Rússia lança maior ataque aéreo do ano na Ucrânia após rodada de negociações
A Rússia realiza entre a noite de sexta (24) e a madrugada deste sábado (25) o maior ataque aéreo do ano contra a Ucrânia, horas após a primeira rodada de negociações trilaterais com Kiev e Washington em Abu Dhabi. Mísseis e drones atingem Kiev, Kharkiv e outras regiões, deixando ao menos um morto, 31 feridos e danos severos a infraestruturas essenciais em meio ao inverno de -12 ºC.
Bombardeio em plena tentativa de diálogo
O ataque acontece no intervalo entre a primeira e a segunda rodadas de conversas entre delegações da Ucrânia, da Rússia e dos Estados Unidos, realizadas a portas fechadas nos Emirados Árabes Unidos. Horas depois de os negociadores deixarem a mesa em Abu Dhabi, sirenes voltam a soar em Kiev e em outras cidades, enquanto a defesa aérea ucraniana tenta conter o que autoridades classificam como o maior bombardeio deste ano.
Segundo o presidente Volodymyr Zelensky, a Rússia lança mais de 370 drones e 21 mísseis contra diferentes regiões do país. Os ataques miram sobretudo o sistema energético ucraniano, já fragilizado por quase quatro anos de guerra, e alvos civis, como conjuntos residenciais e prédios públicos. “O foco foi, novamente, o setor de energia, crucial durante este inverno rigoroso”, afirma Zelensky em pronunciamento diário.
Na capital, o barulho de explosões atravessa a madrugada. O prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, informa que destroços de mísseis interceptados caem sobre áreas residenciais e provocam incêndios em edifícios. Pelo menos uma pessoa morre na cidade, e milhares passam a noite em abrigos ou em estações de metrô. Quase 6 mil blocos de apartamentos ficam sem aquecimento, enquanto outras partes da capital perdem temporariamente o abastecimento de água.
O cenário se agrava por causa do frio extremo. Na manhã de sábado, os termômetros marcam -12 ºC em Kiev. Para famílias que vivem em prédios danificados ou sem aquecimento, cada hora sem energia representa um risco imediato, especialmente para crianças e idosos. Equipes de emergência se dividem entre o combate a incêndios, o resgate de moradores e tentativas de restabelecer o fornecimento básico.
Kharkiv, segunda maior cidade da Ucrânia, também entra na mira. O prefeito Ihor Terekhov relata que uma maternidade e um dormitório para deslocados internos sofrem danos em ataques noturnos. Pelo menos 19 pessoas ficam feridas, incluindo uma criança. As imagens que circulam nas primeiras horas do dia mostram janelas estilhaçadas, corredores cobertos de destroços e macas sendo empurradas às pressas por enfermeiras ainda de uniforme.
Outras regiões, como Sumy e Chernihiv, ao norte, registram impactos de mísseis e drones. Autoridades locais relatam cortes de energia em cidades pequenas e vilarejos próximos à fronteira, onde a população já convive com alarmes quase diários. A escala do ataque reacende o temor de uma nova campanha prolongada contra a rede elétrica, semelhante à ofensiva russa de 2023, que provocou blecautes em todo o país.
Pressão militar em meio à disputa por Donbas
As explosões em território ucraniano ressoam diretamente nas negociações em Abu Dhabi. De acordo com a agência estatal russa TASS, a segunda rodada de conversas começa enquanto os ataques ainda estão em curso. O principal ponto de discórdia continua sendo o controle territorial, em especial a região de Donbas, no leste da Ucrânia.
O Kremlin insiste que Kiev aceite retirar suas forças de Donetsk e Luhansk, áreas que compõem o coração industrial do país e onde a Rússia consolida, desde 2014, sua presença militar e política. A Ucrânia rejeita essa exigência de forma reiterada. Perder Donbas significaria abrir uma brecha estratégica em sua defesa, fragilizando o restante do leste e comprometendo ferrovias, estradas e centros industriais que sustentam a linha de frente.
A Rússia ocupa hoje cerca de 20% do território reconhecido internacionalmente como parte da Ucrânia soberana, incluindo quase toda Luhansk e partes de Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia. Moscou tenta usar esse controle territorial e a superioridade em meios militares como instrumento de pressão na mesa de negociação. O ataque massivo, horas depois da primeira reunião trilateral conhecida desde o início da invasão em larga escala, reforça essa estratégia de força.
Os Estados Unidos atuam como mediadores. A delegação americana é chefiada pelo enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, e inclui Jared Kushner, genro do presidente, e o conselheiro da Casa Branca Josh Gruenbaum. Washington pressiona por um acordo que encerre os combates, apesar de preocupações na Ucrânia e entre aliados europeus de que concessões territoriais possam favorecer Moscou e enfraquecer a segurança na região.
Do lado ucraniano, o principal negociador, Rustem Umerov, resume o objetivo oficial em poucas palavras: “paz digna e duradoura”. Em mensagem publicada no X após o fim da primeira rodada, ele agradece aos Estados Unidos pela mediação e informa que “novas reuniões estão agendadas para amanhã”. Zelensky, porém, adota um tom cauteloso e ressalta que ainda é cedo para qualquer conclusão. “Veremos como as negociações se desenrolam amanhã e quais serão os resultados”, afirma.
O presidente reforça que a prioridade de Kiev é garantir que Moscou aceite, de fato, o fim da guerra. “O principal é que a Rússia finalmente esteja disposta a pôr fim à guerra. A posição da Ucrânia é clara”, diz Zelensky, ao explicar que definiu os limites aceitáveis para sua delegação. No centro desses limites está justamente a integridade territorial do país, questão que emperra qualquer avanço mais concreto.
Inverno, energia e futuro das negociações
Os ataques desta madrugada ampliam a sensação de vulnerabilidade entre civis ucranianos, que entram em mais um inverno sob bombardeios. Ao concentrar fogo sobre subestações, linhas de transmissão e depósitos de combustível, a Rússia atinge não apenas alvos militares, mas o cotidiano de milhões de pessoas. Interrupções prolongadas de eletricidade, aquecimento e água potável tendem a agravar a crise humanitária, sobretudo em cidades mais expostas ao frio intenso.
Organismos internacionais alertam desde 2022 para o impacto direto da guerra sobre hospitais, escolas e serviços básicos. Em Kharkiv, a destruição parcial da maternidade e do dormitório para deslocados internos afeta parte da população mais frágil do conflito: mulheres grávidas, recém-nascidos e famílias que já perderam suas casas. Em Kiev, a combinação de cortes de energia e temperaturas negativas pressiona ainda mais os abrigos subterrâneos e as redes de apoio emergencial.
Na arena diplomática, o ataque testa o fôlego das negociações em Abu Dhabi. O governo Trump precisa equilibrar o desejo de mostrar liderança internacional com o risco de ser visto como avalista de um acordo desigual. Para a Rússia, a demonstração de força busca sinalizar que o tempo joga a seu favor. Para a Ucrânia, cada míssil que cai reforça o argumento de que qualquer paz duradoura precisa incluir garantias concretas de segurança.
As próximas horas indicam se o bombardeio fortalece ou enfraquece a disposição das partes em continuar conversando. Delegações voltam à mesa com o barulho das explosões ainda ecoando em Kiev e Kharkiv. Enquanto negociadores discutem fronteiras, corredores humanitários e arranjos de segurança, milhões de ucranianos esperam, no escuro e sob o frio, por uma resposta simples e ainda distante: quando os ataques vão parar?
