Senado consolida maioria para aprovar Jorge Messias ao STF
A indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal entra em 2026 com maioria articulada no Senado. Governistas e parte da oposição já tratam a aprovação como provável, às vésperas da sabatina na Comissão de Constituição e Justiça.
Acordo amplo em torno do nome de Messias
No Congresso, a movimentação em torno do advogado-geral da União ganha força desde o fim de 2025 e se consolida neste primeiro semestre de 2026. O mapeamento feito por aliados de Messias indica que MDB, PSD e Republicanos, três das maiores bancadas da Casa, sinalizam voto majoritário pela aprovação. A adesão desses grupos garante, na conta dos articuladores, um colchão confortável acima dos 41 votos exigidos no plenário para a confirmação ao cargo vitalício no Supremo.
A costura não se limita ao eixo governista. Nomes associados ao bolsonarismo, que em outras indicações ao STF adotam resistência automática, passam agora a defender publicamente o indicado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A cena marca uma inflexão no clima de confronto que domina a relação entre Executivo, Congresso e Judiciário desde 2019 e revela um raro ponto de convergência em meio à preparação para as eleições municipais de 2024 e gerais de 2026.
Ciro Nogueira, senador do PP pelo Piauí e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, faz uma das declarações mais emblemáticas dessa mudança de rota. Ele afirma que vota a favor de Messias, apesar de desejar que a indicação partisse de Bolsonaro, e atribui a decisão à biografia do advogado. “Eu gostaria que quem estivesse fazendo essa indicação fosse o presidente Bolsonaro, mas o povo escolheu que fosse o presidente Lula, fez a indicação, nós temos que respeitar. É uma decisão pessoal de cada senador. Eu mesmo apoio, porque eu conheço sua história”, diz.
Do lado do PL, principal partido de oposição ao governo Lula, o presidente nacional Valdemar Costa Neto também admite que a indicação tende a passar sem sobressaltos. Ele reconhece a resistência de parte de sua bancada, mas avalia que o Senado se inclina à aprovação. “Eles têm maioria. Aprova. Pode escrever. Aprova. Eles não têm o que falar do Messias”, afirma, ao definir o indicado como “camarada de bem”.
O apoio extrapola o universo político e alcança o próprio Supremo. Em evento na Assembleia Legislativa de São Paulo, em 6 de abril, o ministro André Mendonça envia um recado público ao advogado-geral da União. “Eu faço votos de que em breve você possa deixar a AGU por um bom motivo de estar comigo no STF”, declara, em tom de boa-vinda antecipada ao colega que ainda depende do crivo do Senado.
O que está em jogo para o STF e para 2026
A sinalização de maioria em torno de Messias ocorre em um momento em que o Supremo tenta reduzir a temperatura política após anos de choque direto com o bolsonarismo. A escolha do novo ministro influencia julgamentos sobre temas sensíveis, da regulação das redes sociais ao alcance das decisões criminais, passando por disputas federativas envolvendo bilhões de reais em tributos e políticas públicas. Cada voto na Corte, hoje composta por 11 cadeiras, pesa em decisões que formam maioria simples, de 6 a 5, em casos de grande impacto.
No cenário eleitoral, a aprovação de Messias também funciona como termômetro do alinhamento de forças no Senado às vésperas de 2026. A capacidade do governo Lula de construir pontes com MDB, PSD e Republicanos, somada ao apoio declarado de figuras do PP e do PL, indica que parte da agenda do Palácio do Planalto ainda encontra espaço de negociação em meio a um Congresso de maioria conservadora. Esse movimento ajuda a conter a narrativa de isolamento político do governo e oferece um sinal de estabilidade institucional a investidores e atores econômicos que acompanham de perto a relação entre os Poderes.
A trajetória de Messias, servidor de carreira e homem de confiança de Lula desde a passagem pela Controladoria-Geral da União, pesa na avaliação de aliados e adversários. O fato de não carregar uma marca-partidária explícita, somado à atuação discreta à frente da Advocacia-Geral da União, reduz o espaço para ataques diretos. A ausência de escândalos conhecidos e a boa interlocução com senadores de vários grupos facilitam a construção do consenso.
Nos bastidores, o Planalto evita celebrar vitória antecipada. Líderes governistas admitem que a votação secreta no plenário sempre guarda margem de imprevisibilidade e que movimentos de última hora podem alterar o placar. Ainda assim, a leitura dominante é de que o custo político de rejeitar um nome bem recebido por diferentes correntes, inclusive por um ministro já empossado no STF, se torna elevado demais para a maioria dos senadores.
Reta final da articulação e próximos passos
Nas semanas que antecedem a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, prevista para o primeiro semestre de 2026, a estratégia do governo e de aliados de Messias se concentra em dois eixos. O primeiro busca consolidar, voto a voto, o compromisso de senadores que já sinalizam apoio, em especial nas bancadas de MDB, PSD e Republicanos, responsáveis por mais de 30 cadeiras no Senado. O segundo mira a redução de resistências difusas na oposição, com conversas reservadas e exposição da trajetória técnica do indicado.
A sessão da CCJ, que costuma se estender por horas, deve servir de palco para que Messias apresente posições sobre temas como independência judicial, combate às fake news e equilíbrio entre garantias individuais e políticas de segurança. As respostas, transmitidas ao vivo por canais do Senado e redes sociais, tendem a ser usadas tanto na construção de sua autoridade futura na Corte quanto na disputa política em curso rumo a 2026.
Concluída a sabatina, a Comissão vota o parecer, que segue para o plenário. A expectativa dos articuladores é que todo o processo, da sabatina à deliberação final, se encerre em poucas semanas. Uma aprovação folgada, próxima ou acima de 50 votos, reforça a imagem de consenso e fortalece o Supremo em um ambiente de polarização permanente. Um placar mais apertado, ainda que suficiente, expõe limites da articulação e pode servir de munição para grupos que desejam manter a Corte sob pressão.
O desfecho da votação sobre Jorge Messias se soma, assim, ao tabuleiro que já projeta a eleição presidencial de 2026. Se a aposta dos articuladores se confirma e o Senado chancela o nome com ampla maioria, o governo Lula ganha um aliado confiável no STF e sinaliza que ainda consegue organizar maiorias pontuais em um Parlamento fragmentado. Se imprevistos alteram a trajetória prevista, o recado será o oposto: a dificuldade de construir consenso até mesmo em torno de um indicado sem grandes arestas. É essa equação, entre estabilidade institucional e disputa de poder, que a sabatina de 2026 coloca no centro do plenário do Senado.
