Seis morrem em acidente com lancha no Rio Grande na divisa MG-SP
Seis pessoas, entre elas uma criança, morrem neste domingo (22) em um acidente com lancha no Rio Grande, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo. A embarcação transporta uma família e amigos quando vira na região de forte correnteza. Equipes de resgate de dois estados são mobilizadas durante todo o dia.
Tragédia em área de lazer movimentada
O grupo sai para um passeio de fim de semana em um dos trechos mais procurados do Rio Grande, ponto tradicional de esportes náuticos e pesca. A lancha navega na área que marca a fronteira entre os dois estados, em um domingo de calor e grande movimento nas margens. Moradores contam que o fluxo de embarcações aumenta desde as primeiras horas da manhã.
Testemunhas relatam que a lancha parece perder estabilidade pouco antes de virar, em um trecho onde a correnteza costuma ser mais forte. Algumas pessoas conseguem nadar até a margem, enquanto outras desaparecem em poucos minutos. Pescadores e donos de outras lanchas tentam o resgate imediato, ainda antes da chegada das equipes oficiais.
Resgate difícil expõe falhas na segurança
Corpos de Bombeiros de Minas Gerais e São Paulo são acionados quase ao mesmo tempo, por volta do fim da manhã. As buscas se estendem por horas, com apoio de barcos, motos aquáticas e drones. Até o início da noite, seis corpos são localizados, incluindo o de uma criança de aproximadamente 8 anos. Ao menos uma vítima é levada com vida para atendimento em cidade próxima.
Moradores afirmam que a região acumula relatos de sustos e incidentes menores nos últimos anos. O aposentado João Ferreira, 67, que tem casa às margens do rio, diz que a tragédia “era questão de tempo”. “Todo fim de semana é lancha correndo demais, gente sem colete, ninguém fiscaliza. Hoje foi essa família, amanhã pode ser outra”, afirma.
As causas do acidente ainda não são divulgadas, mas investigadores trabalham com três linhas principais: excesso de velocidade, lotação inadequada e falha na condução em área de correnteza. Peritos recolhem peças da lancha e ouvem sobreviventes para reconstituir o trajeto. Agentes também verificam se a documentação da embarcação está em dia e se havia coletes salva-vidas suficientes a bordo.
Fronteira fluvial escancara vazio de fiscalização
A tragédia reacende o debate sobre a segurança na navegação em rios que funcionam como fronteira entre estados. O Rio Grande corta Minas Gerais e São Paulo em centenas de quilômetros e concentra represas, balneários e marinas. A fiscalização, porém, fica espalhada entre órgãos estaduais e a Marinha, o que abre brechas de atuação e de responsabilidade.
Especialistas em direito ambiental e em transporte aquaviário apontam que a divisão de tarefas muitas vezes se traduz em ausência de presença efetiva na água. Em feriados prolongados e finais de semana, o movimento de lanchas, motos aquáticas e barcos cresce, mas o número de agentes de fiscalização não acompanha o aumento. “A sensação é de terra de ninguém em boa parte dos trechos”, diz, em caráter reservado, um servidor de órgão ambiental mineiro.
Dados recentes da Capitania dos Portos citados por técnicos ouvidos pela reportagem indicam que, em alguns trechos de rios interestaduais, o número de embarcações de lazer cresce mais de 30% em cinco anos. O volume de autuações, porém, avança em ritmo bem menor, o que sugere fiscalização irregular. Em boa parte dos casos, a checagem de coletes, habilitação de condutores e lotação máxima fica restrita a operações pontuais.
Famílias enlutadas e pressão por mudanças
As seis mortes abrem um ciclo de luto nas cidades dos dois lados da fronteira, onde parte das vítimas mora e trabalha. Escolas, pequenas empresas e órgãos públicos se preparam para decretar luto oficial a partir desta segunda-feira (23). Igrejas e associações comunitárias organizam vigílias e correntes de oração, enquanto parentes correm entre delegacias, hospitais e institutos médicos-legais em busca de informações e liberação dos corpos.
Lideranças locais começam a pressionar por mudanças imediatas, com ações concretas antes dos próximos feriados prolongados. Entre as demandas estão fiscalização contínua nos principais pontos de embarque, exigência rigorosa de coletes salva-vidas para todos os passageiros, além de campanhas educativas nas rádios e redes sociais. Prefeitos de cidades ribeirinhas discutem a criação de regras padronizadas nos dois estados para uso de lanchas e motos aquáticas.
Representantes do setor náutico, por sua vez, defendem que boa parte dos empresários cumpre as normas e que a atenção deve se voltar para condutores amadores. Proprietários de marinas relatam que oferecem instruções básicas de segurança, mas admitem que nem sempre há tempo ou disposição dos clientes para treinos mais longos. A discussão sobre cursos obrigatórios mais rígidos e punições mais pesadas deve ganhar espaço nas próximas semanas.
Investigações em curso e incertezas
Delegacias de Minas Gerais e São Paulo abrem inquéritos para apurar responsabilidades pelo acidente, enquanto a Marinha conduz investigação própria. Os laudos periciais, que costumam levar de 30 a 60 dias, vão indicar se houve falha humana, problema mecânico ou combinação dos dois fatores. Só depois dessa etapa será possível apontar eventuais crimes e responsabilizações civis.
O resultado das investigações pode influenciar futuras regras de navegação em rios que servem de fronteira, com reflexos diretos na rotina de milhares de usuários. Moradores e frequentadores do Rio Grande esperam que o choque desta tragédia saia do campo da comoção e se traduza em mudanças práticas e verificáveis na fiscalização e na cultura de segurança. A pergunta que ecoa nas margens do rio, nesta noite de domingo, é se o poder público vai agir antes que o próximo acidente transforme o luto de hoje em estatística.
