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Secretário do Tesouro dos EUA ataca Carney e eleva tensão no USMCA

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Bessent, acusa o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, de conduzir mal a renegociação do USMCA. As críticas são feitas em 25 de janeiro de 2026 e expõem fissuras na aliança econômica da América do Norte.

Choque diplomático em torno do acordo norte-americano

Bessent escolhe a vitrine pública para pressionar Ottawa. Ao falar sobre a revisão do Acordo EUA-México-Canadá, ele questiona diretamente as motivações de Carney e associa a postura do premiê à agenda do Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, na Suíça. O USMCA, sucessor do Nafta e pilar de uma área de livre comércio que movimenta trilhões de dólares por ano, entra em sua primeira grande renegociação desde que entra em vigor em 2020.

O secretário afirma não ver clareza na estratégia canadense. “Temos o USMCA (Acordo EUA-México-Canadá), mas com base nele – que será renegociado no verão do hemisfério norte – não tenho certeza do que o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, está fazendo, além de tentar demonstrar virtude para seus amigos globalistas em Davos”, critica. Para Bessent, Carney não está “fazendo o melhor trabalho” para o povo canadense.

A fala atinge um ponto sensível. O acordo define tarifas, regras de origem, cotas agrícolas, exigências trabalhistas e padrões ambientais para uma região que responde por cerca de 30% do PIB mundial. O calendário é apertado: a renegociação, prevista para avançar entre junho e setembro de 2026, precisa chegar a algum entendimento antes de o ciclo eleitoral dos três países tornar qualquer concessão politicamente explosiva.

Nos bastidores, integrantes da equipe econômica em Washington demonstram incômodo com sinais de maior aproximação do Canadá com a China em setores estratégicos, como tecnologia, energia e mineração crítica. O temor norte-americano é que empresas chinesas, instaladas ou associadas a grupos canadenses, usem o acesso preferencial ao mercado dos EUA e do México para driblar barreiras comerciais e de segurança.

Disputa geopolítica atravessa economia real

Bessent transforma esse desconforto em discurso político. Ao acusar Carney de buscar aplausos da “elite globalista”, ele fala diretamente a uma base doméstica que vê Davos como símbolo de interesses distantes do trabalhador médio norte-americano. A crítica apresenta a renegociação do USMCA não apenas como ajuste técnico, mas como confronto de visões sobre o papel da China na economia global.

O nervosismo se espalha por setores que dependem das regras do tratado. Montadoras instaladas em Ontario e no Meio-Oeste dos Estados Unidos acompanham cada movimento, já que o USMCA define percentuais mínimos de conteúdo regional para carros e autopeças. Mudanças nesses índices podem deslocar fábricas, afetar turnos de trabalho e redesenhar cadeias de fornecimento que cruzam a fronteira dezenas de vezes até o veículo final chegar ao consumidor.

Indústrias agrícolas também sentem o impacto potencial. Exportadores de grãos e carnes do Canadá e do Meio-Oeste americano contam com tarifas reduzidas e previsibilidade regulatória para planejar safras, contratos e investimentos, muitas vezes com prazos de cinco a dez anos. Qualquer ruído que sinalize aumento de barreiras ou quotas mais rígidas entra no radar de bancos e fundos que financiam o agronegócio trilateral.

O México observa o embate com atenção, ciente de que uma piora na relação entre Washington e Ottawa pode respingar em suas próprias exportações. O país se beneficia de mão de obra mais barata e de acordos que facilitam a instalação de fábricas de eletrônicos, têxteis e automóveis voltados ao mercado consumidor dos EUA e do Canadá. Uma renegociação contaminada por disputas políticas e pelo tema China pode resultar em novas exigências de conteúdo local e em mais fiscalização de cadeias produtivas.

Analistas veem na fala de Bessent um recado a outros aliados que tentam equilibrar relações com Washington e Pequim. Ao expor publicamente o incômodo com Carney, o secretário indica que a próxima rodada do USMCA pode incorporar cláusulas mais rígidas contra triangulação de produtos chineses e uso de tecnologia considerada sensível. Isso afeta desde fabricantes de semicondutores até empresas de energia renovável que dependem de componentes produzidos na Ásia.

Negociações mais duras e futuro incerto

A troca de farpas tende a endurecer o clima na mesa de negociações. Diplomatas canadenses podem se ver pressionados a responder às críticas para consumo interno, enquanto a Casa Branca explora a narrativa de que protege empregos nacionais. Cada gesto público passa a ser calculado também em função de pesquisas de opinião e da pressão de lobbies empresariais que não querem surpresas nas tarifas ou nas regras de origem.

No Canadá, a oposição encontra espaço para questionar se Carney privilegia agendas internacionais em detrimento de interesses domésticos, como preservação de empregos industriais e estabilidade de exportações de energia. A crítica de que o governo busca aprovação em Davos pode ganhar força em um cenário de crescimento modesto, inflação ainda sensível e eleitores atentos ao custo de vida.

O desafio imediato é traduzir o embate retórico em propostas concretas de texto para o tratado. Equipes técnicas dos três países correm para mapear pontos em que podem ceder, desde prazos de transição para novos padrões trabalhistas até limites de participação de empresas estatais estrangeiras em licitações públicas. A influência chinesa, que antes aparece como preocupação difusa, entra agora como variável explícita nas simulações de impacto econômico.

As próximas semanas indicam se a ofensiva verbal de Bessent abre espaço para uma negociação mais dura ou se provoca reação contrária e une Canadá e México contra o protagonismo americano. O futuro do USMCA, construído para dar previsibilidade de longo prazo a governos e empresas, volta a ficar em aberto. A resposta de Carney e os termos que emergirem da mesa de renegociação dirão se a América do Norte reforça sua integração ou abre uma nova fase de desconfiança mútua.

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