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Senador Giordano é autuado após tentar fugir de blitz na zona norte de SP

O senador Giordano é autuado na manhã desta segunda-feira (23) em São Paulo por dirigir uma Land Rover sem placa, com giroflex irregular e CNH vencida. A abordagem termina em tentativa de fuga pela calçada e ameaça a policiais militares.

Abordagem começa com recusa e termina em fuga pela calçada

O relógio marca 8h17 quando uma Land Rover preta chama a atenção de uma equipe da Polícia Militar na Alameda Afonso Schmidt, em Santana, zona norte da capital paulista. O carro circula sem placa externa e exibe sinais luminosos semelhantes aos usados em viaturas oficiais. Os policiais decidem abordar o veículo, que avança pela via residencial em plena manhã de segunda-feira.

Ao ser parado, o motorista se identifica apenas como “federal” e se recusa a sair do carro. A postura acende o alerta dos agentes, que insistem para que ele desça e apresente documentos. Após alguns minutos de tensão, o homem enfim desembarca e afirma ser senador da República. É Giordano, parlamentar em exercício em Brasília.

O clima não se acalma com a identificação. De acordo com o boletim registrado pela PM, o senador se nega a apresentar documentos pessoais e do veículo. Questiona a abordagem e começa a discutir com os policiais. As câmeras corporais da equipe são ligadas, e a gravação, segundo o relato, muda o tom da conversa. Ao perceber que está sendo filmado, Giordano reage com ameaças verbais aos agentes.

Em um dos momentos descritos no registro oficial, ao ser informado de que reforços estão a caminho, o senador afirma aos policiais que eles “iriam para a reciclagem”, numa referência ao processo administrativo de requalificação interna da corporação. A fala expõe uma tentativa de usar a própria condição de autoridade política como forma de pressão sobre a equipe de rua.

Enquanto a ocorrência se desenrola, os PMs identificam que as placas do veículo estão dentro da Land Rover. A numeração é conferida por meio do chassi e confirmada em consulta. A irregularidade de rodar sem placa instalada, porém, já está caracterizada. O uso de giroflex, equipamento restrito a viaturas oficiais e veículos autorizados, também entra na lista de infrações.

Antes da chegada do oficial responsável pela ocorrência, a situação sai do controle. Giordano volta para dentro do carro, liga o motor e deixa o local pela calçada. Quase atinge um dos policiais que participava da operação. A fuga em baixa velocidade, mas em área de circulação de pedestres, transforma uma infração de trânsito em um episódio de risco direto à integridade física dos agentes e de quem passava pela região.

Conduta acende debate sobre privilégio e respeito à lei

Minutos depois da fuga, novas equipes localizam a Land Rover no cruzamento da Avenida Braz Leme com a Rua Doutor César, também na zona norte. A comandante da companhia acompanha a segunda abordagem, que ocorre diante de mais policiais e com o entorno já em atenção. Desta vez, o senador permanece no local até o fim do procedimento, e as autuações são lavradas.

Segundo a Polícia Militar, Giordano recebe multas por conduzir veículo sem placas, por dirigir com a Carteira Nacional de Habilitação vencida desde fevereiro de 2024 e pelo uso de giroflex. Depois do registro das infrações, ele é liberado. Não há, até o momento, informação sobre abertura de inquérito para apurar crime de desobediência ou direção perigosa, mas o histórico do caso coloca pressão sobre o Ministério Público e sobre a própria Câmara Alta.

A conduta de um senador ao volante, em plena segunda-feira de março de 2026, extrapola a esfera de uma ocorrência de trânsito comum. Um representante da República que se nega a apresentar documentos, afronta policiais fardados, tenta deixar uma abordagem oficial e trafega pela calçada levanta dúvidas sobre o grau de compromisso das autoridades com as regras que cobram do cidadão comum.

Especialistas em segurança pública ouvidos ao longo do dia apontam que o episódio reforça uma sensação de desigualdade no tratamento dado a autoridades e à população em geral. Para o policial que atua na rua, a cena também é simbólica. A gravação por câmeras corporais, agora política de diferentes estados, surge como proteção contra eventuais acusações de abuso e como instrumento de transparência. No caso de Giordano, as imagens podem ser decisivas em uma eventual investigação administrativa ou criminal.

A PM, ao relatar o episódio em boletim, procura demonstrar que segue o protocolo, independentemente do cargo do envolvido. Ao detalhar as frases do senador, inclusive a menção à possível “reciclagem” dos agentes, a corporação envia um recado interno e externo: a ação de rua está documentada, e a responsabilidade por eventuais excessos ou ilegalidades não recai apenas sobre a base da tropa.

O gabinete de Giordano é procurado pela imprensa ao longo do dia para comentar o caso. Até a publicação desta reportagem, não há resposta oficial. O silêncio aumenta a pressão política e abre espaço para interpretações sobre a postura do senador diante de uma ocorrência que mistura prerrogativas parlamentares, legislação de trânsito e respeito a instituições de segurança.

Próximos passos e possíveis desdobramentos legais

O episódio desta segunda-feira pode não se encerrar nas autuações administrativas já emitidas. As imagens das câmeras corporais, a tentativa de fuga pela calçada e as ameaças a policiais militares podem embasar pedidos de investigação por parte do Ministério Público de São Paulo. A Procuradoria da República e o Conselho de Ética do Senado também podem ser acionados, caso adversários políticos decidam levar o caso para a esfera institucional.

As multas aplicadas seguem o Código de Trânsito Brasileiro e envolvem valores que, somados, podem chegar a alguns milhares de reais, considerando a gravidade das infrações. Mais do que o impacto financeiro, porém, o centro do debate recai sobre a mensagem transmitida por um parlamentar que circula com CNH vencida há mais de um ano e um veículo sem placa, equipado com giroflex.

Nas redes sociais, o caso passa a ser explorado por adversários e apoiadores. Uns exigem punição exemplar e cobram que o Senado se posicione. Outros minimizam a gravidade, tratam o episódio como excesso de rigor da polícia ou erro pontual, e defendem que o assunto permaneça restrito à esfera administrativa.

O histórico recente de episódios envolvendo autoridades e fiscalização de trânsito, em diferentes estados, compõe um pano de fundo incômodo. A percepção de que parte da elite política se considera acima das regras afeta a confiança nas instituições e no próprio Parlamento. Cada nova ocorrência, como a protagonizada por Giordano em Santana, reabre perguntas sobre controle, transparência e limites de poder.

O desfecho ainda é incerto. A formalização de eventuais investigações, a divulgação das imagens das câmeras corporais e o posicionamento do gabinete do senador vão definir se o caso permanecerá como uma nota de rodapé na crônica política ou se se transformará em mais um teste público para a ideia de que a lei vale, de fato, para todos.

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