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Sarah Mullally assume Canterbury e rompe barreira de 500 anos

Sarah Mullally assume nesta quarta-feira (25) o comando espiritual da Igreja Anglicana mundial e se torna a primeira mulher arcebispa de Canterbury em mais de 500 anos. A posse, em cerimônia na catedral medieval no sudeste da Inglaterra, marca uma virada histórica para uma denominação dividida entre correntes progressistas e conservadoras.

Cerimônia combina tradição, política e diversidade

A catedral de Canterbury, fundada há mais de um milênio, recebe cerca de 2.000 convidados para a instalação de Mullally na Cadeira de Santo Agostinho, peça de madeira do século 13 que simboliza a autoridade máxima na hierarquia anglicana. O príncipe William, herdeiro do trono britânico, e sua esposa, a princesa Kate, acompanham a cerimônia na primeira fila, ao lado do primeiro-ministro Keir Starmer e de líderes religiosos de vários continentes.

A liturgia mistura latim, inglês e idiomas como o urdu, falado em países como Paquistão, e reforça o alcance global da Igreja Anglicana, com cerca de 85 milhões de fiéis em mais de 165 países. Um coral formado por mulheres canta e dança em parte do rito, enquanto Mullally cruza a nave principal com mitra dourada e vestes brancas, em contraste com as pedras cinzentas da catedral gótica.

No início da cerimônia, a nova arcebispa bate na porta oeste da igreja, gesto que remete à tradição de quem pede entrada para servir, e entra usando uma capa presa por um fecho inspirado no cinto que usava como enfermeira no Serviço Nacional de Saúde britânico. Crianças a recebem logo depois da soleira, numa coreografia discreta de acolhimento e simbolismo geracional.

Um anel em sua mão direita chama atenção dos presentes. A joia pertenceu ao arcebispo Michael Ramsey e foi dada a ele pelo papa Paulo VI em 1966, em um momento de reaproximação entre Roma e Canterbury, após quatro séculos de ruptura desde o cisma de Henrique 8º no século 16. O objeto ressurge agora como sinal de continuidade desse esforço ecumênico.

Primeiro sermão mira guerras, abusos e divisões internas

No púlpito de pedra, Mullally abre o primeiro sermão com um pedido simples e direto: paz. Reza pelo fim dos conflitos no Oriente Médio, na Ucrânia, no Sudão e em Mianmar e lembra que a violência armada continua a deslocar milhões de pessoas e a corroer comunidades inteiras. “Que a paz prevaleça”, diz, olhando para a nave repleta de bispos, embaixadores e fiéis.

Aos 63 anos, a ex-enfermeira não evita o tema mais delicado de sua gestão nascente: os fracassos da Igreja na proteção de vítimas de abusos. Ela reconhece, em voz firme, “os sofrimentos causados pelas falhas passadas da Igreja em casos de proteção”, um dos fatores que precipitam a renúncia de seu antecessor, Justin Welby. Afirma diante da congregação que pretende “permanecer comprometida com a verdade, a compaixão, a justiça e a ação”.

A data da posse reforça o tom teológico e político do momento. A quarta-feira coincide com a Festa da Anunciação, dia em que cristãos celebram o relato bíblico do anúncio do anjo a Maria. A liturgia explora o paralelo entre a jovem mulher da narrativa bíblica e a trajetória de Mullally, que recorda a própria adolescência. “Quando olho para trás em minha vida, para a Sarah adolescente, que depositou sua fé em Deus e se comprometeu a seguir Jesus, eu jamais poderia ter imaginado o futuro que me aguardava”, afirma.

Não se trata apenas de um rito interno. O bispo Philip Mounstephen, que a abençoa durante a instalação na cadeira diocesana, resume a dimensão da mudança à agência Reuters pouco antes da cerimônia. Ele lembra que o posto de Canterbury é “mais antigo que a Coroa” e define a chegada de uma mulher ao cargo como “uma ocasião histórica”. “Isso sinaliza uma enorme mudança que ocorreu na vida da Igreja”, diz.

Liderança feminina sob resistência e expectativa

A nomeação de Mullally, anunciada em outubro de 2025, desencadeia reações intensas dentro da Comunhão Anglicana, que reúne 42 províncias autônomas em vários continentes. Enquanto setores da Igreja da Inglaterra veem na escolha uma confirmação do avanço de mulheres e de grupos LGBTQIA+ em postos de comando, conglomerados conservadores no chamado Sul Global tentam se organizar para limitar sua influência.

O principal foco de oposição se concentra no Gafcon, aliança de congregações em países majoritariamente africanos e asiáticos que rejeitam bênçãos a casais do mesmo sexo e a ordenação de mulheres bispas. Em outubro, logo após o anúncio, o grupo ameaça criar uma liderança paralela à de Canterbury. Nas últimas semanas, porém, recua e decide formar um novo conselho consultivo, em vez de um cisma formal, num gesto que reduz, ao menos por ora, o risco de ruptura aberta.

Entre os críticos, o tom muda de confronto para disputa interna de argumentos. O bispo queniano Francis Omondi, alinhado ao Gafcon, explica essa nova estratégia ao chegar a Canterbury. “Mesmo sustentando que isso [bênçãos a casais do mesmo sexo] não é aceitável, queremos argumentar de dentro para que as pessoas também vejam a razão pela qual chegamos a essa conclusão”, afirma à Reuters. A declaração indica que a batalha passa a ser travada nos sínodos e assembleias da comunhão.

A função de arcebispa de Canterbury, diferentemente do papado no catolicismo romano, não carrega autoridade jurídica sobre as demais províncias. Mullally lidera por influência e capacidade de articulação, não por decreto. O título de “primaz da Comunhão Anglicana” funciona, na prática, como eixo simbólico de unidade e referência doutrinária em meio a uma teia de igrejas com culturas, legislações e sensibilidades teológicas distintas.

Impacto global e desafios de uma Igreja em transição

A chegada de uma mulher ao cargo máximo anglicano ocorre em um momento de forte tensão religiosa e política no mundo. Guerras na Europa e no Oriente Médio, avanço de governos autoritários e disputas em torno de direitos de minorias pressionam lideranças religiosas a se posicionar com clareza. Ao colocar paz, justiça social e combate a abusos no centro do primeiro sermão, Mullally sinaliza que pretende conectar o púlpito de Canterbury aos debates contemporâneos, dentro e fora dos templos.

O gesto também pressiona outras tradições cristãs a lidar com a questão da liderança feminina. Enquanto a Igreja Anglicana ordena mulheres bispas desde 1989 em algumas províncias e desde 2014 na Inglaterra, o catolicismo romano mantém o sacerdócio reservado a homens. A nova arcebispa evita a retórica de confronto, mas o simples fato de ocupar o posto amplia a cobrança por reformas em outras denominações e fortalece redes ecumênicas lideradas por mulheres.

A cerimônia desta quarta-feira traduz, em símbolos visíveis, a tentativa de segurar as pontas de uma comunhão esticada entre extremos. O anel dado por um papa a um arcebispo anglicano reaparece na mão de uma mulher, em 2026, enquanto orações ecoam em vários idiomas e um coral feminino conduz parte da liturgia. O conjunto busca mostrar que é possível manter a tradição de Canterbury e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas vozes.

Dentro da própria Igreja da Inglaterra, a posse tende a fortalecer alas reformistas que defendem maior inclusão de pessoas LGBTQIA+, proteção mais rígida a sobreviventes de abusos e renovação da linguagem litúrgica. Também pode reduzir o peso político de grupos que defendem uma volta a práticas anteriores ao século 20. Ao mesmo tempo, Mullally depende do diálogo com bispos conservadores para evitar que províncias inteiras, especialmente na África e na Ásia, se afastem de vez do eixo histórico de Canterbury.

Próximos passos e o teste de uma nova autoridade

O primeiro grande teste da nova arcebispa ocorre nos próximos meses, quando bispos e representantes leigos começam a preparar as próximas conferências pan-anglicanas, que discutem temas como casamento igualitário, migração, pobreza e liberdade religiosa. Cada palavra de Mullally sobre esses assuntos será examinada por províncias que medem o quanto estão dispostas a permanecer sob a mesma guarda-chuva espiritual.

Mullally repete, desde a nomeação, a fórmula que pretende orientar seu mandato: “unidade na diversidade”. Em entrevista em outubro, lembra que “somos uma família com uma raiz compartilhada, e em qualquer igreja global há grande diversidade”. A estratégia, porém, será testada diante de conflitos que se arrastam há décadas e que já derrubaram pontes entre bispos, dioceses e países inteiros.

A posse desta quarta-feira, marcada por aplausos prolongados e pela presença da mais alta elite política britânica, não encerra essas tensões. Inaugura uma fase em que a principal cadeira da Igreja Anglicana passa a ser ocupada por uma ex-enfermeira que se apresenta como pastora, mediadora e, agora, símbolo global de ruptura com meio milênio de liderança exclusivamente masculina. A resposta da comunhão a essa mudança definirá não só o futuro de Canterbury, mas o lugar da Igreja Anglicana em um século em que fé, poder e igualdade voltam a se encontrar no centro do debate público.

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