São Paulo pede quase R$ 200 milhões à BYD por Morumbi até 2026
O São Paulo oferece à montadora chinesa BYD os naming rights do Morumbi por quase R$ 200 milhões em um contrato de cinco temporadas, negociado no fim de 2024. As conversas, conduzidas pelo então presidente Julio Casares com o vice-presidente da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, travam em meio à crise política que leva à renúncia do dirigente. O acordo superaria em 40% o valor fechado com a Mondelez pelo nome Morumbis.
Negociação que mira o centenário e amplia a vitrine
O plano colocado à mesa prevê a troca do atual Morumbis por MorumBYD, com um compromisso mínimo de cinco temporadas, até o fim de 2026. O pacote projeta pagamento anual na casa de R$ 35 milhões, o que levaria o montante total a pelo menos R$ 175 milhões, com gatilhos e bônus capazes de aproximar a cifra de R$ 200 milhões. A proposta invade o centenário do clube, em 2025, e transforma o estádio em principal vitrine da expansão da marca chinesa no país.
A comparação com o contrato em vigor mostra o salto pretendido. Assinado no fim de 2023, o acordo entre São Paulo e Mondelez, dona da marca que batiza o Morumbis, rende cerca de R$ 25 milhões por ano, totalizando pouco mais de R$ 75 milhões até dezembro de 2026. A pedida à BYD representa um incremento de 40% na receita anual apenas com o nome do estádio, numa disputa direta por um dos ativos mais visíveis do futebol brasileiro.
Bastidores interrompidos pela crise política
As conversas ganham corpo no fim do ano passado, quando Casares intensifica a agenda comercial para reforçar o caixa antes do fim de sua gestão. O dirigente se aproxima de grandes marcas, renova patrocínios com Ademicon e Superbet e acerta a chegada da New Balance, em movimento de reposicionamento do São Paulo no mercado. A BYD entra nesse pacote como potencial parceira de longo prazo e com capacidade de investir em um projeto de visibilidade global.
Casares e Baldy se reúnem em almoços e encontros reservados para discutir valores, exposição de marca e contrapartidas em dias de jogo, eventos corporativos e ações digitais. A ideia internamente é aproveitar o momento de valorização do Morumbi, com calendário cheio, jogos de grande audiência e forte uso comercial, para reposicionar o naming rights em patamar considerado mais condizente com o tamanho do clube. Dirigentes veem o Morumbi como um ativo subaproveitado e defendem que o salto de R$ 25 milhões para R$ 35 milhões por temporada corrige parte dessa defasagem.
A crise política instalada no clube derruba o cronograma. O processo de impeachment contra Casares avança, o ambiente no Conselho se torna imprevisível e qualquer compromisso de longo prazo passa a ser visto com cautela. Em meio ao desgaste institucional, o presidente renuncia ao cargo, e a negociação com a BYD fica suspensa, à espera de uma posição definitiva da montadora. A marca sinaliza que dará a resposta ao São Paulo, mas até agora as tratativas não são retomadas.
O cenário se repete com a própria Mondelez. Em dezembro, o São Paulo planeja revisitar os termos do acordo vigente e tentar um reajuste que reflita a nova realidade de mercado, mas o turbilhão político trava qualquer avanço. Assim, o clube segue com um contrato que considera abaixo do potencial do estádio, enquanto observa rivais explorarem arenas mais modernas e alinhadas a grandes patrocinadores globais.
Impacto financeiro e imagem em jogo
Um contrato na faixa de R$ 175 milhões a R$ 200 milhões por cinco anos muda a escala das finanças do futebol tricolor. A diferença anual em relação ao acordo atual, perto de R$ 10 milhões, equivale ao salário de um jogador de alto nível ou ao custeio integral das categorias de base por alguns meses. Em cenário de orçamento apertado, endividamento elevado e pressão por títulos, esse reforço recorrente de caixa daria ao clube margem maior para investir em elenco e infraestrutura.
Do lado da BYD, a renomeação do Morumbi para MorumBYD representaria uma vitrine de alcance nacional em jogos de Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e torneios continentais. A associação com um estádio histórico, palco de finais e grandes públicos, aproximaria a montadora chinesa de torcedores e consumidores em um momento em que o mercado de carros elétricos e híbridos se expande no país. A marca passaria a ser citada diariamente por narradores, comentaristas e torcedores, o que costuma pesar na conta de retorno de mídia.
A interrupção das conversas expõe a fragilidade da governança tricolor. O episódio mostra como crises internas podem custar oportunidades comerciais raras em um mercado que ainda engatinha na venda de direitos de nomeação. Poucos estádios do país conseguem contratos robustos e de longo prazo nessa área, e a hesitação do São Paulo em meio à troca de comando reforça a percepção de instabilidade aos olhos de grandes investidores.
O clube, hoje, caminha em terreno delicado. Mantém o vínculo com a Mondelez até dezembro de 2026, com receita garantida, mas com sensação interna de que poderia arrecadar mais. Ao mesmo tempo, não consegue avançar em novas parcerias de grande porte enquanto a nova gestão tenta organizar a casa, recompor alianças políticas e apresentar um plano de longo prazo que convença o mercado de que o Morumbi é um investimento seguro.
Próximos passos e futuro do Morumbi
O desfecho da conversa com a BYD depende de dois movimentos paralelos. De um lado, a estabilização da política interna, com definição clara de prioridades e autonomia para a área de marketing negociar contratos estratégicos. De outro, o interesse real da montadora em manter o projeto MorumBYD vivo, em um cenário de concorrência crescente entre clubes por grandes patrocinadores.
Internamente, a avaliação é que o Morumbi continua sendo um ativo raro no futebol brasileiro, com capacidade de gerar receitas ainda maiores por meio de naming rights, shows e eventos corporativos. A dúvida, neste momento, recai menos sobre o valor do estádio e mais sobre a capacidade do São Paulo de oferecer segurança jurídica e previsibilidade a parceiros de longo prazo. Enquanto essa resposta não vem, o clube segue com o Morumbis estampado na fachada e com a sensação de que um acordo próximo de R$ 200 milhões pode ter escapado por causa de uma crise que começou longe do gramado.
