Seguro encosta em Ventura e leva eleição presidencial em Portugal ao empate técnico
António José Seguro chega a um empate técnico com André Ventura na disputa pela Presidência de Portugal e embaralha o cenário eleitoral em janeiro de 2026. O avanço da esquerda em poucas semanas transforma uma eleição tida como favorável à direita em confronto aberto pelo Palácio de Belém.
Virada nas sondagens põe esquerda de volta ao centro do tabuleiro
As sondagens divulgadas nesta segunda quinzena de janeiro mostram uma curva clara de recuperação de Seguro. Institutos apontam o candidato da esquerda na casa dos 47% a 49% das intenções de voto, enquanto André Ventura oscila entre 48% e 50%, configurando empate dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais. O que há poucas semanas parecia uma caminhada confortável da direita para o segundo turno agora se torna uma disputa centímetro a centímetro.
A mudança ocorre depois de uma série de debates televisivos e comícios regionais que expõem duas visões opostas de país. Seguro tenta se apresentar como alternativa de estabilidade social e reconstrução do Estado de bem-estar, insistindo em termos como “segurança económica” e “confiança democrática”. Ventura aposta em discurso de ruptura, endurece a retórica sobre imigração, criminalidade e União Europeia, e tenta mobilizar um eleitorado cansado da política tradicional.
Nos bastidores das campanhas, dirigentes admitem surpresa com a velocidade da recuperação de Seguro. A virada começa a aparecer nas entrevistas presenciais de rua e nas pesquisas telefônicas logo após o primeiro grande debate de janeiro, transmitido em horário nobre pelas principais emissoras. A partir dali, o candidato da esquerda ganha entre 5 e 7 pontos em cerca de três semanas, segundo levantamentos internos, e deixa de ser tratado como nome decorativo para se tornar protagonista da disputa.
Analistas em Lisboa apontam que o crescimento não nasce de um único facto, mas de uma combinação de fatores. A inflação ainda pressiona famílias de baixa renda, o custo da habitação continua alto nas grandes cidades e o desgaste de políticas de austeridade passadas mantém viva a memória de cortes em salários e pensões. Seguro tenta ligar Ventura a esse legado, enquanto reforça promessas de proteção social e investimento em serviços públicos até 2030.
Equilíbrio de forças altera cálculo político em Lisboa e em Bruxelas
O empate técnico mexe com o xadrez político interno e com a percepção externa sobre Portugal. Uma vitória folgada de Ventura poderia significar um alinhamento mais nítido com a direita europeia que cresce em países como Itália, França e Holanda. Ao recuperar terreno, a esquerda portuguesa envia o sinal de que ainda é capaz de organizar uma frente competitiva e de bloquear uma guinada abrupta no eixo político do país.
Diplomatas em Bruxelas acompanham a disputa com atenção redobrada. Um presidente alinhado com Ventura tenderia a endurecer o discurso sobre política migratória, segurança de fronteiras e integração europeia. Seguro, por sua vez, fala em “reforçar o lugar de Portugal no coração da Europa” e promete respeitar metas orçamentais sem abdicar de investimentos sociais. “Portugal precisa de responsabilidade, mas também de um Estado que não abandone os seus”, afirma em comício no Porto, para uma plateia que a campanha estima em 8 mil pessoas.
O movimento nas sondagens também reanima partidos tradicionais que vinham encolhidos. Setores da esquerda parlamentar, antes reticentes, intensificam o apoio explícito a Seguro para evitar que Ventura chegue à Presidência com um mandato interpretado como autorização para alterar consensos básicos da democracia portuguesa. Dirigentes citam a Constituição de 1976, nascida depois de quase meio século de ditadura, como linha vermelha a ser preservada.
Entre os eleitores, a disputa mais apertada aumenta o engajamento. Organizações civis relatam maior procura por debates locais e sessões de esclarecimento desde o início de 2026. A Comissão Nacional de Eleições projeta participação acima dos 60%, depois de registrar abstenção perto de 40% em pleitos recentes. “Quando o resultado parece decidido, as pessoas desmobilizam. Uma eleição renhida traz o eleitor de volta”, comenta um cientista político da Universidade de Coimbra.
Campanhas ajustam discurso e apostam em reta final polarizada
Com o empate técnico consolidado, as duas campanhas reposicionam estratégias para as últimas semanas antes do segundo turno. A equipe de Ventura tenta reforçar a imagem de liderança firme e insiste que o país precisa de “mão pesada” contra o crime e contra o que chama de “aparelho partidário”. A comunicação intensifica presenças em redes sociais, vídeos curtos e intervenções em rádios locais, focando principalmente homens entre 30 e 55 anos e eleitores do interior.
O comando de Seguro mira outro flanco. A campanha investe em encontros com professores, profissionais de saúde e trabalhadores do turismo, setor que responde por cerca de 15% do PIB português. A mensagem central é que políticas de choque social podem afastar investimentos, reduzir receitas fiscais e fragilizar programas públicos. “Se a presidência virar palco de conflito permanente, quem paga a conta é o trabalhador”, diz um assessor, sob condição de anonimato, na sede da campanha em Lisboa.
A maior incógnita está nos eleitores indecisos e nos que se abstêm no primeiro turno. Pesquisas indicam que cerca de 10% do eleitorado ainda não escolhe candidato ou admite poder mudar de voto até a véspera. Esse contingente torna-se alvo de uma ofensiva combinada de debates adicionais, entrevistas em horário nobre e viagens relâmpago a distritos onde a abstenção histórica supera 45%.
Os próximos dias devem trazer novas sondagens, acordos de bastidores e movimentos de aproximação entre campanhas e partidos médios. O desfecho da disputa definirá não apenas quem ocupará a Presidência pelos próximos cinco anos, mas também o peso relativo de esquerda e direita na arena política portuguesa até o fim da década. Enquanto o país avança para o segundo turno, a pergunta que se impõe é se a recuperação de Seguro marca uma inflexão duradoura ou apenas um sobressalto num ciclo mais longo de avanço conservador.
