Sanções de Trump agravam crise em Cuba e encarecem vida diária
Nos primeiros meses de 2026, cubanos encaram uma crise mais dura nas ruas de Havana. Medidas econômicas do governo Donald Trump encarecem o transporte, esvaziam farmácias e remodelam a rotina na ilha.
Uma mala para roupas, outra para suprimentos
No balcão do embarque em São Paulo, a divisão da bagagem denuncia a nova fase da crise. Um comerciante cubano que vive no Brasil leva uma mala pequena com roupas e outra, maior, lotada de remédios, sabonetes, pasta de dente e analgésicos. “Ou eu levo isso, ou minha família fica sem”, diz ele, pedindo para não ter o nome publicado por medo de represálias.
Menos de um ano separa esta viagem da anterior, feita em 2025. O intervalo, porém, basta para que o comerciante relate uma piora visível nas ruas de Havana e em cidades vizinhas. “Na última vez já estava difícil. Agora parece outro país. Fila maior, ônibus mais caro, muito remédio sumiu”, afirma. O relato ecoa a percepção de moradores, que veem a pressão de Washington se traduzir em escassez diária.
A nova rodada de sanções dos Estados Unidos, definida pela Casa Branca de Trump ao longo de 2025, aperta o fluxo de combustível e restringe operações financeiras ligadas a Havana. O governo norte-americano diz que mira o regime, mas o resultado mais imediato recai sobre o transporte, o abastecimento de energia e o acesso a produtos básicos.
Crise energética encarece ônibus e aprofunda escassez
O efeito mais palpável surge nos pontos de ônibus. Em bairros centrais de Havana, o preço da passagem sobe em questão de meses, impulsionado pela crise energética que reduz a oferta de combustíveis. Moradores relatam aumentos acumulados que passam de 30% desde meados de 2025, num país em que boa parte da população vive com renda mensal equivalente a menos de US$ 50.
“Antes eu pegava dois ônibus por dia para ir trabalhar. Agora tento ir a pé quando consigo, porque o dinheiro não dá”, diz uma enfermeira de 42 anos, moradora da capital, que também pede anonimato. As longas esperas nos pontos, ônibus lotados e a diminuição de linhas revelam o peso da crise energética, que afeta inclusive a iluminação pública e o funcionamento de equipamentos em hospitais.
Farmácias, que já conviviam com prateleiras vazias, passam a racionar ainda mais. Analgésicos simples, antibióticos de uso comum, fraldas e produtos de higiene desaparecem por semanas. Quando reaparecem, são vendidos em quantidade limitada por pessoa ou negociados a preços muito acima do oficial em mercados informais espalhados pelas cidades.
O comerciante que viaja do Brasil tenta preencher parte dessa lacuna. Ele calcula que pelo menos metade dos 23 quilos permitidos na mala despachada agora é ocupada por remédios e itens de higiene. “Não é luxo. É sabonete, escova de dente, remédio para dor, pomada para criança”, enumera. Cada viagem vira uma operação de abastecimento familiar, repetida por centenas de cubanos que vivem fora da ilha.
Pressão política, impacto humano
A estratégia de Washington segue um roteiro conhecido. Desde o endurecimento do embargo nos anos 1960, a Casa Branca recorre a sanções como forma de pressionar o governo cubano. A gestão Trump retoma e aprofunda esse fio histórico depois de um breve período de distensão iniciado por Barack Obama. O objetivo declarado é isolar politicamente Havana e forçar mudanças internas. Na prática, a população sente primeiro.
O encarecimento do transporte atinge quem depende do salário público e não recebe remessas regulares do exterior. Jovens que estudam em universidades estatais relatam que deixam de ir a aulas para economizar a passagem de ônibus. Idosos, que vivem de pensões modestas, passam a escolher entre comprar comida ou pagar deslocamentos para consultas médicas.
Do lado sanitário, a falta de medicamentos básicos aumenta o risco de agravamento de doenças simples. Um resfriado que poderia ser tratado com antitérmicos e anti-inflamatórios evolui com mais frequência para quadros respiratórios graves. Hospitais recorrem a estoques estratégicos, mas o volume não cobre todas as demandas, sobretudo em áreas urbanas densas.
O governo cubano acusa abertamente os Estados Unidos de praticar uma “asfixia econômica” com objetivos políticos. Washington argumenta que as sanções miram setores controlados pelo Estado e forças de segurança. Entre o discurso diplomático e o cotidiano das famílias, no entanto, forma-se um hiato. “Quando você fica três horas na fila do ônibus e volta sem remédio para o seu filho, pouco importa quem é o alvo oficial da sanção”, resume o comerciante.
A pressão externa também reorganiza relações na região. Países latino-americanos que historicamente mantêm diálogo com Havana passam a discutir, em fóruns multilaterais, o alcance humanitário das sanções. Organizações internacionais alertam para o risco de que a deterioração econômica se converta em nova onda migratória pelo Caribe, com impactos diretos em fronteiras já tensionadas.
Incerteza à frente e tensão interna
O horizonte imediato não traz sinais claros de alívio. As medidas de Trump seguem em vigor em 2026, e não há acordo público em negociação que reduza a pressão. Cada novo pacote de restrições a empresas de transporte e energia que operam com Cuba aprofunda a dificuldade de acesso a combustível, encarece insumos e reduz a margem de manobra do governo da ilha.
Analistas ouvidos por organismos regionais estimam que, mantido o atual ritmo de aperto econômico, a renda disponível das famílias cubanas pode encolher em até 10% neste ano, somando inflação, perda de subsídios e alta no custo de transporte. A consequência provável é um aumento da insatisfação social, com mais protestos localizados e maior desgaste político para o governo.
Dentro das casas, o cálculo diário fica mais rígido. Famílias reorganizam rotinas, cortam deslocamentos, reduzem o consumo de proteínas e dependem ainda mais de parentes no exterior. A mala cheia de remédios e sabonetes, que atravessa o corredor de desembarque no aeroporto de Havana, passa a ser símbolo de uma equação desequilibrada: a vida cotidiana depende, cada vez mais, da boa vontade de quem consegue sair.
A pergunta que se impõe à ilha e ao continente é quanto tempo esse modelo se sustenta. Se a pressão continuar sem canais de negociação política, Cuba pode entrar num ciclo ainda mais profundo de escassez e fuga de moradores. Em meio ao tabuleiro geopolítico, o desfecho segue em aberto, enquanto o peso das sanções se mede, dia após dia, no bolso e na saúde dos cubanos.
