Scarpa reencontra Willian Bigode em campo sob sombra de ação por criptos
Gustavo Scarpa e Willian Bigode se reencontram em campo neste domingo (22), na Arena MRV, pela semifinal do Mineiro, sob a sombra de uma disputa judicial por investimentos em criptomoedas que não renderam o prometido. O duelo entre Atlético e América termina em 1 a 1, mas o jogo fora dos gramados segue aberto nos tribunais.
Reencontro frio em noite de semifinal
A bola rola em Belo Horizonte às vésperas de uma decisão esportiva, mas o roteiro da noite carrega um enredo que extrapola o gramado. Scarpa, hoje camisa 10 do Atlético, e Willian, atacante do América, se cumprimentam rapidamente antes do apito inicial, num gesto protocolar que contrasta com o peso da disputa que travam na Justiça.
Os times empatam em 1 a 1, com gols de Dudu e Yarlen no segundo tempo, e deixam a vaga na final do Campeonato Mineiro em aberto para o jogo de volta, no dia 1º de março, no Independência. No caminho, o Atlético ainda encara o Grêmio, quarta-feira (25), pela quarta rodada do Brasileiro, enquanto o América tenta blindar o elenco da repercussão de um caso que volta a ganhar força a cada reencontro dos ex-companheiros de Palmeiras.
Na zona mista da Arena MRV, Scarpa fala sobre a noite que marca o primeiro duelo com Willian desde que levou à Justiça um investimento milionário em criptomoedas ligado ao antigo colega de ataque. O meio-campista evita dramatizar o encontro em campo, mas não esconde que a relação mudou depois do calote. “É um assunto que está na Justiça e eu confio que as coisas vão ser esclarecidas. Em campo eu faço meu trabalho”, diz, em tom contido.
Do vestiário do Palmeiras ao banco dos réus
O reencontro desta semifinal nasce de uma sociedade que começa em um vestiário campeão. Entre 2018 e 2021, Scarpa, Willian e o lateral-direito Mayke dividem títulos e prêmios pelo Palmeiras. Fora de campo, parte desse grupo passa a olhar para as criptomoedas como oportunidade de multiplicar ganhos, em um cenário de juros mais baixos e de euforia com ativos digitais.
Scarpa investe R$ 6,3 milhões na Xland Holding Ltda, empresa ligada ao universo cripto e apresentada por meio da WLJC, gestora financeira da qual Willian é sócio. O negócio prevê retorno mensal entre 3,5% e 5%, patamar bem acima de aplicações tradicionais. A intermediação é feita pela Soluções Tecnologia Eireli, estrutura que ajuda a dar verniz de profissionalismo ao empreendimento.
O dinheiro, porém, não volta. Sem ver os rendimentos combinados, Scarpa pede a rescisão do contrato e ouve a promessa de devolução integral em até 30 dias úteis. O prazo expira, um novo cronograma é desenhado e, novamente, nada cai na conta do jogador. Em paralelo, Mayke, hoje no Grêmio, vive situação semelhante após aplicar R$ 4 milhões na mesma engrenagem financeira. Ele também solicita o resgate em outubro do ano anterior e recebe a garantia de pagamento em até dez dias úteis, promessa igualmente descumprida.
Em junho de 2023, a Justiça aceita denúncia contra Dubgod, figura central ligada à Xland, e o transforma em réu. O caso expõe, para além do universo esportivo, a fragilidade de contratos firmados em torno de ativos de alta volatilidade, vendidos a jogadores como alternativas modernas de planejamento financeiro. A imagem de Willian, associado às empresas envolvidas, entra no centro da polêmica e passa a ser examinada não só por torcedores, mas também por patrocinadores e dirigentes.
Nos bastidores, o episódio reabre uma discussão antiga no futebol brasileiro: o pouco preparo financeiro de atletas, muitos deles jovens, diante de propostas que prometem ganhos rápidos. A combinação de confiança pessoal, linguagem técnica e promessas de rentabilidade elevada cria um terreno fértil para conflitos que só aparecem quando o mercado vira ou o dinheiro some.
Confiança abalada e alerta ao mercado da bola
O processo movido por Scarpa e Mayke não atinge apenas o patrimônio dos dois jogadores, que somam cerca de R$ 10,3 milhões em aportes na Xland. A disputa abala um ativo ainda mais sensível no ambiente do futebol: a confiança entre colegas de profissão. Quando o intermediário de um investimento é um companheiro de elenco, o dano extrapola o saldo bancário e contamina relações em campo, vestiário e negócios futuros.
Empresários que atuam na intermediação de contratos relatam, em caráter reservado, maior resistência de atletas a propostas vinculadas a criptomoedas e plataformas digitais de alto risco. Clubes passam a revisar com mais cuidado parcerias comerciais e ofertas de patrocínio de empresas do setor, temendo associações com marcas que possam enfrentar questionamentos judiciais. O caso, amplamente acompanhado pela imprensa esportiva, funciona como alerta para uma geração de jogadores que vive seu auge em meio a um ambiente financeiro mais complexo.
Scarpa, hoje protagonista técnico do Atlético, tenta separar o litígio da rotina esportiva num momento em que o clube mira mais um título estadual e precisa de serenidade na reta decisiva. Willian, referência ofensiva do América, lida com o desafio de manter foco em campo enquanto seu nome segue atrelado a uma ação que envolve valores milionários e contratos contestados.
Próximo capítulo: tribunal e jogo de volta
O empate na Arena MRV empurra a decisão do Mineiro para o Independência, no dia 1º de março, às 18h. Quem vencer avança à final; nova igualdade leva a definição para os critérios previstos em regulamento. Até lá, as atenções se dividem entre o calendário apertado, que inclui o duelo do Atlético com o Grêmio na quarta-feira (25), e o avanço do processo que opõe Scarpa e Mayke ao grupo ligado a Willian.
Nos tribunais, a ação segue seu curso com pedidos de ressarcimento e responsabilização civil. Jurídico de clubes, assessorias de atletas e agentes observam cada movimento, atentos ao potencial efeito desse caso sobre contratos de imagem, parcerias de conteúdo e acordos de gestão financeira oferecidos a elencos inteiros. O reencontro desta noite, ainda que marcado por um cumprimento discreto, reforça uma pergunta que permanece sem resposta: até onde a busca por rendimentos rápidos vai seguir testando os limites da confiança no futebol brasileiro?
