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Rússia, Ucrânia e EUA encerram 1ª rodada de negociações em Abu Dhabi

Rússia e Ucrânia encerram neste sábado (24) a primeira rodada de negociações para tentar pôr fim à guerra, em Abu Dhabi, sob mediação direta dos Estados Unidos. Após quase três horas de conversa a portas fechadas, delegações falam em encontro “construtivo”, mas admitem que a retirada de tropas do Donbass segue como principal obstáculo.

Abu Dhabi vira palco da tentativa de virar a página da guerra

O lobby de um hotel de luxo em Abu Dhabi se transforma, por algumas horas, no centro da política de segurança europeia. De um lado, militares russos liderados pelo almirante Ígor Kostiukov, chefe da inteligência militar de Moscou. De outro, a comitiva ucraniana chefiada por Kyrylo Budanov, braço direito de Volodymyr Zelensky na Presidência. Ao centro, representantes do governo Donald Trump tentam arrancar dos dois lados um roteiro mínimo para a paz.

As delegações chegam ao fim da tarde aos Emirados Árabes Unidos carregando mais de dois anos de guerra e dezenas de milhares de mortos. O encontro deste sábado dura cerca de 180 minutos, sem fotos oficiais nem declarações públicas. As versões sobre o que ocorre na sala fechada circulam depois, em off, por meio de agências estatais russas e de assessores ucranianos falando a veículos americanos.

Uma fonte russa ouvida pela agência TASS afirma que “as conversas foram concluídas” e descarta a possibilidade de extensão da rodada ao longo do dia. A mesma fonte, que não tem o nome divulgado, insiste que “não se pode dizer que não houve resultados, pois eles existem”, mas evita qualquer detalhe sobre eventuais pontos de consenso. Integrantes da delegação admitem, porém, que trabalham com a hipótese de uma segunda rodada já nos próximos dias.

Do lado ucraniano, o tom é semelhante. Negociadores dizem ao portal Axios que a reunião é “construtiva” e “positiva”. Repetem que houve resultados, sem especificá-los, e projetam a continuidade do processo na próxima semana. Um funcionário americano, também em anonimato, descreve o clima como “otimista e positivo” e indica 1º de fevereiro como data provável para o retorno das delegações a Abu Dhabi.

Os bastidores mostram o peso político da tentativa de reabrir um canal direto após meses de escalada militar. Putin autoriza a mesa trilateral depois de se reunir, na madrugada de sexta-feira (23), com os emissários da Casa Branca Steve Witkoff e Jared Kushner. Zelensky faz o mesmo um dia antes, em Davos, ao se encontrar com Trump à margem do Fórum Econômico Mundial. O gesto indica que Moscou e Kiev, embora distantes de um cessar-fogo imediato, aceitam testar um formato com a presença formal de Washington.

Donbass trava avanço, mas abre debate sobre garantias de segurança

Os três lados concordam em um ponto central: o Donbass segue como nó principal da equação. A região, no leste da Ucrânia, é alvo de disputas desde 2014 e se torna o coração do conflito a partir da invasão em larga escala russa, em fevereiro de 2022. No encontro deste sábado, a discussão gira em torno do controle do território e do futuro das tropas estacionadas ali.

Uma fonte oficial russa resume à TASS a dimensão do impasse: “Esta questão continua sendo a mais complexa. Para a Rússia, é importante a retirada do Exército ucraniano do Donbass. Para isso, estão sendo considerados diferentes parâmetros de segurança”. Na prática, Moscou busca consolidar no papel o avanço obtido no campo de batalha e empurrar a linha de frente para longe de sua fronteira.

Kiev reage com sua própria linha vermelha. A delegação ucraniana insiste em garantias internacionais que ativem, na prática, a lógica do artigo 5º da Otan, cláusula que trata a agressão a um membro como ataque a todos. A exigência é clara: o país só aceita discutir retirada ou reposicionamento de tropas se tiver compromissos firmes de defesa por parte dos Estados Unidos e de aliados europeus. Em outras palavras, a Ucrânia pede um escudo político e militar que desestimule uma nova ofensiva russa nos próximos anos.

Os negociadores analisam, ao longo da reunião, vários documentos sobre “território, garantias de segurança e outros aspectos” do acordo pacífico, segundo outra fonte citada pela TASS. Não há texto público, nem minuta oficial. O esforço se concentra em identificar áreas onde há espaço para recuos graduais, mecanismos de verificação internacional e eventuais zonas desmilitarizadas sob monitoramento externo.

Enquanto os diplomatas discutem no Golfo Pérsico, a guerra segue em solo ucraniano. Na madrugada de 30 de novembro do ano passado, um ataque russo com drones atinge um edifício residencial em Vyshhorod, na região de Kiev, e provoca incêndio de grandes proporções. A cena, registrada por agências internacionais, ajuda a explicar a pressa por algum tipo de trégua. Cada semana de combate representa novos mortos, mais deslocados e pressão adicional sobre os orçamentos militares de Moscou, Kiev e países da Otan.

O impacto transborda as fronteiras. Desde o início da invasão, o conflito desorganiza cadeias de fornecimento de grãos, fertilizantes e energia, alimenta a inflação global e força governos a rever planos de investimento. Uma redução gradual das hostilidades, ainda que distante de um acordo final, poderia aliviar o custo de seguros marítimos no Mar Negro, reduzir o risco de novos fluxos de refugiados para a Europa e abrir espaço para a reconstrução de cidades devastadas no leste da Ucrânia.

Negociações avançam com prazo curto e muitos riscos à frente

Washington tenta transformar o encontro deste sábado em ponto de virada. O funcionário americano que acompanha as conversas admite que russos e ucranianos provavelmente precisam de novas rodadas em Moscou ou Kiev antes de qualquer reunião direta entre Zelensky e Putin. Fala inclusive na possibilidade de uma sessão conjunta com Donald Trump, hipótese que dependeria de avanços concretos e ainda está distante.

As delegações chegam a Abu Dhabi com perfis distintos. A Rússia cumpre a promessa de “elevar o nível” e envia apenas militares de alto escalão, comandados por Kostiukov, número dois do Estado-Maior. A Ucrânia aposta em uma equipe mista: Budanov, chefe do gabinete presidencial, divide a mesa com David Arajamia, líder do partido de Zelensky no Parlamento, e Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança Nacional. O desenho sinaliza que Kiev trata o encontro não só como discussão militar, mas também como negociação política ampla.

O calendário é apertado. A próxima rodada, prevista para 1º de fevereiro, precisa produzir algo mais palpável que adjetivos otimistas. Sem gesto claro em relação ao Donbass ou a um mecanismo de garantias internacionais, cresce o risco de frustração e de uso político interno do fracasso por parte de Moscou, Kiev e Washington. Cada lado disputa também a narrativa doméstica, em um cenário de desgaste de opinião pública com uma guerra que se arrasta há quase quatro anos.

Os próximos dias serão dedicados a consultas internas. Negociadores retornam a Moscou e Kiev para testar limites, medir resistências de militares e calcular o custo de possíveis concessões. A Casa Branca acompanha de perto o movimento, ciente de que um acordo, mesmo parcial, teria peso nas relações dos EUA com a Europa, com a China e com o próprio eleitorado americano.

Ninguém fala em paz iminente. O que se vê em Abu Dhabi é o esboço de um processo ainda frágil, dependente de gestos que nenhum dos lados parece disposto a fazer sozinho. A segunda rodada mostra se o encontro deste sábado marca apenas uma pausa na guerra ou o início, ainda tímido, de uma negociação capaz de reordenar o mapa político e de segurança da Europa.

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