem uma resposta concreta do Estado.

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