São Paulo, MS e SC mudam prova da CNH e tiram baliza até 2026
Os departamentos de trânsito de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina mudam as regras da prova prática da CNH a partir de janeiro de 2026. A baliza deixa de ser exigida em parte dos exames, e candidatos passam a poder dirigir carros com câmbio automático durante a avaliação.
Estados saem na frente de norma nacional
As mudanças ocorrem enquanto o Conselho Nacional de Trânsito, o Contran, publica a Resolução nº 1.020/2025, que cria o Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular. O documento promete padronizar, em todo o país, como os futuros motoristas são avaliados no volante, mas ainda não tem versão final divulgada.
Nesse intervalo, os departamentos estaduais de trânsito mantêm autonomia para definir as próprias regras. São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina aproveitam essa brecha e antecipam uma reforma na prova prática. A prioridade passa a ser o comportamento do candidato em percurso urbano, e não a execução de manobras específicas em circuito fechado.
Em São Paulo, o Detran anuncia o fim da baliza no exame prático de direção e autoriza o uso de veículos com câmbio automático. A avaliação ocorre apenas em trajeto de rua, acompanhado por um examinador, que observa atenção, respeito à sinalização, domínio do veículo e segurança durante todo o percurso. A manobra que por décadas simbolizou o medo de quem tenta tirar a CNH sai do centro da prova.
No Mato Grosso do Sul, o modelo também muda. O Detran-MS dispensa a baliza e concentra a avaliação em um percurso pré-definido, no qual o examinador monitora, em tempo real, como o candidato reage a situações corriqueiras do trânsito. Em Santa Catarina, a principal novidade é a liberação do câmbio automático, o que permite ao aluno fazer o exame em veículos mais próximos da frota que circula hoje nas grandes cidades.
Prova mais simples, custo menor e foco no trânsito real
A reformulação da prova prática reflete um cenário em que o trânsito urbano muda rápido. Carros automáticos deixam de ser exceção e se tornam padrão em muitas concessionárias. Em algumas capitais, a participação desses modelos já ultrapassa metade dos emplacamentos, tendência que pressiona os órgãos de trânsito a reverem regras pensadas para outra realidade.
A baliza, por anos, aparece em pesquisas internas de autoescolas como um dos principais motivos de reprovação. Instrutores relatam que alunos conduzem com segurança no dia a dia simulado, mas travam ao estacionar entre cones em espaço reduzido. A mudança, defendem, afasta um tipo de prova que pune o erro pontual e se afasta das situações mais frequentes da rotina ao volante.
Os Detrans também miram o bolso dos candidatos. Uma reprovação adiciona novas taxas, mais aulas extras e, muitas vezes, atraso de meses na entrega da carteira. Ao reduzir o peso de uma única manobra e concentrar a avaliação em todo o trajeto, as autoridades apostam em menos reprovações por detalhes e maior previsibilidade de custo para as famílias.
A discussão não é isolada. Em 2024, a renovação automática da CNH, para condutores em dia e sem restrições médicas, já beneficia cerca de 300 mil pessoas na primeira semana de implementação, segundo dados oficiais. O movimento indica uma tentativa de desburocratizar etapas consideradas puramente formais, sem abrir mão do controle sobre quem pode dirigir.
Especialistas em segurança viária veem ganhos e riscos. Defensores das mudanças afirmam que um exame centrado na condução em vias públicas forma motoristas mais atentos ao fluxo, à distância de segurança e ao uso correto de setas e freios. Críticos, porém, alertam que a retirada da baliza pode desprezar a habilidade de estacionar em vagas apertadas, presente em boa parte das cidades brasileiras, onde sobram carros e faltam espaços.
Pressão sobre autoescolas e debate nacional em aberto
O novo modelo força uma reviravolta nas autoescolas de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. Empresas que montam sua rotina de aulas ao redor do treino de baliza, em áreas fechadas e com cones, precisam redirecionar tempo e recursos para percursos de rua mais longos. A demanda por carros automáticos tende a crescer, o que deve movimentar locadoras, concessionárias e o mercado de seminovos usados em aulas.
Instrutores relatam, nos bastidores, uma mudança de foco no próprio discurso dentro do carro. Em vez de repetir comandos para manobras, o centro da aula passa a ser a leitura de placas, a antecipação de riscos e o controle emocional em situações como cruzamentos congestionados ou proximidade com motos. O exame de direção, nessas condições, se aproxima da experiência de quem dirige todos os dias.
Os próximos meses serão decisivos para saber se outros estados seguem o movimento de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. A publicação definitiva do Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular, prevista na Resolução nº 1.020/2025, pode consolidar um padrão nacional ou impor ajustes às experiências locais. Governos estaduais e o próprio Contran acompanham os índices de reprovação, o volume de novas carteiras e os dados de acidentes para medir o efeito das mudanças.
A discussão extrapola o balcão do Detran e chega às ruas. Motoristas mais antigos se perguntam se a nova geração de condutores sairá das autoescolas preparada para manobras complexas em estacionamentos apertados. Candidatos veem, pela primeira vez em anos, a possibilidade de uma prova menos traumática e mais conectada ao trânsito real. O país terá de decidir, na prática, até que ponto flexibilizar a porta de entrada para o volante contribui, de fato, para um trânsito mais seguro.
