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Rússia lança maior ataque do ano à Ucrânia durante reunião com EUA

A Rússia lança, nesta sexta (24), o maior ataque aéreo do ano contra cidades ucranianas, em plena rodada de negociações com Ucrânia e Estados Unidos em Abu Dhabi. Mais de 370 drones e 21 mísseis atingem infraestrutura civil e energética em meio ao inverno rigoroso, matam ao menos uma pessoa e deixam dezenas de feridos.

Ataque em massa em meio à tentativa de diálogo

As sirenes começam a soar em Kiev poucas horas depois do fim do primeiro dia de conversas trilaterais nos Emirados Árabes Unidos. A força aérea ucraniana aciona as defesas antiaéreas, mas não consegue evitar novos danos em bairros residenciais e instalações estratégicas.

O prefeito da capital, Vitali Klitschko, confirma ao menos um morto e quatro feridos. Relata incêndios, prédios danificados e uma cidade que, em parte, acorda sem água e sem aquecimento. Em um dos pontos mais frios do ano, os termômetros marcam -12°C na manhã de sábado.

Jornalistas em Kiev descrevem uma madrugada de explosões sucessivas no céu e estrondos ao longe, enquanto destroços de drones e mísseis caem sobre ruas e pátios internos. A Rússia mira, segundo o presidente Volodymyr Zelensky, o setor de energia, considerado “crucial” para manter o país em funcionamento durante o inverno.

O ataque não se limita à capital. Em Kharkiv, segunda maior cidade ucraniana, uma maternidade e um dormitório para deslocados internos sofrem impactos, de acordo com o prefeito Ihor Terekhov. Pelo menos 19 pessoas ficam feridas, entre elas uma criança. As regiões de Sumy e Chernihiv, no norte, também entram na lista de alvos.

Em pronunciamento divulgado nas redes, Zelensky afirma que a ofensiva russa durante a madrugada demonstra que “Moscou tenta negociar com uma mão e intimidar com a outra”. Ele diz que a Ucrânia “não aceitará ultimatos territoriais sob bombardeio”.

Negociações travadas em Abu Dhabi

A ofensiva coincide com o segundo dia de negociações em Abu Dhabi, que reúne delegações de alto escalão da Ucrânia, da Rússia e dos Estados Unidos. Os encontros começam na sexta-feira (23) e se estendem até este sábado (24), sem anúncio de avanço concreto.

Do lado russo, participa uma equipe que inclui um alto oficial da inteligência militar, encarregado de traduzir para a mesa de negociações a leitura do Kremlin sobre o campo de batalha. A Ucrânia envia diplomatas e autoridades de segurança de primeira linha. Os EUA se fazem representar pelo enviado do presidente Donald Trump, Steve Witkoff, pelo genro de Trump, Jared Kushner, e pelo conselheiro da Casa Branca Josh Gruenbaum.

Washington intensifica a pressão por um acordo que reduza o risco de prolongamento do conflito, ainda que aliados europeus temam um arranjo que consolide ganhos territoriais russos. “Nosso foco é uma paz que seja sustentável”, afirma o principal negociador ucraniano, Rustem Umerov, em mensagem publicada no X após o primeiro dia de reuniões. Ele agradece a mediação norte-americana e fala em buscar uma “paz digna e duradoura”.

Em público, Zelensky adota tom mais cauteloso. Diz que é “cedo demais” para tirar conclusões das conversas e lembra que a Rússia continua exigindo a retirada ucraniana da região de Donbas, condição que Kiev rejeita desde o início da guerra. O Kremlin repete a linha de que a desocupação total de Donetsk e Luhansk é pré-requisito para qualquer acordo.

Quase quatro anos depois da invasão em grande escala, Moscou mantém controle sobre cerca de 20% do território reconhecido internacionalmente como parte da Ucrânia soberana. Além de quase toda Luhansk, a Rússia ocupa partes de Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia, regiões-chave para a indústria e para o acesso ao Mar Negro e ao mar de Azov.

Em Abu Dhabi, delegados circulam pelos corredores do hotel sob rígida segurança. A delegação russa deixa o local ao fim da tarde deste sábado, informa a agência estatal RIA Novosti. A ucraniana confirma o encerramento da rodada sem detalhar se há esboço de documento conjunto. “Ainda não está claro se algum progresso foi alcançado”, admite um integrante da equipe de Kiev, sob condição de anonimato.

Inverno mais duro e impasse em Donbas

Os ataques desta noite atingem em cheio a infraestrutura que sustenta a vida diária em um país em guerra. Segundo a prefeitura de Kiev, quase 6 mil blocos de apartamentos ficam sem aquecimento após a ofensiva. Outras áreas da cidade passam horas sem água encanada, enquanto equipes correm para reparar redes danificadas.

No leste, moradores de Kharkiv descrevem janelas estilhaçadas em quartos de recém-nascidos e corredores cobertos de entulho na maternidade atingida. Famílias que fugiram de outras regiões e vivem em dormitórios para deslocados internos relatam, mais uma vez, a sensação de recomeçar do zero após cada ataque.

O foco na infraestrutura energética repete uma tática que a Rússia intensifica desde o fim de 2022, quando passou a mirar usinas, subestações e linhas de transmissão. A estratégia busca desgastar a população civil e testar a capacidade da Ucrânia de manter serviços básicos sob pressão constante.

Donbas permanece no centro da disputa. A região, formada por Donetsk e Luhansk, concentra parte importante do carvão e da indústria pesada ucraniana. Abriga, ao longo de ferrovias e rodovias, um “cinturão de fortalezas” que sustenta a defesa no leste do país e abastece a linha de frente. Militares em Kiev alertam que perder esse corredor deixaria o restante do leste praticamente exposto.

Para Moscou, o controle de Donbas garante profundidade defensiva e um argumento político interno de que a guerra entrega resultados tangíveis. Para Kiev, ceder esse território equivaleria a legitimar uma ocupação iniciada em 2014, quando separatistas pró-Rússia, apoiados pelo Kremlin, passaram a controlar partes da região.

Pressão internacional e incerteza adiante

O governo Trump aumenta o tom sobre a necessidade de um acordo e indica que não quer entrar em um novo ano eleitoral com a guerra ainda em escalada. Em privado, diplomatas europeus temem que a pressa norte-americana resulte em concessões assimétricas em favor de Moscou.

Autoridades ucranianas reforçam que qualquer compromisso precisa incluir garantias de segurança de longo prazo e um cronograma claro de retirada russa. Também insistem em mecanismos de reconstrução para cidades repetidamente atacadas, como Kharkiv, e para setores estruturais, como o de energia.

Na frente interna, a Ucrânia encara uma emergência humanitária crescente. Hospitais lidam com feridos dos ataques recentes enquanto tentam manter estoques de medicamentos e energia em níveis mínimos. Equipes de resgate trabalham sob temperaturas negativas e risco constante de novos bombardeios.

As delegações deixam Abu Dhabi sem uma próxima data confirmada, mas integrantes dos três lados admitem, nos bastidores, que novas conversas podem ocorrer já na semana seguinte. Entre o campo de batalha congelado e as salas de reunião com ar-condicionado, o impasse sobre Donbas segue como a peça que emperra todo o tabuleiro.

Enquanto isso, milhões de ucranianos aguardam respostas práticas: se terão aquecimento nas próximas semanas, se escolas e hospitais continuarão funcionando e se as fronteiras hoje em linha de frente serão permanentes ou provisórias. Até que a diplomacia consiga avançar, a guerra continua a ditar o ritmo do inverno no Leste Europeu.

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