Ciencia e Tecnologia

Sensor em roupa íntima mede flatulência e redefine média de gases

Pesquisadores da Universidade de Maryland apresentam, neste 23 de fevereiro de 2026, o Smart Underwear, um sensor acoplado à roupa íntima que mede gases intestinais em tempo real. O dispositivo promete mudar a forma como a medicina entende o que é, de fato, uma flatulência normal.

Da piada ao dado científico

A pergunta é desconcertante, mas direta: você sabe quantas vezes solta pum por dia? Até agora, a resposta mais usada em consultórios vinha da memória do paciente, não de medições objetivas. O Smart Underwear tenta romper essa barreira com um sensor que transforma um tema constrangedor em dado clínico.

O dispositivo é posicionado na roupa íntima como um “sanduíche” preso por encaixe. Uma parte fica voltada para dentro, outra para fora, unidas por pressão, perto do bumbum. Cada episódio de flatulência gera um sinal captado pelo sensor, que detecta o hidrogênio produzido pelas bactérias da microbiota intestinal e envia a informação por Bluetooth para um aplicativo no celular.

O app registra em tempo real o momento em que os gases são liberados e cruza esse histórico com o que o usuário come ao longo do dia. Quem participa dos estudos tira fotos das refeições e preenche dados básicos de dieta. O resultado é um retrato detalhado da relação entre prato, intestino e gases, algo que a literatura científica ainda descreve com grande margem de incerteza.

“Nós ainda não sabemos, na verdade, o que é uma produção normal de flatulência”, afirma Brantley Hall, professor assistente de biologia celular da Universidade de Maryland e líder da pesquisa. “Sem essa referência, é difícil saber quando a produção de gases em alguém é excessiva”.

Média real é maior que o estimado

O primeiro teste de campo do Smart Underwear envolve 19 voluntários saudáveis, que usam a roupa íntima inteligente durante uma semana inteira. O número que aparece surpreende até os pesquisadores: em média, cada pessoa solta gases 32 vezes por dia. A estimativa mais citada em artigos médicos até então falava em algo entre 10 e 20 episódios diários.

A variação individual também chama atenção. No grupo monitorado, o participante com menor produção de gases registra quatro flatulências por dia. O mais “gasoso” chega a 59 episódios diários. Todos se mantêm em bom estado de saúde, sem sintomas relevantes, o que indica que uma frequência alta não significa automaticamente doença.

Em um segundo experimento, 38 pessoas seguem uma dieta com pouca fibra por quatro dias. No quarto dia, os cientistas introduzem suplementos de fibra e observam o que acontece. A resposta do sensor acompanha a teoria: mais fibra, mais fermentação, mais gases. O sistema atinge sensibilidade de 94,7% para detectar o aumento de flatulência, índice considerado alto para uma tecnologia ainda em fase preliminar.

Os testes reforçam a motivação inicial do projeto: sair da autodeclaração, sempre sujeita a esquecimento, vergonha ou exagero, e entrar em uma era de contagem objetiva de gases. Para médicos, esse dado tem valor prático. Permite separar o que é padrão fisiológico do que exige investigação, especialmente em queixas vagas de “gases em excesso” ou “barriga estufada”.

Sintomas como inchaço abdominal incômodo e gases com odor muito forte continuam servindo de alerta, segundo os pesquisadores. Nessas situações, a recomendação segue clara: procurar um especialista. A diferença é que, com sensores como o Smart Underwear, o relato do paciente pode vir acompanhado de uma curva diária de flatulência, em vez de uma impressão genérica.

Atlas da flatulência e impacto na prática clínica

O grupo de Maryland agora mira um objetivo ambicioso: criar um “atlas da flatulência humana”. A ideia é reunir bancos de dados de diferentes perfis de pessoas, com dietas variadas e microbiotas distintas, e estabelecer faixas de referência. O atlas serviria como um tipo de tabela de valores normais de gases, semelhante ao que já existe para colesterol, glicemia ou pressão arterial.

“O atlas da flatulência humana vai estabelecer referências objetivas para a fermentação microbiana intestinal, que é uma base essencial para avaliar como mudanças dietéticas, probióticas ou prebióticas alteram a atividade do microbioma”, diz Hall. Em linguagem simples, será possível medir como a flora intestinal reage quando alguém muda de dieta, passa a usar probióticos ou recebe orientação para reduzir certos alimentos.

Na rotina clínica, isso abre espaço para diagnósticos mais precisos de intolerâncias alimentares, como a lactose. Em vez de depender apenas do relato de desconforto após um copo de leite, médicos poderiam analisar se há um pico de gases após o consumo de derivados lácteos, registrado pelo sensor. O mesmo vale para casos de síndrome do intestino irritável e desequilíbrios da microbiota intestinal.

O impacto pode se estender além dos consultórios. A equipe não descarta que, no futuro, versões comerciais do Smart Underwear cheguem ao mercado como dispositivos de monitoramento pessoal, a exemplo de relógios inteligentes que hoje acompanham sono, batimentos cardíacos e passos. Uma linha de produtos voltados à saúde gastrointestinal poderia ganhar espaço em farmácias e lojas de artigos esportivos, estimulando maior atenção ao funcionamento do intestino.

Esse avanço também interessa à indústria de alimentos e suplementos, que busca comprovar efeitos de novos produtos sobre o bem-estar digestivo. Um sensor capaz de quantificar gases com precisão ao longo de semanas fornece um parâmetro objetivo para avaliar o impacto de dietas, fibras específicas, probióticos e prebióticos.

Desafios, privacidade e próximos passos

Os pesquisadores ainda lidam com desafios de conforto, durabilidade e aceitação social. O sensor precisa ser discreto, seguro para o uso diário e fácil de higienizar. Melhorias de design devem tentar reduzir ao máximo a sensação de ter um equipamento colado à roupa íntima, sem comprometer a precisão da medição.

A privacidade dos dados também entra no centro do debate. O aplicativo registra informações sensíveis, como horários de episódios de flatulência e fotos de todas as refeições do dia. A equipe de Maryland afirma que os estudos seguem protocolos de consentimento informado e anonimização, mas qualquer tentativa de levar o produto ao mercado terá de enfrentar regulações rígidas de proteção de dados.

O próximo passo imediato é ampliar o número de voluntários nos Estados Unidos, com convites abertos a diferentes faixas etárias e padrões de dieta. Quanto mais diverso o grupo, mais robusto será o futuro atlas da flatulência, base para definir o que é normal em diferentes contextos culturais e alimentares.

À medida que relógios e celulares já monitoram sono, passos e batimentos, a fronteira da saúde digital se aproxima de um território que antes só rendia piada. A pergunta que resta é se as pessoas estão prontas para transformar até o próprio pum em dado de saúde — e se o desconforto inicial não vai ceder lugar à curiosidade de entender, com números, o que o intestino tenta dizer todos os dias.

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